Crato reabre seus museus em dia de reconciliação com a Cultura; veja imagens

Museu de Artes Vicente Leite e o Museu Histórico do Crato José Alves de Figueiredo Filho voltam a receber visitas.

Escrito por
Paulo Henrique Rodrigues, o PH producaodiario@svm.com.br
Legenda: Os dois museus ocupam o térreo e o primeiro piso da antiga Casa de Câmara e Cadeia do Crato.
Foto: Márcio Silvestre/Arquivo pessoal.

O Museu de Artes Vicente Leite e o Museu Histórico do Crato José Alves de Figueiredo Filho estão reabertos após solenidade com visita guiada e posterior inauguração realizadas durante a tarde e a noite dessa sexta-feira (27). É data para ser celebrada como símbolo da reconciliação da Cidade com a sua identidade de terra da cultura.

No caso do Museu de Artes, contam-se quase 17 anos de acervo encaixotado diante da impossibilidade de exposição dentro do imóvel do século XIX localizado à Praça da Sé, prédio que estava em ruínas, como já foi abordado neste mesmo espaço.

Após sucessivas gestões que não o conseguiram, a Prefeitura do Crato finalmente pagou pela restauração do imóvel, mantendo as características originais e fazendo avanços necessários, com rampas e elevador, para acessibilidade. Até então, haviam sido feitas pelo menos oito tentativas, encerradas em licitação deserta, sem empresa que se disponibilizasse a restaurar um imóvel bicentenário.

Curadora Dodora Guimarães apresenta exposição, com destaque para o retrato do fundador do museu de Artes Vicente Leite, Bruno Pedrosa, de Edilma Saraiva Rocha, acrescido ao acervo.
Legenda: Curadora Dodora Guimarães apresenta exposição, com destaque para o retrato do fundador do museu de Artes Vicente Leite, Bruno Pedrosa, de Edilma Saraiva Rocha, acrescido ao acervo.
Foto: Paulo Henrique Rodrigues.

"Nós fizemos esse investimento aqui todo com recursos próprios do Município, cerca de R$ 1,5 milhão, um pouco menos de um ano de obra. Finalmente, podemos abrir as portas à nossa população. Tenho certeza que esses equipamentos vão cumprir seu papel, tanto de fazer com que as pessoas do Crato, do Cariri, se identifiquem, conheçam mais a nossa história, mas também a oportunidade de apreciar essas obras tão belas", disse o prefeito André Barreto Esmeraldo.

Os dois museus ocupam o térreo e o primeiro piso da antiga Casa de Câmara e Cadeia do Crato, que está entre as poucas existentes no Ceará, a exemplo de Aracati, Barbalha, Icó e Quixeramobim.

Andar sobre o piso de ladrilho hidráulico, apreciar o teto de madeira e abaixar-se para entrar na sala que já foi o calabouço são atos que estavam apenas na memória de infância e juventude de muitos cearenses, inclusive na minha. 

Chegou a hora de reviver esses momentos e, principalmente, cria-se a oportunidade para que os brasileiros mais jovens possam conhecer a produção cultural de artistas nascidos no século XIX, construindo as próprias memórias. Quem aprecia uma obra de arte propõe-se a decifrar a mensagem produzida por um artista. É como abrir um oráculo do passado, com detalhes e circunstâncias que sempre nos ensinam. 

Quem acompanhou a inauguração pôde também entrar no prédio para ver as exposições, mas somente a partir de terça-feira (31) é que as visitas começarão a ser realizadas regularmente. Faltam ajustes, como as placas informativas ao lado de cada obra.

Apreciação do acervo

Comecemos pelo Museu de Artes Vicente Leite, que ocupa o piso superior do casarão. Fundado em 1972 pelo artista plástico Bruno Pedrosa, cearense radicado na Itália, o acervo tem preciosidades. Destaque para a iconografia de autoria de José dos Reis Carvalho, como a Vista do Crato e a Vista de Fortaleza, esta considerada a primeira pintura da nossa Capital, que está às vésperas de completar 300 anos. Estão em exposição, apesar de ainda precisarem de restauração, que estaria em planejamento.

Joia do acervo: Vista de Fortaleza, de José Reis de Carvalho, considerada a primeira da capital cearense.
Legenda: Joia do acervo: Vista de Fortaleza, de José Reis de Carvalho, considerada a primeira da capital cearense, cidade às vésperas de completar 300 anos.
Foto: Paulo Henrique Rodrigues.

