Vacina da dengue disponível em postos e na rede particular não é a mesma do Butantan

Suspensão da Butantan-DV não influencia uso da Qdenga, que deve continuar sendo aplicada no público-alvo no SUS

Escrito por
Alexia Vieira alexia.vieira@svm.com.br
Caixa da vacina Qdenga com dois frascos do imunizante na frente.
Legenda: Vacina Qdenga é disponibilizada para pessoas de 10 a 14 anos na rede pública desde 2024
Foto: Reprodução/Sesa-CE

A vacina Qdenga, produzida pelo laboratório japonês Takeda, é a única contra a dengue disponível nos postos de saúde e na rede particular do Brasil. Já o imunizante produzido pelo Instituto Butantan, que teve o uso suspenso temporariamente, nunca foi distribuído em larga escala ou comercializado na rede privada.

Os dois imunizantes protegem contra a mesma doença, mas têm fábricas, esquemas vacinais e públicos-alvo diferentes. A suspensão da Butantan-DV não influencia na continuidade de distribuição da Qdenga. 

Aprovada no Brasil desde 2023, a vacina Qdenga começou a ser disponibilizada para a população de 10 a 14 anos a partir de fevereiro de 2024. A aplicação iniciou em 521 municípios prioritários, definidos por critérios epidemiológicos de dengue e demográficos.

A estratégia de vacinação em massa com o imunizante foi gradativamente ampliada e chegou a 2.752 municípios até o final de 2025.  Na rede pública do Ceará, até janeiro de 2026, foram distribuídas 123.401 doses e aplicadas 94.735, de acordo com documentos da Secretaria da Saúde do Estado (Sesa).

A vacinação é uma estratégia importante de combate à dengue. Em 2026, o Estado teve 2.696 casos oficialmente confirmados. O período registra alta de 32,4% em relação à mesma semana epidemiológica de 2025, quando foram confirmados 1.736 casos de dengue.

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Quais as diferenças entre as duas vacinas?

As duas vacinas são feitas com o vírus da dengue atenuado. Ou seja, há o vírus vivo, mas enfraquecido em laboratório. Isso torna a aplicação segura, sem causar a doença e estimulando o sistema imunológico a produzir anticorpos.

Enquanto a Qdenga tem apenas o subtipo DENV-2 atenuado, a Butantan-DV contém os quatro sorotipos conhecidos da dengue. 

No entanto, as duas concedem proteção para todos os tipos. Para isso, a Qdenga precisa de esquema vacinal de duas doses e a Butantan-DV é uma vacina de dose única.

A eficácia da Qdenga observada nos estudos clínicos foi de 80,2% em 12 meses após a segunda dose e 61,2% após cinco anos da vacinação. Em relação às hospitalizações, há uma eficácia geral de 90,4% em 12 meses e 84,1% em até cinco após a conclusão do esquema vacinal. 

Já a Butantan-DV mostrou eficácia geral de 65% contra a dengue após cinco anos. A eficácia contra casos de dengue grave e dengue com sinais de alarme é de 80,5% após cinco anos.

Quem pode tomar a vacina da dengue Qdenga?

Na rede pública, o único grupo etário que pode tomar a vacina Qdenga são as crianças e adolescentes que têm entre 10 e 14 anos, 11 meses e 29 dias de idade. Já na rede privada, qualquer pessoa de quatro a 60 anos pode utilizar o imunizante.

O público-alvo na rede pública foi escolhido com base em recomendações de órgãos de saúde e o histórico de hospitalização por dengue nos cinco anos anteriores. Além disso, a produção limitada por parte do laboratório Takeda fez com que a logística de distribuição precisasse ser otimizada. 

Existem precauções e cuidados destinados a grupos específicos. Mulheres em idade fértil, com potencial para engravidar, devem evitar a gravidez por pelo menos um mês após a vacinação. 

Pessoas que realizam tratamento com imunoglobulinas ou hemoderivados devem esperar três meses desde a última aplicação para tomar a vacina.

Após a vacinação, pacientes que têm histórico de reações alérgicas graves a medicamentos, alimentos ou outras vacinas precisam passar 30 minutos em observação. Quem não tem histórico de alergias graves deve ser observado por 15 minutos pós-aplicação do imunizante.

Há contraindicações para o uso da Qdenga:

  • Indivíduos menores de quatro anos e com mais de 60 anos;
  • Anafilaxia ou reação de hipersensibilidade à substância ativa ou a qualquer excipiente da composição da vacina ou à uma dose anterior dessa vacina;
  • Indivíduos com imunodeficiência congênita ou adquirida: em terapias imunossupressoras, tais como quimioterapia ou altas doses de corticosteroides sistêmicos (p. ex., 20 mg/dia ou 2 mg/kg/dia de prednisona por duas semanas ou mais) dentro de quatro semanas anteriores à vacinação, como ocorre com outras vacinas vivas atenuadas;
  • Indivíduos com infecção por HIV sintomática ou infecção por HIV assintomática quando acompanhada por evidência de função imunológica comprometida;
  • Gestantes e mulheres que estejam amamentando (lactantes).

Vacina do Butantan só foi aplicada em cidades específicas e em profissionais da atenção básica

A vacina do Instituto Butantan contra a dengue, chamada de Butantan-DV, foi administrada em aproximadamente 500 mil pessoas no País, de janeiro a maio. Depois de passar por todas as fases necessárias de estudos clínicos e ser aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), ela foi distribuída para públicos específicos.

Em uma campanha-piloto, as doses foram distribuídas para a população geral de 15 a 59 anos em três cidades: Maranguape, no Ceará, Botucatu, em São Paulo, e Nova Lima, em Minas Gerais. A região de Araguaína, no Tocantins, também recebeu a vacina.

O imunizante também foi utilizado por profissionais da Atenção Primária à Saúde (APS), que geralmente atuam em postos de saúde.

Nesse período, a partir do monitoramento da farmacovigilância — área responsável por observar, investigar e registrar eventos adversos de medicamentos e vacinas — foram identificados 42 casos de reações severas em pessoas que tomaram a vacina. Três evoluíram de forma mais grave, com duas mortes registradas.

A suspensão foi uma medida preventiva, segundo o Ministério da Saúde, para permitir a investigação dos eventos adversos. O objetivo é entender se há uma relação de causa e efeito entre os casos e a Butantan-DV.

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