As Olimpíadas resgatam valores universais em meio ao caos mundial

A presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Kirsty Coventry, destacou de maneira enfática os valores humanos que fundamentam o evento.

Escrito por
Adalberto Barreto producaodiario@svm.com.br
Legenda: A cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de inverno de 2026, realizada em Milão, destacou o tema “Armonia”
Foto: Gabriel Heusi/COB

Dois cenários têm sido frequentemente debatidos nas redes sociais. O cenário político-econômico internacional, iniciado há cerca de dois anos, revela um ambiente caótico, marcado pelo desrespeito às leis que sustentam uma convivência pacífica.

Nesse contexto, prevalece a lei do mais forte e do mais astuto, em detrimento de normas e princípios universais que orientam as relações entre pessoas e nações. Em oposição, surge o cenário proporcionado pelas Olimpíadas, que resgata e reafirma a importância das leis que regem as disputas por medalhas.

Neste ambiente, todos os países e seus representantes são obrigados a obedecer rigorosamente às regras estabelecidas para a competição. Ninguém chega se impondo como o mais forte.

A cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de inverno de 2026, realizada em Milão, destacou o tema “Armonia”, celebrando a cultura italiana com apresentações inspiradas em sua arte, música e história. A presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Kirsty Coventry, destacou de maneira enfática os valores humanos que fundamentam o evento.

Em sua fala, ela ressaltou a coragem, o respeito e a união como elementos essenciais que guiam atletas e delegações de todo o mundo. Coventry enfatizou ainda o compromisso com o fair play, conceito que vai além das regras do esporte e representa o jogo limpo, a ética e o respeito mútuo entre competidores.

Veja também

Ao afirmar que os atletas representam o melhor da humanidade, Kirsty Coventry reforçou a ideia de que os Jogos são mais do que uma competição esportiva: eles simbolizam a integração, o respeito e a convivência harmoniosa entre diferentes povos e culturas. Assim, a presidente do COI reiterou o papel dos Jogos Olímpicos como espaço de celebração dos valores universais e da busca por uma convivência pacífica, mesmo diante de um cenário internacional marcado por tensões e violações de normas. 

Princípios das Olimpíadas e da ONU 

As Olimpíadas são regidas pela Carta Olímpica, que consagra princípios fundamentais como o respeito mútuo, igualdade de oportunidades, fair play e a proibição de qualquer forma de discriminação. Paralelamente, a Organização das Nações Unidas (ONU) estabelece normas baseadas em sua própria Carta, que define objetivos como a manutenção da paz, respeito aos direitos humanos, cooperação internacional e soberania dos países membros.

Tanto as Olimpíadas quanto a ONU compartilham a missão de orientar a convivência e o respeito entre diferentes nações, promovendo valores universais de tolerância e justiça. 

Desrespeito às leis internacionais e suas consequências. 

No entanto, observa-se frequentemente o desrespeito às leis que regem o convívio entre as nações. Exemplos disso incluem invasões de países, anexações de territórios, tratamento desumano a migrantes — perseguidos em suas residências e locais de trabalho, em situações que remetem a práticas da Gestapo na Alemanha nazista —, além da perseguição a minorias e a proliferação de atos de racismo e xenofobia. Essa desordem e violação dos direitos humanos provocam a desestruturação das relações tanto humanas quanto internacionais, fomentando insegurança, medo e ódio entre os povos. 

A mensagem das Olimpíadas: num mundo onde até governantes poderosos desrespeitam leis, destacamos cinco dimensões principais: valores sociais, impacto econômico, desenvolvimento urbano, ambiente e cultura. Esses elementos ajudam a entender por que os Jogos ainda têm relevância simbólica e prática num cenário internacional marcado por violações de regras, tensões políticas e fragilidade institucional.

As Olimpíadas promovem princípios como respeito, igualdade, fair play e cooperação entre povos. Estudos destacam que os Jogos reforçam a união entre culturas e inspiram jovens por meio de exemplos de superação e disciplina.

Imagem mostra artistas em trajes verdes detalhados posicionados em círculos ao redor de um grande anel dourado iluminado no centro de um palco escuro, durante uma performance na abertura da Olimpíada de Inverno 2026.
Legenda: As Olimpíadas promovem princípios como respeito, igualdade, fair play e cooperação entre povos
Foto: Gabriel Heusi/COB

Esse aspecto simbólico é essencial num mundo onde normas de convivência internacional são frequentemente quebradas. Em meio a um cenário global marcado por guerras, invasões, perseguição a minorias, racismo, xenofobia e a erosão das normas internacionais, as Olimpíadas surgem como um contraponto ético e simbólico.

Elas lembram à humanidade que é possível estabelecer e respeitar regras compartilhadas, mostrando que a cooperação entre diferentes culturas pode funcionar e que disputas podem ocorrer dentro de limites claros e com respeito mútuo. As Olimpíadas demonstram que, mesmo diante de um contexto internacional conturbado, a humanidade é capaz de produzir ordem, beleza e união.

Princípios de convivência internacional

Embora os Jogos não resolvam conflitos globais, eles servem como exemplo prático de como o mundo poderia ser se os princípios de convivência internacional fossem respeitados da mesma forma que são nos Jogos. Dessa maneira, seu legado simbólico enfatiza a relevância de valores universais, como a tolerância, a justiça e o respeito, atuando como uma fonte de inspiração para a criação de um convívio mais harmonioso entre os povos. Impacto social e motivação coletiva.

