CE aplicou 45 mil vacinas da dengue do Butantan e não registrou reações graves

Sesa monitora 2 mil pessoas que tomaram o imunizante há menos de 21 dias.

Escrito por
Alexia Vieira, Nícolas Paulino e Ana Alice Freire* ceara@svm.com.br
Close aproximado da aplicação de uma vacina. Mãos com luvas de plástico inserem a agulha transparente em um braço.
Legenda: Mais de 23 mil doses foram aplicadas na cidade de Maranguape.
Foto: Natinho Rodrigues.

Com aplicação suspensa temporariamente em todo o país, a vacina produzida pelo Instituto Butantan contra a dengue foi utilizada na imunização de mais de 45 mil pessoas no Ceará desde janeiro de 2026. Antonio Silva Lima Neto (Dr. Tanta), secretário executivo de Vigilância em Saúde da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), confirmou em entrevista ao Diário do Nordeste que não foram registrados casos de reações graves no Estado.

A interrupção do uso da vacina em todo o país foi uma medida preventiva tomada pelo Ministério da Saúde, na última segunda-feira (8), enquanto ocorre a investigação de 42 casos de reações adversas graves e dois óbitos. A relação causal entre os casos e o imunizante não foi confirmada.

Segundo Tanta, que conversou com a reportagem durante a inauguração da sala de vacinação no Vapt Vupt no Shopping Parangaba, nesta sexta-feira (12), não há motivo para alertas no Ceará. Atualmente, o Estado monitora cerca de 2 mil pessoas vacinadas nos últimos 21 dias, tempo que o imunizante leva para ativar as defesas do organismo, mas sem notícias de reações importantes.

A Butantan-DV foi administrada em aproximadamente 500 mil vacinados no País, com os eventos adversos representando cerca de 0,008% de todas as doses distribuídas. 

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No Ceará, 24.159 doses foram aplicadas na população geral de 15 a 59 anos de Maranguape, na Região Metropolitana de Fortaleza, como parte de uma campanha-piloto de imunização em massa que envolveu também as cidades de Botucatu, em São Paulo, Nova Lima, em Minas Gerais, e na região de Araguaína, no Tocantins.

A Prefeitura de Maranguape informou que a campanha-piloto começou em 17 de janeiro e foi até fevereiro. Apenas 180 notificações de reações adversas, mas todas leves, foram computadas no município. 

Depois da distribuição nesse município, o imunizante passou a ser utilizado por profissionais da Atenção Primária à Saúde (APS), incluindo médicos, enfermeiros e outras ocupações que atuam em postos de saúde. Para esse público, foram aplicadas cerca de 22 mil doses, conforme o secretário executivo da Sesa.

Reações normais à vacina

 Antonio Silva Lima Neto (Dr. Tanta) ressalta que, no Ceará, a maioria das reações leves já estava descrita na bula do imunizante, especialmente aquelas esperadas antes do terceiro dia após a aplicação.

A principal reação notificada no Estado foi o chamado rash cutâneo (ou exantema), o surgimento de manchas avermelhadas no corpo que pode ser acompanhado por coceira, febre ou mal-estar.

Close em braços femininos com manchas vermelhas na região da mão sobre um fundo branco.
Legenda: Surgimento de manchas na pele é uma reação prevista na bula da vacina do Butantan.
Foto: Pexels.

“É uma vacina reatogênica, de fato, como o próprio Ministério explicou. Em alguns casos, 5 ou 6 dias depois, você tem um quadro inespecífico, em que você tem um pouquinho de febre, às vezes dor de cabeça, reações semelhantes a dengue”, explica.

Essa reação se deve à vacina do Butantan ser uma vacina atenuada, que utiliza o patógeno vivo, porém enfraquecido, para estimular a resposta imunológica do organismo de forma semelhante a uma infecção natural.

“Vírus atenuado replica. Para você produzir sua defesa, o vírus tem que replicar porque ele não está morto. Então, quando eu aplico em você, ele tem uma pequena replicação, ou seja, ele provoca viremia”, detalha Tanta.

