Orson Welles - 90 Anos: Quem foi o grande cineasta de 'Cidadão Kane' e 'Soberba'

Crítico L.G. de Miranda Leão adentra o universo do diretor norte-americano. Quando criança, o jornalista cearense testemunhou Welles filmar nas praias de Fortaleza

Escrito por
LG de Miranda Leão verso@svm.com.br
Legenda: O diretor Orson Welles interpretou o papel título de sua obra mais importante, "Cidadão Kane".

Diretor, produtor, roteirista, ator, pintor, escritor, prestidigitador, George Orson Welles nasceu no dia 6 de maio de 1915, em Kenosha, Wisconsin. Há relatos de ter sido registrado somente em princípios de junho. Passaram-se já 90 anos! Welles era o segundo filho de Richard Head Welles, engenheiro e rico inventor, homem de visão, e de Beatrice Ives Welles, pianista de concertos e respeitada musicista. 

Para alguns biógrafos (Peter Bogdanovich, Maurice Bessy, André Bazin, Barbara Lemming, Ephraim Katz) e outras fontes disponíveis (o próprio Welles, amigos e técnicos ainda vivos), a existência profissional de Welles começou aos cinco anos, pois o menino já demonstrava notáveis aptidões como criança, distinguindo-se em poesia, pintura, desenhos, interpretações em teatrinho de marionetes, piano e até em mágicas de salão.

Numa idade na qual muitos garotos ainda não lêem, Welles já recitava versos de Shakespeare e encenava pequenas produções do grande bardo em seu espaçoso "playroom", com a presença de amiguinhos e às vezes até de familiares.

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Welles fez seus primeiros estudos na Washington School de Madison, em Wisconsin, dirigida pelo psicopedagogo Hans Mueller, o qual encontrou naquele aluno um extraordinário menino de elite através dos múltiplos testes confirmadores de uma idade mental incrivelmente avançada. Quando sua mãe morreu em 1923, Welles seguiu seu pai numa "tournée" mundial, visitando vários países e passando boa parte da temporada em Xangai. 

Legenda: Orson Welles, em 1942, filmou em Fortaleza um projeto que ficou inacabado. As filmagens foram registradas por Chico Albuquerque
Foto: Chico Albuquerque

Em 1926, entrou na Todd School em Woodstock, Illinois, onde estimulou o programa teatral da escola e motivou colegas com suas interpretações de Shak., Marlowe e Jonson, bem como de modernos dramaturgos. Sobre seus pais, dirá depois: "meu pai era um homem extremamente agradável, generoso e tolerante, adorado por todos os amigos. Devo-lhe uma infância privilegiada e o amor pelas viagens. Da minha mãe tenho o amor pela música e pela eloquência, sem as quais nenhum ser humano é completo".

Em 1927, com a morte do pai, o garoto de 12 anos tornou-se tutelado do Dr. Maurice Bernstein, prestigioso médico de Chicago e amigo da família. O Dr. Bernstein, mágico amador nas horas vagas, foi quem desenvolveu o talento de Welles para a prestidigitação. 

O nome Bernstein, aliás, figuraria em destaque como administrador dos jornais do personagem Charles Foster Kane na obra-prima de Welles, assim como nos incidentes da pré-adolescência do futuro cineasta. George Coulouris interpretava o Dr. Bernstein. "Verdades e mentiras" (f for fake) dá bem ideia da competência de Welles como mágico.

Welles permaneceu na Todd School até 1930, quando concluiu com brilhantismo o secundário. Nos anos seguintes estudou desenho e pintura com o artista russo Boris Anisfield e depois no Chicago Art Institute. Desistiu, porém, de cursar a universidade, recusando várias bolsas de estudo e decidiu dedicar-se ao teatro, uma das suas paixões. Viajou para Dublin, onde, apesar da idade, conseguiu contrato no Gate Theatre. 

Relação controversa com o cinema resultou em diversos projetos inacabados
Legenda: Relação controversa com o cinema resultou em diversos projetos inacabados

Ganhou o papel principal na produção "jew suss" e depois foi ator e diretor de peças. Começou, para alguns analistas, a aventura de sua vida. Para segui-la, segundo Bessy, "é preciso ziguezaguear entre sua atuação no palco, no rádio, no cinema e até na literatura", como se poderá ver mais adiante.

