Renascer das Cinzas, um imperativo a todo ser vivo!

A materialidade da vida, por mais exuberante e cheia de celebrações que seja, como no Carnaval, é transitória.

Escrito por
Adalberto Barreto producaodiario@svm.com.br
Legenda: As sociedades precisam reaprender a equilibrar matéria e espírito, progresso e sentido, poder e compaixão, assim como os rituais marcam ciclos de celebração e introspecção.
Foto: Pexels

A expressão “renascer das cinzas” é um conceito presente em diversas culturas, evocando a ideia de transformação, ressurreição e renovação. Ao nos lembrarmos de que somos matéria e a matéria retorna à matéria, observamos como diferentes tradições interpretam esse ciclo. Na Quarta-feira de Cinzas, ao recebermos a cinza na testa, ouvimos do sacerdote: “Tu és pó e ao pó voltarás.” Este gesto simples e simbólico é um lembrete contundente de nossa impermanência. A materialidade da vida, por mais exuberante e cheia de celebrações que seja, como no Carnaval, é transitória.

Assim, o ritual das cinzas marca o início de um período de introspecção e preparação espiritual, sinalizando o momento de reflexão sobre o que realmente sustenta nossa existência. O ato de receber as cinzas na testa não apenas recorda a finitude do corpo, mas também, para além da matéria, convida à conversão interior. Este ritual nos direciona para a busca de sentido mais profundo, reconhecendo que o essencial da vida está além da matéria, na dimensão espiritual e na vivência do amor e da solidariedade. Na tradição grega, destaca-se o mito do pássaro Fênix, uma ave lendária que, ao chegar ao fim de sua vida, se consome em fogo e, das próprias cinzas, renasce.

Esse ciclo de morte e renascimento representa um poderoso símbolo de esperança, indicando que, mesmo diante da destruição ou do fim, existe sempre a possibilidade de um novo começo. Assim, a Fênix personifica a capacidade de superar adversidades e de recomeçar, reforçando a mensagem de que a transformação é parte essencial da existência e de que o sentido profundo da vida se renova a cada ciclo. 

Carnaval: celebração coletiva, que une o que a sociedade separa

O Carnaval, com seus enfeites, máscaras, danças, desfiles, música e alegorias, é um momento especial de celebração da vida em toda sua exuberância. É a festa das aparências, das cores, onde a beleza desfila em carros alegóricos, seja na Sapucaí no Rio de Janeiro, nos desfiles das escolas de samba em São Paulo, nas multidões que animam Salvador ou no imponente Galo da Madrugada em Recife.

A festa representa uma poderosa expressão social do valor de reafirmar nossa condição de comunidade e nossa pertença à humanidade. Em contraste com o individualismo e a tendência à coisificação das pessoas.  O Carnaval cria um espaço de encontro e comunhão e de reconstrução do tecido social fragmentado.

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O Carnaval se configura como uma verdadeira mega terapia social a céu aberto, promovendo a união daquilo que a sociedade tende a separar. Nesse contexto, as barreiras impostas pelas rotinas e pelas estruturas sociais são temporariamente dissolvidas, permitindo que as pessoas se reconheçam mutuamente como iguais, compartilhem alegrias e experimentem um sentido ampliado de pertencimento. 

Do carnaval à Quarta-feira de Cinzas: o papel dos rituais na espiritualidade das culturas 

Abaixo estão alguns dos grandes rituais das grandes religiões, com uma breve explicação de como cada um recorda essa dimensão espiritual essencial da vida. Cristianismo: a vida é feita de ciclos que se fecham e se completam, e os calendários litúrgicos — de todas as religiões — nos lembram constantemente o lado invisível e oculto da existência. Na quarta-feira de cinzas, o gesto de receber as cinzas na testa lembra a transitoriedade da vida material e convida à conversão interior e à preparação espiritual para a Quaresma, um período de introspecção.

Eucaristia (Santa Missa): celebra a comunhão com Deus e com a comunidade, reforçando o amor, a solidariedade e o sentido do serviço ao próximo, valores centrais da espiritualidade cristã. Na tradição cristã, somos lembrados, por meio de rituais, que viver sem amor e solidariedade é abortar nossa missão de vida. Todas as religiões, em sua essência, devem servir de lembrete para não nos esquecermos do eixo espiritual que sustenta nossa existência. 

Na cultura islâmica, as mesquitas convidam os fiéis a se conectarem com Allah, com Deus, cinco vezes ao dia através do chamado à oração. Salat (orações diárias): orientam o fiel a interromper a rotina material para se reconectar com Allah, lembrando que a vida não se sustenta apenas pelo mundo visível. Ramadã (jejum): um período de autocontrole, purificação e caridade, que educa o espírito a dominar os desejos e a cultivar empatia e compaixão.

Desta forma, nos lembra que existe uma força, uma energia fonte de toda a vida e que precisamos nos conectar a ela para sobreviver em um mundo material frequentemente duro e cruel, que nos faz perder o sentido da vida. O mundo material nos ocupa e nos consome energia; e, se perdermos a dimensão espiritual, eterna, nossas vidas perdem o sentido profundo do existir. 

Judaísmo: Shabat, o descanso sagrado semanal, convida à pausa, à contemplação e à santificação do tempo, lembrando que a vida não se resume à produção e ao consumo. Yom Kippur (Dia do Perdão): um ritual de jejum, arrependimento e reconciliação, voltado à purificação interior e à restauração da relação com Deus e com o outro. 