Ainda conforme o secretário executivo, as suspeitas de reações mais graves à vacina se concentraram na região Sul do Brasil, fenômeno que será investigado por um comitê de especialistas do Ministério da Saúde, levando em conta o histórico individual dos pacientes.

Como as reações graves foram detectadas?

Todas as vacinas e medicamentos precisam passar por um monitoramento a partir do momento em que são disponibilizados em larga escala para a população. A área responsável por isso é chamada farmacovigilância.

Por meio de comitês de farmacovigilância espalhados em municípios e Estados, ligados ao Ministério da Saúde, é possível observar, investigar e registrar eventos adversos. A notificação desses eventos é encorajada, tanto para a população quanto para profissionais da saúde.

Foram notificados no Brasil 3 mil casos de eventos adversos em pessoas que tomaram a Butantan-DV, sendo 42 deles considerados severos. Três evoluíram de forma mais grave, com duas mortes registradas. 

Casos de reações graves são raros e não foram detectados durante o desenvolvimento e nos estudos clínicos do imunizante, que duraram cerca de 20 anos, segundo o Instituto. Mais de 11 mil voluntários foram vacinados e acompanhados por cinco anos para verificação da eficácia e segurança.

O diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Juarez Cunha, explica que se reações como essas tivessem sido registradas durante os estudos, a vacina não teria sido aprovada para produção e comercialização. 

Com o aumento da quantidade de pessoas que receberam o imunizante, os eventos raros foram identificados. Juarez reafirma que é justamente esse o papel da farmacovigilância. A partir disso, investigar cada um deles é um dever dos órgãos reguladores e do Instituto Butantan.

A gente tem de afastar todas as possibilidades que possam ter levado a esse desfecho. Uma das possibilidades é a vacina, mas pode ter sido a doença natural, alguma outra doença que tenha ocasionado isso, ou eventualmente a pessoa teria alguma contraindicação que não foi detectada ou que a pessoa nem sabia.
Juarez Cunha
Diretor da SBIm

Por meio da avaliação do prontuário dos pacientes, de exames que já tenham sido realizados ou de novos testes, o objetivo é identificar se os eventos adversos graves têm relação apenas temporal com a vacina (aconteceram ao mesmo tempo, mas não foram causadas por ela) ou também uma relação causal. 

Quem tomou a vacina há mais de 21 dias não corre riscos

Juarez reafirma, assim como comunicados oficiais do Ministério da Saúde, que pessoas que receberam a vacina do Butantan há mais de 21 dias não precisam se preocupar com eventos adversos.

As reações são observadas nos primeiros dias após a vacinação. Depois disso, as pessoas só usufruem dos benefícios da proteção. Nos estudos clínicos, a Butantan-DV mostrou eficácia global de 79,6% contra a doença e 89% contra a dengue grave.

Já aqueles que ainda estão na janela de 21 dias após receber a dose do imunizante devem ficar atentos aos sintomas que se assemelham a um caso de dengue grave:

  • Dor abdominal intensa e contínua
  • Febre
  • Vômito persistente
  • Sonolência 
  • Irritabilidade
  • Sangramentos
  • Tontura
  • Sinais de desidratação
  • Piora no estado geral.

Nesses casos, a orientação é procurar uma unidade de saúde.

Vacina disponível nos postos de saúde 

A vacina Qdenga, produzida pelo laboratório japonês Takeda, continua disponível para a população nos postos de saúde e na rede privada. Apesar de também proteger contra a dengue, ela não tem relação com a vacina do Instituto Butantan. 

Os dois imunizantes são feitos com vírus atenuado. A vacina Qdenga tem um esquema de duas doses, enquanto a Butantan-DV é eficaz apenas com uma aplicação. 

Desde 2024, a Qdenga faz parte do Plano Nacional de Imunização (PNI) e está no calendário vacinal de crianças e adolescentes de 10 a 14 anos. A faixa etária restrita está relacionada ao potencial de produção do laboratório responsável, que não consegue fazer uma quantidade de doses que supra a grande demanda de um país como o Brasil.

*Estagiária sob supervisão da jornalista Dahiana Araújo.

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