Pelo quê você engoliu o choro e precisa chorar
O patriarcado estrutural, que organiza relações, projetos políticos e econômicos, que legitima que um gênero pela força, violência e poder deve e pode se sobrepor ao outro, instala processos subjetivos que passam a regular afetos, emoções e relações entre os gêneros e de um sujeito consigo, afetando a ambos, com consequências mortais para um deles: o feminino.
Entretanto, ao incorporar esses padrões, que por serem estruturais se inserem em um sistema que molda subjetividades de homens e mulheres, diluídos em processos educativos, no cotidiano, nas relações íntimas, no ambiente familiar e que, mesmo com investimentos para desconstruir o que pode ter sido internalizado que nos machuca e aos outros, pode nos levar a ficar reféns de condutas inconscientes que muitas vezes nem percebemos que se instalaram em nós.
Um dos grandes vestígios é a dificuldade no universo masculino em expressar emoções que representam a sensação de vulnerabilidade. Nesse contexto, para ser forte, poderoso e viril, as emoções podem significar fraqueza, pois expõem algo que não se controla, revela dores, necessidade do outro, o poder do outro sobre nós, o desejo em ser desejado pelo outro. Revela que não nos bastamos sozinhos e que o amor envolve acordos e limites, o que confronta com a ideia de submissão, domínio e controle.
Assim, quando machucados, podemos ter ouvido o "engula o choro", "roupa suja se lava em casa", "não confie em estranhos", “comporte-se feito homem”, “não me faça passar vergonha".
O engolir o choro, aliado ao não poder partilhar as tristezas com desconhecidos, constrói um ambiente de isolamento e silêncio diante dos sofrimentos e, principalmente, diante das dores iniciais. Assim, ao ser contido na manifestação inicial do afeto que precisaria de colo, o sujeito endurece e pode levar esse agir ao longo da vida. Muitas vezes, compreendendo que a única emoção legitimada é a raiva.
Quando machucado, esconde-se, foge, silencia, busca o oposto: performar alegria e superação instantânea, escape do pensar e do sentir. Pode expressar indiferença, silenciamento e desqualificação diante de manifestação de afeto. Quantos filhos jamais conseguiram ter o abraço, a valorização das suas conquistas, ou um “Eu te amo” do pai?
Muitos dirão que isso não faz falta, que a ausência de carinho os ajudou a serem fortes, repetindo a trajetória patriarcal, feito uma herança simbólica de posse do ritual de endurecimento afetivo e desimportância dos vínculos e das relações, como sinal de sucesso e masculinidade. Entretanto, em algum lugar interno permanece um lago, um rio que se movimenta com as lágrimas à espera de transbordar.
Disfarçadas, as lágrimas podem sair quando o time perde, sofre rebaixamento, podem até serem liberadas diante da morte de algum parente, mas ficam contidas diante do cotidiano da dor, represadas diante das relações íntimas, paralisadas diante da arte, congeladas diante de filhos, amigos, amores.
Esses choros que não puderam ser chorados ainda vivem e podem ser assustadores pelo que ameaçam em vulnerabilidade e humanidades. Esse sujeito que se constitui sustentando uma masculinidade na brutalidade e na força vive com um desconhecido/conhecido dentro de si.
Às vezes pode ser inclusive desconfortável receber demonstrações de carinho, pode ser confuso distinguir tristeza, raiva, dor, medo, insegurança. Pode ser difícil falar de amor, pode ser difícil pedir ajuda. Muitas vezes diante do doloroso que pode pegar de surpresa, pode encontrar saída apenas no grito, para afastar, para que não percebam a fragilidade.
Pode se esconder, pode dormir, pode fugir para jogos, redes sociais, bebida, trabalho, sexo. E pode chegar em um ponto que de tanto fugir e se esconder já nem saber mais quem se é. Pode achar que precisa humilhar e atacar outros homens para se sentir reconhecido e fortalecido na sua masculinidade. Você pode achar que se um homem for gentil, atencioso, delicado, isso questiona a masculinidade.
Pode ser difícil reconhecer que faltou aquele colo dos pais, que faltou aquela conversa, aquela permissão para chorar; que tem muitos anos de emoções engolidas entalando a voz, que atacou pessoas que amava, pelo medo absurdo de não saber como falar de si e de se vincular.
Veja também
Pode ser doloroso reconhecer que existem toneladas de mágoas para serem cicatrizadas, que viraram tijolos a serem despejados sobre pessoas que viraram alvos em potencial dessas dores. E que a frieza ou dificuldade em se conectar emocionalmente pode ser resultado de uma vida onde se impõem aos homens abdicarem dos sentimentos.
Talvez você descubra que é preciso desmontar a imagem onipotente, narcísica, ilusória que ruge e nega o diálogo, atropela quem não se submete ao seu controle, que impede que cuide de suas feridas e reconheça sua impotência e necessidade de cuidados.
Muitas vezes, ao não poder sofrer, chorar, ao ter que ser sempre o vencedor, o forte, o poderoso, até os cuidados com a saúde física podem ficar prejudicados. Pode ser difícil ir ao médico, fazer exames, tanto pelo medo de ter algum diagnóstico que lhe assuste, quanto pelo distanciamento das ações para cuidar de si. Pode ser difícil confiar e trabalhar em grupo porque há sempre uma desconfiança da existência de uma competição contínua, onde diante de uma vulnerabilidade, sofrerá ataques.
A dificuldade em lidar com emoções pode tornar difícil reconhecer, estabelecer vínculos e se aproximar das emoções dos filhos, pois estes podem se conectar com as vulnerabilidades de quando você tinha a mesma idade e lhe fazer fugir do que as emoções dos filhos provocam nas suas emoções.
Assim, esconder o choro vira uma prática de defesa, mas o preço disso é não cuidar do que permanece doendo e se manifesta de outras formas, inclusive em adoecimentos físicos, não conseguir falar sobre o que sente, fugir de diálogos emocionalmente exigentes, precisar agir o tempo todo para não ter que parar para pensar, buscar anestesiar as emoções difíceis com frequência e se sentir isolado dentro de si.
Será que você já chorou suas perdas? Já cuidou delas? Já olhou para seus machucados? Já se permitiu reconhecer que certas coisas ainda não passaram? Já se permitiu acessar o valioso verbo cuidar?