Encorajado pelo seu sucesso na Irlanda, Welles tentou o teatro londrino, mas não conseguiu trabalho devido às restrições de ordem trabalhista para estrangeiros. Retornando aos EUA, e para sua surpresa mal acolhido na Broadway, reiniciou suas viagens, indo primeiro estudar pintura no marrocos e depois na Espanha, onde chegou a arriscar-se numa praça de touros. 

De volta aos Estados Unidos, conseguiu assegurar finalmente um papel na companhia de Katherine Cornell, graças a recomendações de Thornton Wilder e Alexander Woollcott, conhecedores do talento invulgar de Welles.

Em 1934 fez seu "debut" na peça "Romeu & Julieta", quando se apaixonou pela atriz e "socialite" de Chicago, Virginia Nicholson, e com ela se casou aos 19 anos... Naquele mesmo ano começou a interessar-se por cinema e co-dirigiu "Hearts of Age", curta de 05min, no qual apareceu com sua jovem mulher. Fez em seguida sua primeira apresentação no rádio.

Por essa época, Welles conheceu John Houseman, de quem se tornaria grande amigo, e os dois começaram a colaborar para o Phoenix Theatre Group, produzindo e dirigindo peças para o projeto do federal theatre, logo tornado famoso por suas produções ousadas e originais. Welles já acumulara alguns prêmios, como o da associação dramática de Chicago, quando ainda não era profissional. 

Agora se sentia a cavaleiro para outros voos na arte cênica. No "Negro Theatre" de Nova Iorque, atendendo a pedido do amigo Houseman, Welles encenou "Macbeth" com atores negros, transpondo a ação da escócia para o Tahiti, e dando a esses artistas a oportunidade de atuarem em papéis verdadeiros e não como amas, cozinheiras, escravos ou Tios Tom...

Um lance arrojado de Welles, êxito junto à crítica e ao público. No ano seguinte Welles-Houseman entraram no rádio com o "Mercury Theatre on the Air", um programa de qualidade prestes a ganhar destaque por sua inventividade experimental.

Durante a transmissão rafiofônica de
Legenda: Durante a transmissão radiofônica de "A Guerra dos Mundos"

O programa se tornou famoso pela dramatização da obra de H.G.Wells intitulada "A Guerra dos Mundos". Projetado como um logro do halloween, focalizava a invasão da cidadezinha de Grover Mills, em Nova Jérsei, por criaturas alienígenas.

Tão realística e tecnicamente impecável, segundo fontes jornalísticas da época, foi a irradiação a ponto de milhares de ouvintes entrarem em pânico, tendo havido suicídios, surtos de embriaguez, saques nas lojas, abortos, busca de padres para confissões de última hora, muitos evacuaram suas casas e foram para as montanhas, apesar dos avisos segundo os quais a transmissão era ficcional. 

Com sua "voz de ouro", com a qual fez depois "O Sombra", Welles foi o narrador e diretor da irradiação a partir de um "script" de Howard Koch, ao qual o "Wonder Boy" de Wisconsin daria o seu "touch", um deles a introdução de pausas e silêncios entre as notícias aterradoras, e esse detalhe conferiu mais veracidade aos relatos. Ninguém tentou ouvir outra estação para confirmar se estava havendo mesmo uma invasão de marcianos...

Em 1938, cada vez mais interessado na arte fílmica, Welles fez um média metragem de 42 min de uma adaptação da farsa de William Gillette, "Too Much Johnson", destinada a ser usada em conjunto com a produção do Mercury Theatre.

O elenco tinha Joseph Cotten, Virginia Nicholson, Edgar Barrier, Alene Francis, John Berry (depois cineasta denunciado como comunista por Edward Dmytryk e perseguido pelo macarthysmo, exilado na França e depois na Inglaterra, onde dirigiu vários filmes) e o compositor Marc Blitzstein, entre outros. 

A peça, assinale-se, jamais chegou à Broadway e como resultado o filme nunca foi exibido publicamente. Os originais foram depois destruídos num incêndio na vila de Welles em Madrid. Contudo, a experiência veio a ser útil, quando ele se aventurou numa carreira cinematográfica brilhante e errática como realizador.

* Artigo originalmente publicado no dia 06 de dezembro de 2005, no suplemento Cultura do Diário do Nordeste. 

Artigo originalmente publicado no dia 06 de dezembro de 2005, no suplemento Cultura do Diário do Nordeste.

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