Hinduísmo, Puja (rito de devoção): oferendas, mantras e gestos simbólicos que expressam a conexão com o divino no cotidiano. Kumbh Mela: peregrinação e banho ritual em rios sagrados, simbolizando purificação espiritual e renovação interior. 

Budismo, Meditação: prática central que conduz ao autoconhecimento, à atenção plena e à libertação do sofrimento causado pelo apego ao mundo material. Vesak: celebra o nascimento, a iluminação e a morte de Buda, recordando o caminho espiritual como processo de transformação. 

Religiões de matriz africana, rituais com os Orixás: danças, cantos e oferendas que celebram a ligação entre natureza, ancestralidade e espiritualidade, integrando corpo, comunidade e sagrado. Enfim, iniciações e festas litúrgicas marcam ciclos de vida, morte e renascimento simbólico, reforçando identidade e pertencimento. Em todas essas tradições, os rituais rompem a lógica puramente material, criando espaços de silêncio, celebração, memória e transcendência em meio às turbulências do existir. 

O ciclo da matéria e a busca pelo sentido

Renascer das cinzas, seja literal ou simbolicamente, é um convite à reflexão sobre nossa trajetória. A matéria se transforma, a alegria se esvai, mas o sentido profundo da vida se renova em cada ciclo. Celebramos, nos despedimos, meditamos, buscamos conexão com o divino e com o outro.

Quatro mulheres posam sorrindo em meio a uma multidão durante uma festa noturna. Elas usam acessórios dourados em formato de auréola com raios ao redor da cabeça e seguram um leque com as cores do arco-íris e a palavra “Rozângela” escrita ao centro. Ao fundo, outras pessoas aparecem dançando e celebrando em um ambiente iluminado por luzes coloridas.
Legenda: O Carnaval, com seus enfeites, máscaras, danças, desfiles, música e alegorias, é um momento especial de celebração da vida em toda sua exuberância.
Foto: Ismael Soares

Em todos esses momentos, o essencial é não perder de vista, sustentando nossa existência: o amor, a solidariedade e a espiritualidade. Este ciclo de celebração e introspecção é o que nos permite, como o pássaro da mitologia, renascer das próprias cinzas e encontrar um novo significado para viver. 

A demolição dos valores civilizatórios e o esquecimento da dimensão espiritual 

O mundo contemporâneo atravessa um período marcado por profundas crises simbólicas, éticas e humanas. Observa-se, em diversas sociedades, um processo de erosão dos valores civilizatórios que historicamente sustentaram a convivência, o cuidado com o outro e o sentido coletivo da existência. A produtividade eclipsa a humanidade. Nesse cenário, a lógica dominante tem privilegiado quase exclusivamente a dimensão material do poder econômico e político, relegando a segundo plano — ou mesmo ignorando — a dimensão espiritual que dá sentido e limite à ação humana. 

Quando o poder é exercido apenas a partir de indicadores econômicos, produtividade, controle e força, a vida tende a ser reduzida a números, resultados e interesses imediatos. Essa visão estreita transforma pessoas em meios, e não em fins, fragilizando princípios como dignidade, solidariedade, compaixão e responsabilidade ética. Quando perdemos a dimensão espiritual, nossas vidas perdem o sentido profundo do existir. Essa constatação vale não apenas para indivíduos, mas também para estruturas de poder de nações hegemônicas.

Historicamente, as grandes civilizações compreenderam que o poder sem transcendência degenera em dominação, e que a ausência de valores espirituais abre espaço para a violência simbólica, a exclusão social e o esvaziamento do sentido coletivo. Por isso, as religiões e tradições espirituais criaram rituais, calendários e práticas que interrompem a lógica puramente material, lembrando constantemente a impermanência da matéria, os limites do ego e a centralidade do amor e da justiça. Esses rituais existem para não nos deixar esquecer do eixo espiritual que sustenta nossa existência.

No entanto, quando lideranças e sistemas se afastam dessa dimensão espiritual — entendida aqui não como confessionalismo, mas como consciência ética, transcendência e responsabilidade pelo outro —, instalase um vazio. Esse vazio é frequentemente preenchido por consumismo, polarizações, culto ao poder e banalização da vida. A destruição dos valores civilizatórios é um processo intencional promovido por grupos autoritários, visando eliminar obstáculos à busca por poder e lucro. Isso enfraquece estruturas de respeito e convivência, resultando na perda de compromisso, verdade e cuidado com vulneráveis e a natureza.

O individualismo cresce, destacando a importância de resgatar princípios como solidariedade e responsabilidade coletiva para uma vida social saudável. Ao ignorar a dimensão espiritual, o poder deixa de servir e passa a apenas se afirmar. Nesse contexto, a espiritualidade — presente em todas as grandes tradições — surge não como fuga do mundo, mas como força crítica, capaz de lembrar que toda autoridade deve estar a serviço da vida, e não da morte simbólica ou real. Renascer das cinzas, portanto, não é apenas um ritual religioso, mas um chamado civilizatório.

Assim como os rituais marcam ciclos de celebração e introspecção, também as sociedades precisam reaprender a equilibrar matéria e espírito, progresso e sentido, poder e compaixão. Sem essa reconciliação, o futuro corre o risco de ser tecnicamente avançado, mas humanamente empobrecido. Com ela, abrese novamente a possibilidade de reconstruir valores, restaurar vínculos e devolver à vida pública um horizonte ético e espiritual que sustente verdadeiramente a existência humana.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.