Para além da lógica binária sobre os comportamentos humanos
É preciso compreender que um sujeito é constituído de dúvidas e ambivalências, que pode ter atitudes contraditórias.
A lógica binária, muito presente na computação, em muitas concepções científicas e também no cotidiano, organiza o mundo e as pessoas a partir de um lógica que funciona assim: é, não é; sim, não; verdadeiro, falso; e o mais contundente: certo e errado. Assim, se algo é uma cadeira, é porque não seria uma porta. Embora tenha validade e seja extremamente necessária e indispensável, quando se aplica ao comportamento humano ou é utilizada como único critério de validade para a realidade, legitima compressões limitadas e equivocadas.
A lógica binária é fundamental onde a dúvida não pode existir: na tecnologia, computação, em aplicativos, no sistema bancário, para o funcionamento da internet etc. Nesses espaços, a ambiguidade significaria erro, e o funcionamento entraria em colapso, pois zero não pode ser 1, nem pode haver dúvidas se algo está ligado ou desligado, se a porta do avião está aberta ou fechada, se o coração bate ou não bate, se a pessoa está respirando ou não, se alguém está com câncer ou não, se algo é legal ou ilegal, se está permitido ou proibido.
O binário organiza protocolos, facilita tomadas de decisões em situações emergenciais (como na medicina, em situações de pane elétrica, nos sistemas bancários, tecnológicos e computacionais). O funcionamento binário ajuda o cérebro a se organizar para sobreviver. Além disso, o funcionamento social, assim como alguns princípios da ética, necessitam de parâmetros para organizar a vida em sociedade: o que é violência, abuso, corrupção, golpe de estado, respeito; não pode haver dúvidas.
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No início do nosso processo de aprendizagem, precisamos da lógica binária, para entender conjuntos, para separar e organizar o início do pensamento. Entretanto, à medida em que somos capazes de compreender o complexo e a lidar com paradoxos, entendemos que nem tudo segue a lógica das máquinas nem somente a da exclusão. Para a lógica binária, eventos contraditórios simultâneos seriam considerados erro, para a subjetividade humana, segundo a compreensão psicanalítica, é a própria essência da vida psíquica.
Freud assinalou que um outro sistema, movido por uma outra lógica, diferente da consciência, atua simultaneamente nos seres humanos: o inconsciente possui uma lógica própria, atemporal, livre, movido pelo princípio do prazer, e que se manifesta através de sonhos, chistes, lapsos, atos falhos, sintomas, produções artísticas, servindo-se de deslocamentos, condensações, enquanto destino para desejos que muitas vezes não conseguimos reconhecer sozinhos.
Para a psicanálise, o psiquismo é ambivalente, paradoxal. Para o inconsciente, posso amar e odiar uma pessoa simultaneamente. No inconsciente não existe tempo linear nem contradição. Algo pode ser e não ser ao mesmo tempo. Um sujeito não é somente homem/mulher; normal/patológico. Existem aspectos masculinos e femininos em todos, assim como dimensões saudáveis e adoecidas. A complexidade de um ser humano não se reduz a um O ou a 1. A lógica binária busca certezas. O humano tem uma dimensão imprevisível.
Enquanto a lógica binária procura o quantificável, o sujeito habita o universo do sentido, do desejo, da linguagem e da fantasia. Quando alguém diz: isso é coisa de homem, não é de mulher, busca uma certeza identitária apoiada em princípios de exclusão. Assim, homens não podem ter determinadas posturas ou sentimentos porque isso os retiraria da condição masculina.
Se um homem for gentil, sensível, ele deixa de ser homem? Se uma mulher tiver uma postura firme, ativa, independente, não desejar casar nem ter filhos, isso a retira da condição de mulher? Se alguém diz: ou você é vencedor ou perdedor, está na lógica binária; mas quando ampliamos a reflexão, podemos perguntar: vencedor em que sentido? Para quê? Para quem? A serviço de quem está essa ideia de vencedor? O que ela alimenta?
