Hamnet e a experiência do luto

O destino que daremos ao que perdemos pode nos fazer naufragar ou evoluir.

Escrito por
Alessandra Silva Xavier producaodiario@svm.com.br
Legenda: Shakespeare perdeu um filho, Hamnet, e boa parte de suas obras posteriores a isso abraça temas como o sofrimento, o luto, a melancolia, a dor e a relação entre pai e filho.
Foto: Divulgação.

Um filme pode conter emoções complexas que atravessam do universal ao individual, conectando o íntimo com dores de toda a humanidade. Somos sujeitos que se constituem a partir das perdas. Guardamos em nós rastros, vestígios do vivido, daquilo que nos é importante — aquilo em que investimos amor e desejo.

Quando perdemos esses objetos (pessoas, ideias, experiências, partes de nós, do nosso corpo, outros objetos carregados de representações), a forma de lidarmos com a dor da perda é reinvesti-los em memória e depositá-los dentro de nós.

Esse processo de luto é constituinte de quem somos. Não existimos sem perdas, porque nos tornamos o registro do somatório do que perdemos.

Quem somos é uma amálgama dos vestígios de quem amamos e daquilo que fomos impactados; que não possuímos mais, mas que deixou suas marcas em nós, por identificação, memória, saudade e desejo de ser e ter.

Uma obra de arte nos conecta com essas experiências do íntimo, dos inúmeros lutos que guardamos em nós e que nos abastecem e impulsionam. O destino que daremos ao que perdemos pode nos fazer naufragar ou evoluir.

O filme Hamnet apresenta William Shakespeare em sua jornada para se tornar quem se é. Independente de ser britânico, ele consegue se comunicar com emoções que encontram eco em todas as linguagens.

Veja também

Shakespeare perdeu um filho, Hamnet, e boa parte de suas obras posteriores a isso abraça temas como o sofrimento, o luto, a melancolia, a dor, a relação pai e filho.

Muitos homens guardam as suas dores e não conseguem falar sobre elas, chorá-las; aprendem a fugir, a silenciar. Nem percebem a tristeza virando raiva e indiferença nas relações e muitas vezes impedindo até outras pessoas de viverem seus lutos e suas perdas.

Shakespeare abraça a dor através da arte, recria nas personagens, os objetos perdidos e as dores que necessitam uma palavra, uma imagem, uma forma para serem expressas.

Perder um filho é uma das maiores dores que uma pessoa pode experimentar. E, se o luto não for vivido, culpa, mágoa e raiva podem perseverar por gerações e paralisar a vida. Perder um filho é uma interrupção do que poderia, deveria, desejaria ter sido e jamais será.

Existem os lutos que fazem parte do ciclo da vida. Na adolescência, precisamos lidar com o luto pelo corpo infantil, pela idealização dos pais.

Ao longo da vida, os lutos pelas nossas partes idealizadas, pelas mudanças corporais, pelas relações perdidas, trabalhos não conquistados, sonhos financeiros, pelo passado e pelo futuro que pode não coincidir com a fantasia.

Os lutos nos ajudam a alimentar as fantasias. Quando sonhamos com quem perdemos, quando inventamos saídas reparadoras para o perdido, quando construímos festas como o Carnaval, onde, na festa coletiva de arte e cultura, reinventamos o que gostaríamos de ser e podemos dar vazão ao que desejaríamos enquanto sujeito e sociedade. O luto envolve reparação e criação.

Quando a dor pode ser comunicada e aquilo que foi perdido pode ser revisitado, outros destinos se tornam possíveis.

Posso destinar o amor, o cuidado, os sonhos para outras pessoas, outros projetos, posso libertar, através da arte ou do trabalho, outras dores aprisionadas de pessoas que também perderam e posso reinventar outras possibilidades de filiação e vínculo.

Na arte, posso recriar o filho crescido, os desejos realizados, os diálogos que ficaram em suspensão. Na arte, os lutos podem ser tocados, com a sabedoria de que irão nos acompanhar feito uma outra pele, de uma outra forma, feito uma companhia serena, que talvez pare de doer e se torne memória e afeto.

Na arte podemos reviver os lutos, as partes idealizadas e perdidas de nós, lidar com os desencantos, as vulnerabilidades, e reencontrar o prazer e a alegria.

O amor pelos que ficam é caminho de cura. Na suspensão da emoção do cinema, do teatro, da pintura, da música, da leitura compartilhada, sabemos que não estamos sós.

Muitos já atravessaram e muitas mãos existem para nos acolher. Shakespeare criou um luto compartilhado com suas obras, tornou a sua dor uma dor universal pelos leitores de seus escritos e permitiu aos homens o encontro com a delicadeza do sensível, com a força da poesia e da emoção.

E, na genialidade do filme, teatro, literatura e cinema se encontram, expressando a atemporalidade do criar.

Para poder se encontrar com seu talento e sua dor, ele precisou ser “lido” enquanto sujeito, pela sua companheira, Anne Hathaway, uma mulher forte, inteligente, à frente do seu tempo, independente e a grande impulsionadora do seu trabalho, que percebeu que ele precisava ir para Londres para poder criar e encontrar espaço para seu talento. Precisamos de apoio para viver nossos lutos e nosso poder de criar e curar.

Veja também

O fantasma do pai de Hamlet, na obra, aparece para denunciar o próprio assassinato,    mostrando que a verdade precisa vir à tona, que precisamos nos deparar com nossas verdades para que elas deixem de nos assustar.

O luto precisa que o passado encontre suas respostas. Se não conseguimos oferecer à memória a verdade que ela pede, não descansamos. E quantas vezes não somos traídos ou nos tornamos os assassinos de nossos próprios desejos?

O que nos aconteceu — o vivido — exige justiça, exige que olhemos para nossas dores e cuidemos delas.

Em Hamlet há um luto que pede atenção, uma culpa que pede absolvição, um pai tentando se perdoar pela ausência e impotência diante da incapacidade de salvar o filho.

Quantas culpas precisamos revisitar, quantas absolvições precisamos nos oferecer, quantos fantasmas precisamos enfrentar? Como ir em frente quando desejo, dever e culpa paralisam? Como sair de uma dor que congela?

Como encontrar mãos que entendam que precisamos de colo? Se os lutos não são acolhidos enquanto parte da vida, enquanto processo e travessia do longo existir, ficamos em círculos ou imobilizados em mágoa.

O que foi perdido, se dói, é porque recebia muito investimento afetivo. Era uma pessoa com quem se brincava, falava, fazia planos, conversava. Na ausência, para onde esses afetos irão?

Reposicioná-los ativa a saudade, por isso muitos se distanciam, fogem. Mas, com isso, perdem também a intensidade do desejo e da memória.

Fale sobre a pessoa, lembre dos bons momentos, veja fotos, filmes, músicas, agradeça o tempo vivido, lembre-se do que ela gostava, do cheiro, da voz, dos gestos. Pense no que sente saudade, acolha as lágrimas, permita dar-lhe vida em sua memória e acolha o sentimento que vier.

Silenciar uma perda é perder duas vezes; pois, se pudermos atravessar a dor, ela nos presenteia com inspiração, vida e desejo.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.

 

Assuntos Relacionados