Crato reabre seus museus em dia de reconciliação com a Cultura; veja imagens
Museu de Artes Vicente Leite e o Museu Histórico do Crato José Alves de Figueiredo Filho voltam a receber visitas.
O Museu de Artes Vicente Leite e o Museu Histórico do Crato José Alves de Figueiredo Filho estão reabertos após solenidade com visita guiada e posterior inauguração realizadas durante a tarde e a noite dessa sexta-feira (27). É data para ser celebrada como símbolo da reconciliação da Cidade com a sua identidade de terra da cultura.
No caso do Museu de Artes, contam-se quase 17 anos de acervo encaixotado diante da impossibilidade de exposição dentro do imóvel do século XIX localizado à Praça da Sé, prédio que estava em ruínas, como já foi abordado neste mesmo espaço.
Após sucessivas gestões que não o conseguiram, a Prefeitura do Crato finalmente pagou pela restauração do imóvel, mantendo as características originais e fazendo avanços necessários, com rampas e elevador, para acessibilidade. Até então, haviam sido feitas pelo menos oito tentativas, encerradas em licitação deserta, sem empresa que se disponibilizasse a restaurar um imóvel bicentenário.
"Nós fizemos esse investimento aqui todo com recursos próprios do Município, cerca de R$ 1,5 milhão, um pouco menos de um ano de obra. Finalmente, podemos abrir as portas à nossa população. Tenho certeza que esses equipamentos vão cumprir seu papel, tanto de fazer com que as pessoas do Crato, do Cariri, se identifiquem, conheçam mais a nossa história, mas também a oportunidade de apreciar essas obras tão belas", disse o prefeito André Barreto Esmeraldo.
Os dois museus ocupam o térreo e o primeiro piso da antiga Casa de Câmara e Cadeia do Crato, que está entre as poucas existentes no Ceará, a exemplo de Aracati, Barbalha, Icó e Quixeramobim.
Andar sobre o piso de ladrilho hidráulico, apreciar o teto de madeira e abaixar-se para entrar na sala que já foi o calabouço são atos que estavam apenas na memória de infância e juventude de muitos cearenses, inclusive na minha.
Chegou a hora de reviver esses momentos e, principalmente, cria-se a oportunidade para que os brasileiros mais jovens possam conhecer a produção cultural de artistas nascidos no século XIX, construindo as próprias memórias. Quem aprecia uma obra de arte propõe-se a decifrar a mensagem produzida por um artista. É como abrir um oráculo do passado, com detalhes e circunstâncias que sempre nos ensinam.
Quem acompanhou a inauguração pôde também entrar no prédio para ver as exposições, mas somente a partir de terça-feira (31) é que as visitas começarão a ser realizadas regularmente. Faltam ajustes, como as placas informativas ao lado de cada obra.
Apreciação do acervo
Comecemos pelo Museu de Artes Vicente Leite, que ocupa o piso superior do casarão. Fundado em 1972 pelo artista plástico Bruno Pedrosa, cearense radicado na Itália, o acervo tem preciosidades. Destaque para a iconografia de autoria de José dos Reis Carvalho, como a Vista do Crato e a Vista de Fortaleza, esta considerada a primeira pintura da nossa Capital, que está às vésperas de completar 300 anos. Estão em exposição, apesar de ainda precisarem de restauração, que estaria em planejamento.
"José dos Reis Carvalho fez parte da comissão criada pelo Imperador Dom Pedro II para retratar o Ceará", explica Dodora Guimarães, curadora da exposição, companheira de trabalho e viúva de Sérvulo Esmeraldo, que tem obras no acervo. Guimarães decidiu por uma curadoria que propõe o diálogo entre obras clássicas e contemporâneas. E essa é uma mudança significativa.
Que ninguém espere rever o Vicente Leite como ele era. A disposição das obras foi alterada e nem todas serão expostas o tempo todo. Em conversa com algumas pessoas, entre a visita guiada e a inauguração, ouvi uma crítica aqui e outra acolá. Existe uma preocupação legítima em relação ao acervo, que passou tanto tempo guardado, acessível a poucos olhos de restauradores, como Edilma Saraiva Rocha, cujo trabalho é bastante elogiado.
Foi comovente rever obras como o Crucificado e o Autorretrato de Sinhá d'Amora, artista plástica recordista de doações ao acervo, mas é claro que gostaria de ter revisto o Vaqueiro do Ceará, Êxodo Nordestino, Cabeça de Árabe e tantas outras. Compartilho aqui o catálogo feito há mais de 10 anos pelo então administrador Ricky Seabra, que, inclusive, precisa ser atualizado.
O próprio Seabra compareceu ao evento e estava feliz com a inauguração. A alegria foi sentimento geral nessa data.
"O neném nasceu!", sintetizou a este colunista o presidente do Instituto Cultural do Cariri, o médico José Flávio Vieira.
Do pterossauro à Feita do Crato
Após a visita guiada ao Museu de Artes Vicente Leite, foi a vez de descer ao térreo para acompanhar o trabalho de curadoria realizado pela professora da UFCA Adriana Botelho, historiadora, estudiosa das artes visuais e do cinema.
A pré-história, a colônia, o império e a atualidade balizaram a disposição de objetos históricos que fizeram parte do acervo criado pelo farmacêutico e estudioso do Cariri José Alves de Figueiredo Filho.
"O museu quando ele abre traz diversas características de uma região. E é isso que a gente tentou com essa curadoria aqui, trazer vozes diversas. A gente tem as vozes do Caldeirão [da Santa Cruz do Deserto] representadas, a gente tem as vozes do Seminário [São José] representadas, as vozes da comunidade expressa na Feira do Crato, uma tradição do século XIX, e a gente tem também uma história do território com que aborda paleontologia e arqueologia, que é uma parceria com a Urca", explicou Botelho.
É um acervo originário do pesquisador José Alves de Figueiredo Filho em diálogo com contribuições recentes, como é o caso dos fósseis que vieram do laboratório de paleontologia da Urca, liderado pelo professor Álamo Feitosa Saraiva.
Chamaram a atenção a imagem sacra de São Fidélis, que há muito tempo não se via, dividindo espaço com ex-votos de madeira, da tradição religiosa do Cariri, ladeados por indumentárias de sacerdotes da Igreja Católica e do Vale do Amanhecer.
A julgar pelo que nos trouxeram as curadorias de Guimarães e Botelho, sucessivas exposições vão propor esse diálogo entre obras clássicas e contemporâneas. É legítimo, vê-se um esforço no sentido de integração, de democratização do espaço, de inovação, essencial em todos os campos do conhecimento. Mas o acervo originário dos dois museus, que é riquíssimo, precisa ser exposto, estudado e apreciado. Existe uma ansiedade nesse sentido por parte dos espectadores e esse sentimento vai precisar ser gerido a partir dessa reabertura tão aguardada.
*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.