A importância do descanso social
Poder olhar para si, conversar consigo, aquietar a mente de estímulos ajuda na regulação emocional, no desempenho cognitivo.
Interagir, agir entre, estar no meio dos pares, ser afetado, aprender, sentir, conviver, partilhar, experimentar junto, prestar atenção ao outro, negociar, ser empático, combinar, escutar, trocar ideias: todas essas dimensões são cruciais em nosso processo de desenvolvimento. O outro nos amplia, nos fortalece, nos afeta, construtiva e destrutivamente. O outro nos marca, nos compõe em memória, em vínculo.
Com o avanço das grandes cidades e das possibilidades de interação pelas redes sociais, podemos ser hiperestimulados por contato social, demandados por mensagens, atividades, conectividade em tempo integral. Interagir pode nos fortalecer, proteger, cuidar, curar. Entretanto, ser capaz de ficar consigo, de ter momentos de descanso das interações para poder restaurar, recompor, experimentar o ócio social é necessário e imprescindível para a saúde mental.
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Poder olhar para si, conversar consigo, aquietar a mente de estímulos, parar, relaxar, descansar, ouvir a si, prestar atenção ao seu ritmo, seus desejos, olhar para o dia, integrar o vivido, ficar em silêncio, realizar pausas das demandas emocionais, auxilia na regulação emocional, no desempenho cognitivo (durante o descanso é muito frequente conseguirmos encontrar respostas para problemas complexos), além de auxiliar na redução de tensão e estresse.
As interações sociais podem ser fabulosamente prazerosas; entretanto, demandam atenção, energia, concentração para compreender as linguagens, os estímulos sociais, entender o ambiente e os afetos mobilizados. Durante as interações podemos ficar emocionalmente exaustos diante de expectativas, do desejo de agradar, de tentar analisar a dinâmica das interações e nem sempre nos damos conta do que pode ser posto em movimento enquanto memória, afeto e sensações.
Relacionar-se exige esforço emocional, físico e cognitivo que pode ocasionar grande desgaste, dor de cabeça e cansaço. Ao manter atenção nas conversas, interpretar o ambiente, regular as emoções que afloram das interações sem o devido descanso para acomodar essas experiências e processar as emoções vividas, pode ser um passo para quadros como Burnout, exaustão emocional e até diminuição da capacidade de empatia e de se relacionar.
Caso o seu trabalho exija muitas interações, trabalhe com público, necessite falar com muitas pessoas, responder muitas mensagens, especialmente profissionais de saúde, educação, comunicação; o descanso se torna imprescindível para sua saúde mental: um tempo sem celular, um momento sozinho após um dia de trabalho intenso, um espaço para criar uma “câmara de descompressão”, momentos sem precisar decidir, interagir e que seja capaz de intercalar com dias com menos demandas sociais.
Além disso, o distanciamento após muitas interações torna-se necessário para elaborar e processar o vivido. Ser capaz de solidão, ficar bem na própria companhia, escutar-se internamente, distanciar de estimulação social seja presencial ou virtualmente é fundamental para a criação, para a aprendizagem e para a construção de um mundo interno rico, vibrante, de alguém que dialoga consigo, se respeita, cuida e se pensa.
O descanso intercalado é diferente de alguém que nunca consegue interagir ou que não deseja manter nenhum contato social. A existência da dificuldade de interagir, o desejo de isolamento constante e contínuo, em conjunto com imenso sofrimento psíquico, pode ser indicativo de quadros de depressão ou de grande ansiedade.
Quando o outro individual ou coletivo pesa, exige, manipula, absorve, controla, torna-se ainda mais necessário a construção de ilhas de descanso. Mesmo quando a interação é prazerosa, é necessário o intervalo para recompor. Até o que é bom, se acontece infinitamente gera desconforto. Quando o descanso não acontece após muitas demandas sociais é possível que aumente a irritabilidade, produza ações de forma reativa, com pouca tolerância a situações desgastantes ou emocionalmente exigentes, pouca paciência e ampliação de conflitos e dificuldades nas interações.
*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.