Beatriz Lobo, a mãe expatriada que, na falta de rede de apoio, virou criadora de conteúdo infantil
Em um trabalho de redução de danos, a psicóloga cearense procura construir histórias com linearidade de pensamento e construção de relações de causa e consequência para as crianças, sem bombardeá-las de estímulos.
A psicóloga cearense Beatriz Lobo mora nos Estados Unidos. Mãe expatriada de uma criança de três anos, ela conta que precisou oferecer telas ao filho em momentos pontuais pela ausência de uma rede de apoio. “Eu sabia, enquanto psicóloga, que o ideal seria não oferecer nenhum tempo de tela para ele tão pequeno”, admite. Mas pela necessidade, iniciou uma busca por redução de danos e se dedicou a encontrar conteúdos em português que julgasse bons o suficiente para oferecer a ele e que, ao mesmo tempo, prendessem sua atenção sem bombardeá-lo com muitos estímulos.
“Não obtive muito sucesso nas minhas buscas e então surgiu a ideia: por que não juntar minha paixão antiga pelo teatro com meu conhecimento profissional para criar algo para os pequeninhos?”, conta.
O ponto de partida para a produção dos conteúdos é sempre o mesmo: o que as crianças na faixa etária entre 0 a 4 anos gostariam de assistir? “A partir daí, crio um roteiro no qual minha personagem busca ensinar novas brincadeiras, apresentar bons modelos comportamentais, estimular a imaginação e, em paralelo, trazer conteúdos educacionais interessantes para crianças pequenas”, explica Beatriz.
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A estrutura física para as gravações, segundo ela, é bem reduzida e muito mais simples do que as pessoas imaginam. “Nos vídeos que gravo em casa, conto apenas com um fundo verde, algumas luzes, um tripé, meu celular e um microfone. Nos vídeos gravados externamente, conto com a ajuda do meu marido para fazer as filmagens. Em alguns poucos vídeos, contratei um filmmaker para realizar as gravações”, conta.
Foi assim que surgiu, no YouTube, o canal “Eu sou a Bee”, que leva as crianças dos museus ao parque e à biblioteca, além de trazer explicações sobre os meios de transporte, partes do corpo humano e até os maiores animais do mundo.
Beatriz conta que até teve dúvidas na adolescência sobre qual profissão seguir, mas sempre soube que gostaria de atuar com o público infantil, fosse na pedagogia, no teatro ou nas artes cênicas. “Tenho mais de 10 anos de experiência trabalhando com crianças e o que busco levar às famílias é ser uma rede de apoio segura quando não houver outra alternativa”, diz. “Fico muito feliz quando uma mãe me encontra e diz: ‘Confio no que você grava, então consigo tomar um banho no meu dia graças aos seus vídeos.’ Infelizmente, a vila necessária para educar e cuidar de uma criança é hoje bem reduzida ou inexistente na vida de muitos pais”, complementa.
Neste trabalho de redução de danos, Beatriz afirma que sempre procura construir histórias com começo, meio e fim, trazendo linearidade de pensamento e a construção de relações de causa e consequência para as crianças. “Os estímulos visuais e o ritmo dos vídeos são, em sua maioria, mais lentos, e adiciono na legenda de cada vídeo sugestões de atividades para realizar com os pequenos após o fim do episódio”, pontua.
Ela lembra que, apesar de se manterem mais passivas no momento em que estão assistindo ao episódio, depois de algum tempo é muito comum que as crianças queiram repetir as brincadeiras ou atividades realizadas pela Bee em seu dia a dia. “O canal modela bons comportamentos, ensina bons conteúdos e amplia o repertório das crianças de forma muito natural, o que é muito positivo”, argumenta.
A psicóloga conta que o filho de 3 anos é uma grande inspiração para o canal existir, por diferentes razões: “A primeira delas é que o canal é um trabalho mais flexível, o que me permite participar ativamente do seu dia a dia. A segunda é que foi a partir de uma demanda da minha maternidade, vivida sem rede de apoio, que surgiu a necessidade de buscar conteúdos de maior qualidade no YouTube. E, por último, mas não menos importante, a imersão na maternidade me fez mergulhar ainda mais no universo infantil, o que me trouxe inúmeras ideias para o canal”.
O percurso na psicologia também trouxe bagagem e conhecimento para que Beatriz gravasse conteúdos de maior qualidade. Ela conta que trabalhou por muitos anos em uma escola, o que lhe permitiu aprender muito sobre pedagogia e processos de aprendizagem. Já na clínica infantil, além de estudar bastante análise do comportamento, pôde construir relações profundas com os pequenos e compreender o mundo a partir do olhar deles.
“Minha paixão pelo teatro também foi um fator importante na criação do canal. Fiz teatro por cerca de 10 anos durante a infância e a adolescência, e poder novamente construir um personagem e interpretá-lo me permitiu realizar um sonho antigo de voltar a atuar”, finaliza.