Que a amargura não corrompa sua alegria
Micro-gestos de alegria como gentileza e gratidão podem aumentar a qualidade do sono, dizem estudos.
Aumento do bem-estar, diminuição de doenças crônicas e de processos inflamatórios, aumento da longevidade, melhores relações sociais. Tudo isso possui relação direta com a sensação de bem-estar e a capacidade de sentir alegria.
A alegria é uma emoção complexa e espontânea, como me fôssemos tomados pela compreensão instantânea do prazer e da harmonia consigo e com a vida. Ela pode propiciar um acervo de memórias felizes e compor reservas emocionais para os dias difíceis. O que nos alegra coloca uma certa doçura na vida.
Cada pessoa possui sua alquimia de alegria e sua produção é peculiar e conectada com o brilho de sua alma. Cada um tem sua própria fórmula para transformar o cotidiano, as experiências, as relações, em reservas substanciais de contentamento.
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Algumas vezes, as reservas podem apresentar escassez. As decepções, rejeições, tristezas, violências estruturais, invisibilidade, desamparo, injustiças, problemas, desavenças nas relações, podem consumir as reservas dos nossos sorrisos, e em seu lugar deixar o corpo contaminado pela amargura.
O amargo é difícil de digerir, salga a alma em excesso. Como se o gosto impregnasse o afeto e assim, entre caretas e tristezas, o corpo se fechasse, e os pensamentos flutuantes da alegria submergissem para um lugar de rancor e dor.
O amargo da vida pode tirar o sabor dos dias, pode provocar irritação, pensamentos repetitivos, desânimo, agressividade. O amargo também pode contagiar.
Pessoas amargas podem não suportar a alegria alheia da qual não conseguem usufruir, e assim, jogam o sal das lágrimas de tristezas, perdas e decepções que desidratam o entusiasmo e murcham o espírito.
Alguns carregam o amargo há tanto tempo, que esqueceram as memórias doces de euforia e animação e pleno encantamento pelo viver. Sal é importante para equilibrar a doçura, mas em excesso, mata o corpo.
Estudos de neurociências, mostram que por uma questão evolutiva, para se proteger de predadores e lembrar do perigo, o cérebro tende a guardar mais as experiências negativas e a tristeza, devido a um processo chamado “viés da negatividade”.
Assim, o cérebro trata o negativo como mais urgente, e eventos negativos podem tanto anular os positivos quanto terem maior duração na memória. Tal mecanismo era fundamental para a sobrevivência, pois esquecer algo que produziria perigo poderia ser fatal.
Em situações de luto e estafa, o cérebro entra em modo de ameaça e perda, como se nada pudesse ser tão bom quanto o perdido. Além disso, problemas passam a ser superestimados, a capacidade de confiar em si diminui e um comentário negativo possui um peso devastador.
Desta maneira, como burlar esse mecanismo e manter um acervo de memórias protetivas felizes? Como não deixar que diante das coisas tristes e difíceis, o amargor não corrompa todo o seu estoque de alegria ou a própria capacidade de senti-la e expressá-la?
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Um estudo da Universidade da Califórnia, São Francisco, mostrou que micro-gestos de alegria como gratidão, gentileza, fruição estética, cooperação, estar conectado com experiências cotidianas, contemplação da natureza, escutar risadas, aumentam a qualidade do sono e a sensação de bem-estar com a própria vida.
Realizar atividades agradáveis, segundo estudos de doutorado na Universidade de Santiago de Compostela, diminui sintomatologia depressiva e ansiedade. O agradável da vida precisa e pode ser experimentado nas sutilezas do cotidiano.
Nomear o que se sente, poder expressar a tristeza e reconhecer que se está imerso em amargura por um luto, estafa ou problemas avassaladores, já é um início para adoçar a alma.
Atividade física leve, diminuição de estimulação sensorial excessiva, quietude, descanso, e principalmente, segurança emocional auxiliam na restauração do conforto consigo.
O amargor se alimenta de agressões. A segurança e a presença genuína adoçam o riso. É preciso se permitir o sentir e ponderar o agir. Pois o agir na amargura só joga sal sobre as próprias feridas e nas dos outros.
Técnicas de respiração, escrita expressiva como o Método Pennebaker que envolve escrever sobre eventos traumáticos ou emocionalmente exigentes, para ajudar a ressignificar e processar o experienciado: “o que estou vivendo e como isso me afeta?”; autocompaixão (o que posso me oferecer para cuidar bem de mim?
Evitar decisões importantes e irreversíveis, movimentar e cuidar do corpo, psicoterapia, ajudam a dessalgar a tristeza.
É possível que alegria e tristeza coexistam. Entretanto, em situações de adoecimentos como depressão grave, torna-se muito difícil experimentar o bom e o melhor, pois pode existir um esvaziamento de si e um ataque cruel às doçuras, culpabilizando as travessuras. Aprender a lidar com sentimentos complexos, simultaneamente, pode ser difícil na infância e adolescência ou quando existe algum transtorno.
Entretanto, a integração do diverso que nos habita, articulado à capacidade de partilha, elaboração e ação, nos eleva além da submissão à impulsividade. Onde vive sua amargura, de quê ela se alimenta? E sua alegria?
Como tudo que envolve o amargo e o salgado, é preciso tempo para decantar o sal, muitas lavagens sobre o que está amargo e misturar com outros sabores, saberes e prazeres. É preciso compreender que a alegria não se contrapõe à indignação, à análise crítica nem à capacidade de luta. Pelo contrário, a alimenta em desejo e esperança.
Se pudermos ficar mais atentos ao sabor do nosso humor, pode ser possível pedirmos ajuda aos outros quando os temperos nos faltarem; pode ser possível aprender a alquimia do que possuímos para equilibrar dores e satisfação, realizar os pequenos gestos de fruição, para manter uma certa reserva de doçuras que espantem e nos protejam quando a aridez nos dias quiser amargar o que nos anima em riso e alegria.