"José dos Reis Carvalho fez parte da comissão criada pelo Imperador Dom Pedro II para retratar o Ceará", explica Dodora Guimarães, curadora da exposição, companheira de trabalho e viúva de Sérvulo Esmeraldo, que tem obras no acervo. Guimarães decidiu por uma curadoria que propõe o diálogo entre obras clássicas e contemporâneas. E essa é uma mudança significativa.

Tela de Luís Karimai está entre as obras contemporâneas dispostas em diálogo com o acervo originário do Vicente Leite.
Legenda: Tela de Luís Karimai está entre as obras contemporâneas dispostas em diálogo com o acervo originário do Vicente Leite.
Foto: Paulo Henrique Rodrigues.

Que ninguém espere rever o Vicente Leite como ele era. A disposição das obras foi alterada e nem todas serão expostas o tempo todo. Em conversa com algumas pessoas, entre a visita guiada e a inauguração, ouvi uma crítica aqui e outra acolá. Existe uma preocupação legítima em relação ao acervo, que passou tanto tempo guardado, acessível a poucos olhos de restauradores, como Edilma Saraiva Rocha, cujo trabalho é bastante elogiado.

Foi comovente rever obras como o Crucificado e o Autorretrato de Sinhá d'Amora, artista plástica recordista de doações ao acervo, mas é claro que gostaria de ter revisto o Vaqueiro do Ceará, Êxodo Nordestino, Cabeça de Árabe e tantas outras. Compartilho aqui o catálogo feito há mais de 10 anos pelo então administrador Ricky Seabra, que, inclusive, precisa ser atualizado.

O próprio Seabra compareceu ao evento e estava feliz com a inauguração. A alegria foi sentimento geral nessa data.

"O neném nasceu!", sintetizou a este colunista o presidente do Instituto Cultural do Cariri, o médico José Flávio Vieira.

Do pterossauro à Feita do Crato

Após a visita guiada ao Museu de Artes Vicente Leite, foi a vez de descer ao térreo para acompanhar o trabalho de curadoria realizado pela professora da UFCA Adriana Botelho, historiadora, estudiosa das artes visuais e do cinema.

A pré-história, a colônia, o império e a atualidade balizaram a disposição de objetos históricos que fizeram parte do acervo criado pelo farmacêutico e estudioso do Cariri José Alves de Figueiredo Filho.

troncos petrificados de aproximadamente 145 milhões de anos.
Legenda: Pré-História do Cariri: troncos petrificados de aproximadamente 145 milhões de anos, anterior a quase tudo que já existiu e existe aqui, dos répteis voadores ao pequizeiros da Chapada do Araripe.
Foto: Paulo Henrique Rodrigues.

"O museu quando ele abre traz diversas características de uma região. E é isso que a gente tentou com essa curadoria aqui, trazer vozes diversas. A gente tem as vozes do Caldeirão [da Santa Cruz do Deserto] representadas, a gente tem as vozes do Seminário [São José] representadas, as vozes da comunidade expressa na Feira do Crato, uma tradição do século XIX, e a gente tem também uma história do território com que aborda paleontologia e arqueologia, que é uma parceria com a Urca", explicou Botelho.

É um acervo originário do pesquisador José Alves de Figueiredo Filho em diálogo com contribuições recentes, como é o caso dos fósseis que vieram do laboratório de paleontologia da Urca, liderado pelo professor Álamo Feitosa Saraiva. 

Chamaram a atenção a imagem sacra de São Fidélis, que há muito tempo não se via, dividindo espaço com ex-votos de madeira, da tradição religiosa do Cariri, ladeados por indumentárias de sacerdotes da Igreja Católica e do Vale do Amanhecer.

imagem maior em destaque, São Fidélis de Sigmaringa, é considerada umas das mais antigas do Crato
Legenda: Arte sacra: imagem maior em destaque, São Fidélis de Sigmaringa, é considerada umas das mais antigas do Crato, onde foi fundada a primeira diocese do interior do Ceará, de 1914.
Foto: Paulo Henrique Rodrigues.

A julgar pelo que nos trouxeram as curadorias de Guimarães e Botelho, sucessivas exposições vão propor esse diálogo entre obras clássicas e contemporâneas. É legítimo, vê-se um esforço no sentido de integração, de democratização do espaço, de inovação, essencial em todos os campos do conhecimento. Mas o acervo originário dos dois museus, que é riquíssimo, precisa ser exposto, estudado e apreciado. Existe uma ansiedade nesse sentido por parte dos espectadores e esse sentimento vai precisar ser gerido a partir dessa reabertura tão aguardada.

 

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.

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