A impulsividade descarrega em atos o que não consegue colocar em palavras
Poder transformar o que se sente em outra coisa, sem descarga direta, é princípio estruturante do psiquismo.
Quando um bebê nasce ele está tomado por impulsos os quais não sabe nomear, decifrar, entender, nem conter. Ele sente e precisa encontrar alguma forma de descarregar o que lhe incomoda ou o que precisa ser expresso. O bebê chora, grita, morde, não tem outra possibilidade de dar destino ao que pulsa dentro de si. Aos poucos, o que sente passa a ser nomeado pelos outros: é dor, cólica, fome, medo, sono, saudade…
Aos poucos vai tomando posse desse corpo e sobre ele construindo uma mente capaz de dialogar entre o interno e o externo, de perceber suas fronteiras e as dos outros, de perceber que existem outras possibilidades de dar destino ao que pode doer e incomodar e aprender a endereçar pedidos de ajuda com o uso das palavras, da arte, da linguagem, dos gestos.
A capacidade de conter, de sinalizar o que sentimos sem necessitar do imediato, do explosivo, do instantâneo, a capacidade de espera, de transformar grunhido, fúria, ódio, em palavras em vez de murro ou pancada, é um longo caminho no processo civilizatório e subjetivo.
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Durante a infância e a adolescência ainda não temos a capacidade de autorregulação bem desenvolvida e precisamos da ajuda da família, professores, comunidade, para compor essa habilidade. Infelizmente, as pessoas falam dos gatilhos, como se fosse arma, campo minado sem controle. Mas como canta Juliana Linhares, "quem explode é bombinha" e enquanto sujeitos de linguagem e cultura podemos construir filtros para os impulsos.
Sentir algo e poder transformar em outra coisa sem descarga direta é princípio estruturante do psiquismo e função necessária para a civilização. Freud identificou e nomeou de sublimação, o mecanismo capaz de transformar impulsos em atividades socialmente aceitáveis e assinala os caminhos possíveis através da arte, ciência, religião, trabalho.
Quando diante de uma rejeição amorosa ou desavença política por exemplo, em vez de eliminar e agredir ao outro, transformo meu desconforto em um manifesto, um projeto social ou acadêmico, uma música, uma peça de teatro, um artigo, estou destinando aquele impulso para algo socialmente aceito.
A impulsividade pode ser uma denúncia: de uma falta de escuta, de um ambiente violento com pouca comunicação emocional, onde não havia limites ou os limites eram confusos, onde se podia agredir de todas as formas, machucar, sem importar com o outro; onde imperava a lei do mais forte, a força bruta, o desamparo; onde ambientes instáveis dificultavam a possibilidade de ser ouvido, cuidado; onde as dores eram negligenciadas, traumas invalidados e que muitas vezes para ser visto, era necessário agir ou rugir.
Frequentemente a impulsividade é uma tentativa de aliviar a angústia : brigar, atacar, comer para engolir problemas, devorar o que não consigo controlar, bloquear pessoas, comprar em excesso, autossabotar, envolver-se em situações de risco para destinar contra si mesmo a fúria e a decepção, decisões intempestivas, radicais e violentas enquanto saída conturbada para dores, medos, desejos e conflitos.
Depois da explosão vem o vazio ou a culpa. Revela também uma postura narcísica, uma dificuldade com a alteridade e a incapacidade em transformar ações em palavras levando o sujeito a agir sem pensar. Frequentemente, a pessoa nem sabe o que está envolvido naquele comportamento.
A dificuldade de conter e simbolizar os impulsos acarreta muitos danos. Um sujeito que precisa expelir tudo que sente pode ter dificuldades no laço social, nas trocas íntimas, tornando imperativo todas as suas vontades e desejos, feito uma criança mimada e birrenta.
Existe tempo, forma e lugar para expressar o que sentimos, e a dificuldade em discriminar essas diferenças pode levar a conflitos, reiteradas sanções sociais, isolamento e senso de inadequação.
Além disso, a dificuldade em organizar o que se passa internamente e não conseguir conter o que deseja, pode levar a uma dificuldade com limites que pode se expressar em comportamentos abusivos ou de dependência com os objetos.
O impulsivo precisa agir, e sem pensar. É uma descarga direta, uma tentativa de alívio de um sujeito que não sabe manejar o que se passa internamente. Muitas vezes atropela, explode, e nem sabe como reparar os danos depois ou nem acha que precisa porque os outros já deveriam estar acostumados porque "é seu jeito de ser".
O impulsivo tem uma dificuldade com o tempo, com o ritmo da empatia e em encontrar o seu próprio ritmo. O impulsivo é o samba de uma nota só, sem a poesia de Tom Jobim. Quando conseguimos conter algo, desenvolvemos a capacidade da espera, da reflexão, elaboração, da análise, do olhar algo sob diversos aspectos, do compreender o complexo e a diversidade de contextos e possibilidades de expressão e transformação do que pensamos, sentimos e desejamos.
Conseguimos entender o que nos afeta e qual a razoabilidade disso, dialogando com nossas fantasias e inseguranças. A impulsividade pode se servir de palavras para atacar, agredir. Essas são as palavras brutas, sem a elaboração da reflexão e do contexto. Quando um sujeito consegue elaborar o que lhe atordoa ou impulsiona, as palavras tornam-se lapidadas, ajudam a compreender e criar, a unir.
Quando agimos por impulso, a ação é sem conexão com essa capacidade reflexiva. Quando é possível desenvolver a capacidade de entender os danos que fazemos, de parar antes de agir, podemos ser capazes de evitar e reparar os estragos.
Os bebês que constroem a fantasia de serem destrutivos para o ambiente, e para as pessoas que cuidam dele, e que não receberam os cuidados adequados, podem crescer alimentando adultos destruidores de mundos, reafirmando a fantasia de ódio ou dívida do mundo, desconfiando do amor e elegendo algozes para a fúria que na verdade, é de si mesmo.
*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.