Em vez de ser uma lógica ou é isso ou aquilo, torna-se importante pensar no mas, no também. Posso ser vencedor em algumas coisas, perdedor em outras. Pode ser vencedor em vendas e um perdedor na relação com os filhos. Posso ter atitudes masculinas e femininas, e em vez do sim, não; certo, errado; considerar o também, o talvez, o sentido, o desejo.
Um pai pode amar a um filho e ter raiva também. Uma pessoa deseja estar casada, mas também deseja viajar só com as amigas, ter um tempo para si. Temos aspectos masculinos e femininos; temos certezas e dúvidas; hesitamos, repetimos erros, falhamos, mesmo quando temos tudo para acertar, mesmo quando treinamos à exaustão; podemos dizer sermos o contrário de quem somos e ainda acreditar nisso.
Crescer ou não
Podemos desejar viver e morrer simultaneamente; podemos desejar crescer e continuar crianças; crescemos e continuamos infantis, basta a ocasião adequada nos permitir, ou até a inadequada. Posso ter aspectos saudáveis e adoecidos; posso saber que algo faz mal e mesmo assim não conseguir parar. Posso ser movido pela repetição de medos infantis, mesmo adulto. E posso ser muito seguro para determinadas atividades, e muito assustado para outras.
Digo que amo as mulheres, mas as mato; professo religião que tem por base o amor, mas pratico intolerância, violência, mentira. Defendo honestidade, mas desvio verbas e sonego impostos.
Preso a uma lógica binária, ocorre uma redução e simplificação da vida psíquica e da complexidade das questões humanas, o que favorece a propagação de respostas simples e rápidas, entretanto enviesadas, pois transforma questões que necessitam de aprofundamento, reflexão ampla e profunda, em respostas rasteiras e superficiais.
Compreender que um sujeito é constituído de dúvidas e ambivalências, que pode ter atitudes contraditórias, que pode não ser simples se desvencilhar do que lhe faz mal, de terminar um relacionamento adoecido porque mesmo adoecido, ama; de sair de um emprego ruim, mesmo sabendo que é ruim; de desejar coisas incompatíveis; de transitar entre a organização e o caos, entre os tantos que cabem uma existência, nos permite repensar os olhares que colocam as pessoas em caixinhas fixas, e os que ditam impossibilidades de mudanças.
Compreender que cada sujeito não é um programa de computador, nem uma linha de produção; que julgar alguém somente pela aparência, que estabelecer verdades limitadoras apenas por determinados comportamentos, pode ser muito perigoso e injusto. Vale pensar que um homem pode ser um excelente pai, independente da sua identidade de gênero ou orientação sexual; que o amar possui tantas variações quanto o desejo permitir, e que será o parceiro ou parceira o definidor do aceite desses desejos.
Que alguém pode desejar ir e ficar, e que as trilhas das respostas de uma pessoa não respondem somente a uma lógica de sim e não; certo e errado. Que o certo em um contexto, pode ser o errado em outro. Que o certo para ser atencioso e dar sim a alguém, pode ser o errado de ser violento consigo. Que o sim de terminar um relacionamento, pode não significar um deixar de gostar; que mesmo dizendo que não se gosta de algo, pode esconder o desejo oposto e mascarar uma inveja.
Buscamos muitas vezes respostas exatas sobre o que devemos fazer, sobre como nos responsabilizar por nossas escolhas, como escolher o melhor para nós. Respostas que muitas vezes não existem, enquanto certo ou errado e nem somente enquanto única resposta ou possibilidade. Diante dos enigmas da vida, as opções podem inclusive, precisarem ser inventadas . Essa busca rápida e simples vira fuga do conflito interno, da angústia existencial e dos dilemas que um sujeito precisa de tempo para lidar, criando assim rótulos, etiquetas comportamentais, onde as pessoas buscam de forma simplista se apegar para evitar pensar e lidar com o que faz sofrer.
O que desejamos que não conseguimos assumir? O que é nosso, que não conseguimos reconhecer? Qual desejo não consigo sustentar e adoeço por me negar a mim mesmo?
Quando somente a lógica binária predomina sobre os comportamentos humanos, as possibilidades de ser ficam limitadas e adoecedoras; e o mundo menos diverso e plural.
*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.