Praça do Ferreira volta a receber grama natural após críticas a grama sintética

A grama artificial havia sido instalada após a requalificação do espaço, entregue em novembro.

Escrito por
Ana Alice Freire* ana.freire@svm.com.br
Uma vista de baixo ângulo da Praça do Ferreira mostra canteiros de grama seca intercalados com pequenas plantas verdes, cercados por bancos de madeira e postes metálicos pretos. Ao fundo, ergue-se a icônica Coluna da Hora cercada por prédios históricos e árvores sob um céu nublado. A cena retrata um espaço urbano amplo com pavimentação em pedra portuguesa típica.
Legenda: Especialistas apontam que a vegetação natural é essencial para a absorção de água e regulação do calor.
Foto: Thiago Gadelha

Após vários dias de críticas, a Prefeitura de Fortaleza retirou a grama sintética da Praça do Ferreira, no Centro, e substituiu o material por cobertura natural. O novo plantio foi realizado no último sábado (21).

A grama artificial havia sido instalada após a requalificação do espaço, entregue em 26 de novembro, embora a substituição não constasse no projeto original da reforma. A mudança provocou questionamentos de frequentadores, ambientalistas e especialistas, que apontaram impactos no conforto térmico.

Com a repercussão, o prefeito Evandro Leitão (PT) afirmou que voltaria atrás na decisão. “Eu irei trocar, não tem nenhum problema”, declarou em entrevista à Verdinha FM

O gestor reconheceu que havia autorizado o uso do material sintético considerando as condições climáticas da Capital. “Temos uma cidade com temperatura altíssima, com dificuldade de água e de operacionalizar a irrigação desses locais. Optei por colocar grama sintética tendo em vista essa realidade”, explicou. Ainda assim, reforçou: “não tenho dificuldade em mudar uma decisão”.

Período de adaptação

Em visita ao local nesta semana, a reportagem observou que a nova grama ainda passa por fase de adaptação, com alguns trechos apresentando aspecto ressecado.

Uma imagem ao nível do solo destaca pequenos arbustos com flores brancas crescendo em canteiros de grama seca na Praça do Ferreira. Ao fundo, de forma levemente desfocada, aparecem pedestres sentados em bancos, um quiosque de madeira com telhado triangular e prédios históricos da região central. A composição utiliza um ângulo baixo que enfatiza a vegetação em primeiro plano sob luz diurna.
Legenda: O Centro de Fortaleza recebe atenção da Prefeitura para obras de revitalização.
Foto: Thiago Gadelha

Em nota, a Secretaria Municipal da Infraestrutura (Seinf) informou que a aparência é comum no período inicial, quando ocorre o enraizamento das mudas no novo solo. A manutenção, segundo a Pasta, está sendo realizada pela Coordenadoria de Apoio à Governança das Regionais (Cegor).

Anteriormente, quando questionada sobre a escolha do material sintético, a Seinf havia afirmado que a decisão buscava “garantir maior durabilidade, praticidade na manutenção e melhor aproveitamento do espaço pelos frequentadores”. O projeto também incluiu o plantio de 26 árvores de espécies como Ipê-roxo e Pau-brasil, que devem ampliar a sombra e melhorar o conforto térmico à medida que se desenvolvem.

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Sensação térmica divide opiniões

José Mário Xavier, gerente de 61 anos, trabalha em um dos estabelecimentos da praça e percebeu diferença imediata com o retorno da vegetação natural. Atraindo clientes para a padaria, passa boa parte do expediente na calçada, sensível à menor variação de temperatura.

“Você sentava ali nos bancos de madeira, a luz batia e refletia na gente. Esquentava muito. Com a planta natural, fica mais fresco e agradável”, relata. Para ele, o ambiente mais ameno contribui até para o movimento da freguesia.

Uma vista panorâmica da Praça do Ferreira mostra canteiros de grama amarelada e pequenos arbustos com flores brancas, cercados por bancos de madeira e postes metálicos. Ao fundo, árvores e prédios altos em tons claros completam o cenário urbano sob um céu parcialmente nublado. No centro da praça, nota-se uma placa informativa branca próxima à vegetação rasteira.
Legenda: Para o arquiteto Lucas Rozzoline, instalar grama sintética é como 'estender lonas de plástico pelo chão'. Ele destaca que, ao contrário das plantas naturais, esse revestimento acumula calor e impede que o solo realize trocas essenciais com o ecossistema.
Foto: Thiago Gadelha

Já Reneide Castro, 63, vendedora ambulante há oito anos no Centro, diz que a mudança pouco alterou sua rotina. Protegida dos raios solares com roupas compridas e acessórios, afirma que o calor continua predominante.

“É concreto e cimento por todo lado. É calor em qualquer horário. A gente acaba tendo que lidar com vento e quentura”, resume.

Debate ambiental

Especialistas apontam que a grama natural exerce funções ambientais importantes, como absorção de água, troca térmica e amenização do calor, serviços que o material sintético não desempenha da mesma forma. Superfícies artificiais são mais indicadas para áreas esportivas ou de alto desgaste, onde uniformidade e resistência são prioridades.

Entrevistado na época da entrega da reforma, no início de dezembro, o arquiteto e urbanista Lucas Rozzoline, conselheiro federal do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) pelo Ceará, explicou que a escolha do material sintético é como “cobrir o chão com lonas de plástico. Ela retém calor e não realiza trocas ambientais como uma vegetação natural faria”. 

Além do impacto térmico, Rozzoline ressaltou na época que a grama sintética compromete a permeabilidade local. Por não filtrar a água com a mesma eficácia que a planta natural, o material acaba sobrecarregando o sistema de drenagem do Centro, uma área já densamente pavimentada.

A requalificação da Praça do Ferreira recebeu investimento de R$ 8 milhões, em parceria entre Prefeitura e Governo do Estado. A obra incluiu substituição completa do piso, travessias elevadas, reforma dos passeios com foco em acessibilidade, novos quiosques, restauração da fonte da Coluna da Hora e instalação de paraciclos.

*Estagiária sob supervisão da jornalista Dahiana Araújo

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