Dennis Carvalho e Gilberto Braga selaram parceria que revolucionou a novela brasileira

Diretor, falecido aos 78 anos neste sábado (28), era companheiro de trabalho de Braga desde 1978.

Escrito por
Diego Barbosa diego.barbosa@svm.com.br
(Atualizado às 13:56)
Na imagem, fotografia de plano médio de dois homens sorridentes, Gilberto Braga e Dennis Carvalho, posando abraçados contra um fundo preto. À esquerda, Gilberto é careca, usa óculos de grau discretos e uma camisa preta de manga longa. À direita, Dennis tem cabelos grisalhos e veste uma camisa social preta de botões. A iluminação é suave, destacando o rosto de ambos.
Legenda: Juntos, dupla apresentou ao Brasil algumas das tramas mais emblemáticas das novelas.
Foto: João Cotta/Divulgação.

Não há receita para uma boa novela. Mas quando autor e diretor sintonizam as próprias almas, o que acontece pode ser muito particular.

Dennis Carvalho e Gilberto Braga selaram uma parceria nesses moldes, encontro quase metafísico. O que um escrevia, o outro conduzia feito ninguém. Dois ímãs, dois maestros.

O resultado foi uma revolução na teledramaturgia brasileira. Parceiros desde 1978 – Carvalho, falecido neste sábado (28), aos 78 anos, integrava o time de diretores de “Dancin’ Days” à época – a dupla assinou alguns dos trabalhos mais emblemáticos da telinha.

“Água Viva” (1980), “Vale Tudo” (1988), “O Dono do Mundo” (1991), “Anos Rebeldes” (1992), “Celebridade” (2003), “Paraíso Tropical” (2007), entre vários outros sucessos, foram comandados por eles. A lista é longa, premiada e inesquecível.

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Dennis soube traduzir para a imagem alguns dos atributos mais característicos do texto de Braga: o apreço pela crítica social, por tramas cheias de reviravoltas e com ritmo de narração ágil e cirúrgico.

Aos dois, importava a radiografia do luxo, do mistério e do crime. A boemia carioca, a luta para ganhar a vida, o desbunde e o deboche. Elementos que não apenas entretinham a audiência, mas davam verdadeiras aulas de História e Sociedade.

Na imagem, fotografia de bastidores em um set de gravação. À esquerda, o diretor Dennis Carvalho, vestindo camisa azul marinho e calça jeans, gesticula com um roteiro na mão enquanto conversa com a atriz Malu Mader. Malu está à direita, sorrindo, usando um vestido festivo bege claro com babados e uma echarpe fina. Ao fundo, figurantes e membros da equipe observam a cena, incluindo dois homens altos vestidos de terno preto, posicionados como seguranças. O ambiente sugere a gravação de uma festa para uma produção televisiva.
Legenda: Dennis Carvalho e Malu Mader no set de "Celebridade" (2003).
Foto: Gianne Carvalho/TV Globo.

Quem não recorda o jogo de câmera quando a vilã Laura Prudente da Costa (Cláudia Abreu) revela ter sido ela a compradora da mansão de Maria Clara Diniz (Malu Mader), em “Celebridade”? Ou a tomada certeira dos tiros disparados contra Odete Roitman (Beatriz Segall) na primeira versão de “Vale Tudo”? Ou os passeios aéreos pela orla de Copacabana, pelo subúrbio do Rio de Janeiro e por paisagens paradisíacas Brasil afora? Tudo servia eficazmente às tramas.

Braga só “traiu” Carvalho em uma novela (“Força do Desejo”, 1999) e duas minisséries (“Anos Dourados”, 1986, e “O Primo Basílio”, 1988). E não é que estes tenham sido projetos menores.

Mas, a julgar por toda a produção concebida pelos dois, é sensato dizer que, juntos, as apostas naturalmente fluíam mais altas, e a audiência sentia, de forma concreta, o quanto uma dinâmica tão eficazmente estabelecida consegue brilhar mais forte.

Respeito e admiração

Em 2007, quando do lançamento de “Paraíso Tropical”, Gilberto concedeu uma entrevista na qual detalhou de que forma acontecia a simbiose com Dennis. “Somos parecidos, tentamos dar valor ao que merece, dar um peso justo a cada problema. Não somos competitivos”, partilhou.

Assim, o sucesso de Carvalho era dele, e vice-versa. Nunca, em mais de 30 anos, a dupla perguntou quem manda mais. “Temos respeito e admiração um pelo outro”.

Na imagem, foto de perfil de Dennis Carvalho sentado em sua cadeira de diretor durante uma gravação. Ele segura um microfone próximo à boca, observando atentamente dois monitores de vídeo à sua frente. As telas exibem cenas de atores em um ambiente de festa. O diretor veste uma camisa azul escura de mangas curtas e está em uma área técnica com equipamentos de vídeo protegidos por cases pretos.
Legenda: Set de filmagem comandado por Dennis Carvalho nos estúdios Globo.
Foto: Acervo/TV Globo.

E não houve nem meia rusga entre eles ao longo das décadas. Divergência de opiniões, sim.  É parte do processo criativo. Em “Labirinto”, por exemplo – minissérie de 1988 – Braga pensou, para um dos papéis-chave, uma atriz que Dennis não queria.

Na mesma hora, o autor procurou outra pessoa. Não chegou nem a argumentar que a própria indicação estava certa. A relação com o diretor era mais importante.

Do rigor da escalação de elenco à concentração no set de filmagem, passando pelo cuidado na gravação e revelação do “Quem matou?” – recurso amplamente utilizado por Braga – até o verdadeiro clima de amizade em cada novela, Dennis Carvalho e Gilberto Braga mudaram rumos e apontaram saídas. Junção de almas, de fato. E ainda havia mais para fazer. Agora, está na conta do eterno.

 
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