Parque Urbano Lagoa do Mondubim vira lugar de lazer, cultura e natureza na periferia de Fortaleza

Requalificado, espaço tem áreas destinadas ao convívio social e um pôr do sol exuberante em meio à calmaria da lagoa

Escrito por Diego Barbosa , diego.barbosa@svm.com.br
Legenda: O social media e estudante Mota passeia com a namorada na Lagoa do Mondubim ao fim de tarde: ocupar com leveza o espaço
Foto: Fabiane de Paula

Pouco se fala, mas a Fortaleza distante do Centro, da Aldeota e da Praia de Iracema também é capaz de encantar. Veja o Mondubim. Localizado na periferia da cidade, o bairro reúne edificações históricas, boa gente e um espaço que já se tornou sinônimo de calmaria e possibilidades em meio ao cotidiano frenético. Verdadeiro oásis, e com maior adesão.

Trata-se do Parque Urbano Lagoa do Mondubim, no coração da localidade. Totalmente requalificado pela Prefeitura, foi entregue em agosto do ano passado e, desde a data, tem transformado a convivência do entorno ao apostar naquilo que faz bem a todo mundo, em especial nesse outro pedaço da Capital: ótimos encontros, gastronomia caprichada e natureza.

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São 200 mil m² de área urbanizada. A lagoa, claro, é a grande protagonista – inspiração para fotos ao fim de tarde e respiros tranquilos. Ao redor dela, calçadão para caminhadas, praças arborizadas, área de esporte, píeres, mirante e área de lazer completam o cenário. O público aprova e usufrui. Junto à namorada e aos amigos, Mota frequentemente passeia ali.

O social media e estudante de Programação é morador do Conjunto Esperança e há tempos ocupa o ambiente. “Sempre passava pelo lugar antes da reforma. Vou de vez em quando pra correr, principalmente no horário da tarde. De modo geral, qualquer reforma dessa – que já era pra ter sido feita há anos – é boa para a população”.

Legenda: Caminhadas ao pôr do sol e crianças em atividade são frequentes no Parque Urbano Lagoa do Mondubim
Foto: Fabiane de Paula

Segundo ele, é como habitantes com poucos recursos financeiros podem usufruir de lazer, abrindo espaço também para que autônomos lancem os próprios empreendimentos. Taynar Lima, 29, por exemplo, montou banquinha de churros e, com apoio da mãe, faz a alegria de muitos, sobretudo de crianças.

“Desde outubro de 2023 mantenho essa banquinha. Fiquei desempregada e precisava de uma renda para ajudar nos custos de minha família”. Dito e feito. Além dos churros, comercializa água e doces no geral, sempre de quarta a domingo, das 17h às 23h. Os churros variam de R$5 a R$12; outros doces, de R$2 a R$5. 

Legenda: Taynar Lima montou banquinha de churros próximo à Lagoa e, com apoio da mãe, faz a alegria de muitos
Foto: Fabiane de Paula

Quando mira a lagoa do lugar onde reside há décadas, parece orgulhosa. É bom saber que o lar de morada é ponte para novas travessias, dela e de outras pessoas. “Antes havia ponto de lixo e abandono de animais. Agora se tornou local de passeio e de empreendimentos. As crianças vão pra brincar, pescar com os pais e se divertir de forma segura”.

História e usos da Lagoa

Conforme o Canal Urbanismo e Meio Ambiente da Prefeitura de Fortaleza, a Lagoa do Mondubim faz parte da bacia do Rio Ceará – onde indígenas nativos pescavam e caçavam – e possui história intrinsecamente ligada ao crescimento da Capital. O próprio nome do bairro onde ela está já podia ser encontrado em antigos mapas portugueses.

Contudo, somente após a construção da Estrada de Ferro Baturité foi que as pessoas começaram a desembarcar vindas do interior para desenvolver a região. Hoje, a Lagoa é ponto central para lazer no bairro, localizada ao lado do Cuca Mondubim e próxima a vários modais de mobilidade urbana. “Depois da requalificação, mudou a vida de muita gente”.

Legenda: Lagoa do Mondubim faz parte da bacia do Rio Ceará e possui história intrinsecamente ligada ao crescimento da Capital
Foto: Fabiane de Paula

O relato é de Ewerton Aguiar, agente de cidadania, conselheiro, marceneiro e voluntário do Instituto Francisco de Assis. Conforme conta, há anos a população esperava pela mudança e, agora, colhe os frutos da energia depositada para que tudo desse certo. “Tem mais pessoas caminhando e fazendo algum tipo de exercício todos os dias. Isso não acontecia”.