Os Jogos Olímpicos mobilizam a sociedade, incentivando crianças e jovens a observar atletas brasileiros alcançando destaque no universo esportivo. O evento destaca como disciplina, respeito às regras e esforço coletivo levam a resultados positivos, demonstrando que excelência é possível com ética. As Olimpíadas reforçam a importância da cooperação e do respeito mútuo, promovendo relações baseadas em princípios sólidos e igualdade de oportunidades, mesmo em um mundo marcado por conflitos e instabilidade. 

Desenvolvimento econômico. Embora sejam polêmicos, muitos Jogos proporcionam vantagens econômicas duradouras: um estudo da FGV revelou que o Rio 2016 teve um impacto de R$ 99 bilhões na produção total e gerou mais de 465 mil postos de trabalho, sendo a maior parte dos investimentos provenientes do setor privado.

Em outras palavras, quando bem planejados, os Jogos podem reforçar serviços públicos, infraestrutura e impulsionar a economia local. Projetos de mobilidade, revitalização de áreas degradadas e modernização urbana são parte frequente do legado olímpico. Exemplos como o BRT do Rio e melhorias urbanas surgiram diretamente desse contexto.

Em Tóquio, houve forte foco em sustentabilidade, tecnologia e reconstrução nacional após desastres, que contrasta com a desorganização e arbitrariedade comum na política internacional atual. Sustentabilidade e consciência ambiental. Os Jogos recentes têm priorizado: energia renovável, redução de resíduos, mobilidade sustentável.

Essas ações ampliam a conscientização global sobre práticas responsáveis. Cultura e identidade. Os Jogos fortalecem a cultura local e projetam identidade nacional para o mundo. Mostram a diversidade humana e reforçam a convivência respeitosa entre nações. Por que isso é essencial hoje? Num mundo marcado por unilateralismo, invasões, perseguição a minorias, racismo e xenofobia, erosão de normas internacionais, as Olimpíadas funcionam como um contraponto ético e simbólico.Elas lembram que: regras compartilhadas são possíveis.

Imagem em close-up dos cinco anéis olímpicos dourados suspensos contra um fundo escuro. Os anéis estão envoltos em uma explosão simétrica de fogos de artifício brancos e faíscas que emanam de suas bordas, criando um efeito de luz radiante e fumaça clara no topo.
Legenda: Os Jogos mostram, na prática, que disputas podem ocorrer dentro de limites éticos, que diferentes nações podem conviver em harmonia, dialogar e que a humanidade continua capaz de criar momentos de união e ordem.
Foto: Gabriel Heusi/COB

Cooperação entre diferentes culturas funciona. Disputas podem ocorrer com respeito e limites claros. A humanidade ainda é capaz de produzir ordem, beleza e união.

Valores universais

É inegável que as Olimpíadas não solucionam problemas globais, mas funcionam como um modelo prático de como o mundo poderia ser se os princípios de convivência internacional fossem aplicados como são nos Jogos. Em um cenário mundial marcado pela degradação de normas internacionais, conflitos e pela transgressão das leis por parte de líderes políticos proeminentes, as Olimpíadas se configuram como um poderoso lembrete de que o multilateralismo, a coexistência baseada na diversidade, nas regras, no respeito e na colaboração permanecem viáveis.

Seu legado — que se materializa na promoção de valores universais, na inspiração social, no desenvolvimento econômico e urbano, na sustentabilidade e na celebração da diversidade cultural — atua como um contraponto simbólico ao tumulto político atual.

Os Jogos mostram, na prática, que disputas podem ocorrer dentro de limites éticos, que diferentes nações podem conviver em harmonia, dialogar e que a humanidade continua capaz de criar momentos de união e ordem. Mais do que um evento esportivo, as Olimpíadas revelam o mundo que poderíamos construir se os princípios que as regem fossem levados a sério no cenário internacional.

As Olimpíadas representam uma oportunidade única para que todos os governantes, ao presenciarem as disputas entre seus atletas e os de outros países, possam reconsiderar suas práticas unilaterais, autoritárias e discriminatórias. O evento esportivo evidencia que a beleza e a harmonia são frutos da diversidade de origens, cores e valores, demonstrando como diferentes culturas podem conviver de forma respeitosa e produtiva.

Espera-se que as Olimpíadas sirvam como um momento de reciclagem e recuperação para dirigentes políticos que, em muitos casos, já estão sendo avaliados e reprovados por seus próprios povos. E para a democracia, um convite a utilizar nossos votos para penalizar aqueles líderes políticos que desrespeitam as leis. Diante de um cenário internacional repleto de tensões, desrespeito às normas e violações de direitos humanos, os Jogos Olímpicos emergem como um espaço simbólico para reflexão e autocrítica dos governantes e de nós, governados.

O evento, fundamentado no respeito, igualdade e convivência harmoniosa, desafia líderes a repensarem políticas e atitudes incompatíveis com esses valores universais. Mais do que vitórias esportivas, as Olimpíadas inspiram a superação do orgulho, a prepotencia e a revisão de condutas inadequadas e danosas às conquistas civilizatórias, promovendo mudanças alinhadas à ética e à justiça.

O ambiente olímpico representa um convite concreto à tolerância, ao diálogo e ao compromisso com a dignidade humana e ao multilateralismo, servindo de modelo para a construção de uma convivência global mais justa e pacífica. Assim, o legado olímpico vai além do esporte, funcionando como referência para líderes mundiais que buscam transformar práticas em prol de um mundo mais justo e harmonioso. 

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.

Assuntos Relacionados