Centenário de Violeta Arraes: o que ela diria sobre o avanço da monocultura no Cariri

A socióloga foi uma das principais divulgadoras da cultura do Cariri, convidando amigos a conhecer a região, considerada uma das mais diversas do país.

Escrito por
Paulo Henrique Rodrigues (o Ph) producaodiario@svm.com.br
(Atualizado às 16:26)
Legenda: Nascida em Araripe em maio de 1926, irmã mais nova de Miguel Arraes, Violeta estudou Sociologia na PUC do Rio de Janeiro.
Foto: Divulgação\Fundação Casa Grande

No último sábado (9), foi inaugurado na Fundação Casa Grande, em Nova Olinda, Ceará, um memorial em homenagem a Violeta Arraes, socióloga cearense que deixou contribuições reconhecidas para a democracia, a educação e a sustentabilidade.

Nascida em Araripe em maio de 1926, irmã mais nova de Miguel Arraes, Violeta estudou Sociologia na PUC do Rio de Janeiro. Participou da gestão do irmão, quando ele foi governador de Pernambuco. Após o golpe de 1964, exilou-se na França, onde recebeu expatriados anônimos e famosos.

"Ela estudou psicanálise na Europa. E eu considero essa é a faceta mais importante dela: o acolhimento das pessoas que foram expulsas do país por tortura, por perseguição política, isso mostra a grandeza dela, porque as pessoas a gente conhece em momentos difíceis e esse foi o caso da nossa Rosa de Paris, como Violeta ficou conhecida", afirma o escritor e médico José Flávio Vieira, que compareceu à missa em memória de Violeta na sexta (8), celebrada na capela de Santa Teresa de Jesus, no Crato, que fica no colégio onde ela estudou.

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Durante o período de redemocratização, Violeta Arraes retornou ao Ceará. Tornou-se secretária de Cultura entre 1988 a 1991, no primeiro governo de Tasso Jereissati. Na gestão dela, foi feita a restauração do Theatro José de Alencar, na Capital. O primeiro espetáculo teve como plateia os operários que trabalharam na reforma, o que aponta para a visão de mundo de Violeta.

Anos após deixar o Governo do Estado, tornou-se reitora da Universidade Regional do Cariri (URCA), entre 1997 e 2003. "Com ela na reitoria, houve uma ampliação na infraestrutura e se avançou a passos largos para a criação de novos cursos de graduação", afirmou Carlos Kleber de Oliveira, reitor da Urca, que também compareceu à missa do centenário.

Violeta foi uma das principais divulgadoras da cultura do Cariri, convidando amigos a conhecer a região, considerada uma das mais diversas do país, reunindo tradições populares originais, religiosidade, biodiversidade e fósseis que estão entre os mais conservados do mundo.

Visitantes observam fotografias e objetos expostos em espaço museológico de paredes de tijolo aparente e iluminação amarela. Entre eles, um homem segura uma criança no colo enquanto acompanha a exposição.
Legenda: Fundação Casa Grande, em Nova Olinda, Ceará, inaugurou um memorial em homenagem a Violeta Arraes.
Foto: Divulgação\Fundação Casa Grande

"No tempo dela na reitoria da Urca, você estava numa sala de aula e, de repente, Gilberto Gil entrava para assistir à explicação do professor", conta Sonia Meneses, doutora em História. A professora, que planeja uma biografia sobre Violeta, afirma que ela estaria "horrorizada" com o avanço da fronteira agrícola na Chapada do Araripe.

Como foi informado recentemente, nos lados cearense e pernambucano da região, há cerca de 1 milhão de hectares em que estão sendo plantados milho, pasto e soja em sistema de monocultura, situação que tem preocupado pelas consequências socioambientais.

Violeta Arraes e o marido, o economista francês Pierre Gervaiseau, trabalharam para que o Cariri tivesse a biodiversidade preservada, contribuindo para a criação de Área de Proteção Ambiental (APA) do Araripe, em 1997, e do Geoparque Araripe, em 2006, conquistas conservacionistas que, ao lado da octagenária Floresta Nacional do Araripe, são essenciais para a manutenção do equilíbrio do ecossistema, da oferta de água para abastecimento humano à  manutenção dos aspectos culturais autênticos do Cariri.

"Essa interconexão entre natureza, cultura, economia, sociedade, isso já vinha sendo feito havia uma década antes da criação da APA. Não por acaso, o Geopark Araripe é o primeiro reconhecido das Américas. Esse processo de mobilização amplo que Violeta fez ajudou a levar o conhecimento da Chapada do Araripe, desse gigantesco patrimônio cultural para fora e apresentar essa importância", afirma a pesquisadora.

Neste centenário de Violeta Arraes, diante do que está acontecendo na zona rural entre Crato, Santana do Cariri e Exu, com milhares de hectares de vegetação nativa sendo transformados em commodities, fica a pergunta: o que ela diria se visse o platô da Chapada do Araripe virar um novo Mato Grosso?

*Esse texto reflete exclusivamente, a opinião do autor.