Ou seja: nada de atravessar a cidade em busca de respiro e qualidade de vida. Apesar dos desafios permanentes, é possível exalar novidade na periferia. O Projeto Dança para Todas, com aulas gratuitas de zumba; a feira de empreendedores, sempre diversa e sortida; e atividades ao longo de todo o píer atraem gente do entorno e de mais longe.

Legenda: A roda do grupo Itunumsabe Capoeira há três anos é realizada às margens das serenas águas
Foto: Fabiane de Paula

A roda do grupo Itunumsabe Capoeira, comandada pelo Professor Grafitt, há três anos é realizada às margens das serenas águas. A ideia surgiu para expandir a arte capoeirista para mais pessoas. Todos os sábados eles se reúnem para treinar e, do terceiro domingo de cada vez, acontece efetivamente a roda.

“Fazemos também maculelê – tipo de dança folclórica da Bahia, com base na cultura afro-indígena-brasileira, que simula uma luta tribal usando bastões – e samba de roda. Esse lugar da Lagoa agrega muito na comunidade como um todo, sem contar que é uma área aberta com meio-ambiente, o que otimiza outras atividades”.

Legenda: Adriana Sousa e outros comerciantes ocupam o no calçadão da Lagoa com artesanato
Foto: Fabiane de Paula

Artesanato também encontra espaço por lá. Outrora integrante de um projeto de mulheres empreendedoras, Adriana Sousa vende canetas decoradas com flores em E.V.A., arranjos florais, panos de prato em crochê, tapeçaria e descansos de prato. A casa dela fica bem próximo, o que oportuniza para que tudo fique ainda melhor.

Você pode encontrá-la diariamente por lá, das 17h às 22h. “Bordar é uma ótima terapia, e a gente conhece vários empreendedores. Moro na Vila Manoel Sátiro e vejo muita gente se divertindo. Antes a Lagoa era abandonada; hoje é bem visitada. Mas é preciso sempre fazer uma limpeza da água, há muitas plantas nela… Quando fazem, fica ainda mais bonito”.

Cantinhos para comer

Uma das cerejas do bolo do Parque Urbano Lagoa do Mondubim é a área destinada à alimentação. Fica próxima a um playground para crianças, e alguns quiosques ficam literalmente à beira da água. Pratinhos, churros, sanduíches, sorvete e uma multidão de outros sabores ficam à disposição do público a preço acessível e ótima apresentação.

Legenda: Desde a requalificação, espaço tem transformado a convivência do entorno ao apostar naquilo que faz bem a todo mundo
Foto: Fabiane de Paula

De modo bem informal, Sônia Maria das Chagas oferece, com o esposo, a oportunidade de os visitantes experimentarem milho nas mais diferentes modulações: canjica, mungunzá, pamonha e o alimento “in natura”. O carrinho está lá desde a requalificação da Lagoa e ajuda a turbinar a renda da família.

“Não moro tão próximo à Lagoa, mas dá pra gente ir a pé ou de bicicleta. Observando o movimento, vejo que a gente consegue apurar uma boa renda. É um negocinho bom para as pessoas provarem, todos gostam muito”. Por R$5, você fica feliz experimentando a canjica e o mungunzá feitos no capricho; o milho “in natura” fica a R$3.

Legenda: Trailers e outros empreendimentos gastronômicos funcionam no local quase diariamente
Foto: Fabiane de Paula

Por sua vez, o Boteco e Lanchonete Entre Amigos funciona de quarta a segunda e possui itens a partir de R$2. São refrigerantes, cervejas, caipirinhas, pratinhos, batatinhas, salgadinhos, mini-churros, espetinhos e pastéis numa mesa super farta. O empreendimento investe também em combos. Espetinho com baião, por exemplo, sai de R$8 a R$10.

“Nosso trailer foi inaugurado em dezembro de 2023, mas nossas atividades começaram um pouco antes. Todos os fins de semana a gente levava, trazia tudo e vendíamos na calçada.  Antes a lanchonete era na nossa casa; logo depois da pandemia tivemos que fechar”, conta Thais Ferreira, empreendedora dona do negócio.

Legenda: "Vem pessoas de todos os lugares em busca de beleza, boa comida e passeio", diz comerciante da Lagoa do Mondubim
Foto: Fabiane de Paula

Acompanhada do esposo, da sogra e de demais membros da família, ela defende a Lagoa do Mondubim como patrimônio. É onde estica a possibilidade de viver melhor e ver o próprio lugar se desenvolver. “Antes um matagal abandonado, hoje um espaço para entretenimento. Vem pessoas de todos os lugares em busca de beleza, boa comida e passeio. É muito bom”.

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