Com um aumento recente nos casos de síndromes gripais no Ceará, o remédio Tamiflu (nome comercial da substância oseltamivir) tem se tornado um dos mais procurados nas farmácias. Mas, apesar da fama, alguns especialistas apontam riscos sérios do consumo exacerbado e sem prescrição dessa medicação.
Ao Diário do Nordeste, o médico infectologista do Hospital São José, Luan Victor Almeida, detalhou que a medicação se popularizou após uma maior circulação de vírus respiratórios nesta época do ano, além do acesso mais fácil ao medicamento e uma ampla divulgação de sua eficácia.
O problema é que as chamadas síndromes gripais podem ser causada por diferentes vírus, mas com sintomas muito semelhantes. "E o Tamiflu só atua contra a influenza e não contra todos os vírus. Por isso, o uso sem avaliação médica pode ser inútil", frisa o médico sanitarista Álvaro Madeira.
Segundo a Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), quando o Tamiflu é usado para quadros gripais que não foram causados pela influenza, além de não trazer efeito de melhora ao paciente, ele pode contribuir para a resistência do vírus à medicação caso ela seja utilizada corretamente no futuro.
O que é o Tamiflu e para que serve?
"O Tamiflu é o nome comercial de uma droga chamada oseltamivir, pertencente à classe dos antivirais e utilizado no tratamento da influenza tipo A e tipo B", explica o infectologista Luan Victor Almeida. Quando indicado após avaliação médica, o remédio deve ser consumido nas primeiras horas dos sintomas, auxiliando na diminuição da replicação viral.
"Com o uso dele a gente consegue 'segurar o vírus'. Por isso que ele tem que ser iniciado precocemente, nas primeiras 24 ou 48 horas", complementa o médico. Ao reduzir a carga viral de replicação, o tempo de duração e a intensidade dos sintomas passam a diminuir gradualmente.
Quem pode tomar o Tamiflu?
O médico do Hospital São José frisa que o remédio é indicado para as pessoas com o diagnóstico de influenza confirmado "e que façam parte do grupo de risco de desenvolver um quadro ainda mais grave".
"A principal complicação nesses casos é a Síndrome Respiratória Aguda Grave, que é quando o nosso pulmão, sendo bem simplista, deixa de funcionar", diz Luan Victor Almeida.
Grupos prioritários para o medicamento
Além daquelas em estado mais grave, algumas pessoas com certas condições e comorbidades compõem o grupo prioritário de acesso ao medicamento, são eles:
- Idosos;
- Gestantes e puérperas;
- Crianças menores do que 5 anos;
- Pessoas com obesidade grave;
- Pessoas com doenças crônicas, como cardiovasculares, pulmonares ou diabetes grave;
- Pacientes com alguma imunossupressão, como doença oncológica;
- Pessoas com doenças hematológicas;
- Pacientes com imunidade baixa ou que utilizam medicamentos imunossupressores.
Segundo o sanitarista Álvaro Madeira, o Tamiflu pode ser indicado para menores de 1 ano e até recém-nascidos em situações específicas e com a dose ajustada. "Mas é importante ressaltar sempre a necessidade de avaliação e prescrição médica em todos os casos", afirma o especialista.
Quem não deve usar Tamiflu?
A contraindicação clássica é para aqueles com alergia ao remédio ou a algum composto da fórmula. Mas, como aponta Álvaro Madeira, "ele também não deve ser usado como resposta automática para qualquer resfriado ou para tratamento de Covid-19, por exemplo".
Além disso, o Tamiflu é contraindicado para pacientes com doença renal grave. "Nessas pessoas, é importante evitar totalmente ou pelo menos, ajustar a dose da medicação", aponta o infectologista do Hospital São José.
Tamiflu tem efeitos colaterais?
Apesar de ser considerado um medicamento seguro, alguns pacientes podem apresentar:
- náuseas;
- dores de cabeça;
- vômitos;
- dores abdominais.
"Mas esses sintomas costumam ser leves, brandos e transitórios. Logo depois das primeiras doses, eles tendem a passar", explica o infectologista.
"Em alguns raríssimos casos podem ocorrer também alguns efeitos neurológicos, mas eles são bem incomuns", cita o médico Luan Victor.
Por que os casos de influenza tem aumentado?
O vírus da influenza é um antigo conhecido do sistema de saúde cearense e costuma causar surtos sazonais de gripe. No entanto, o aumento de casos acabou chegando mais cedo que o comum em 2026. "Esse crescimento é favorecido pela estação chuvosa, pela redução de temperaturas e maior aglomeração de pessoas", aponta o sanitarista Álvaro Madeira.
"A influenza não é um resfriado mais forte: ela é uma infecção respiratória aguda de alta transmissibilidade com capacidade real de produzir surtos, de produzir internações e de desdobramentos em quadros mais graves, até mesmo quadros que levem à morte"
Além disso, uma variante da Influenza A, conhecida como subclado K ou gripe K, pode ser uma das responsáveis pelo aumento dos registros no Estado. Pelo menos três casos dessa variante foram registrados no Ceará em 2026, sendo dois em Caucaia e um em Fortaleza.
Essas informações foram divulgadas em nota técnica da Sesa e noticiadas pelo Diário do Nordeste na terça-feira (3).
"Além disso, o período de festas e esta época em que nós ainda não recebemos aquela cobertura de vacinação anual, podem ter contribuído para esse aumento", pontua o infectologista Luan Victor.
"Por isso, a resposta mais inteligente continua sendo a tríade clássica da saúde pública: vacinação anual, diagnóstico responsável e o uso racional do antiviral apenas quando se tem uma indição médica", complementa o médico Álvaro Madeira.
*Estagiária supervisionada pelas jornalistas Dahiana Araújo e Mariana Lazari.