Foi em meados da década de 1950 que Mãe Júlia Barbosa Condante, criadora da Federação Cearense Espírita de Umbanda e uma das responsáveis pelo fortalecimento da religião no Estado, registrou o primeiro terreiro da Capital e começou a realizar celebrações em homenagem ao Dia de Iemanjá por trás das dunas da Praia do Futuro.
Os montes de areia, na época suntuosos, ajudavam a proteger os umbandistas da repressão policial e da intolerância religiosa.
Mais de 60 anos depois, a Festa de Iemanjá de Fortaleza figura como uma das principais manifestações religiosas e culturais da Capital, e se expandiu para outros pontos da orla, se mantendo na Praia do Futuro, mas chegando também às areias da Praia de Iracema, do Poço da Draga, do Mucuripe e da Barra do Ceará.
Neste sábado (15), a Festa de Iemanjá da Capital deve contar com cerca de 100 mil pessoas, segundo estimativas dos organizadores, número que engloba adeptos das religiões de matriz africana e simpatizantes do festejo.
Como a data cai no fim de semana neste ano, essa projeção pode ser superada, segundo o antropólogo e pesquisador Jean dos Anjos, já que muitos terreiros vêm do interior do Estado para celebrar a Rainha do Mar.
Na capital cearense, o dia de Iemanjá é celebrado em 15 de agosto, também dia de Nossa Senhora da Assunção, padroeira da Capital. As celebrações coincidem porque, durante boa parte do século XX, a polícia censurava religiões afro-indígenas. Para tentar contornar a censura, líderes dessas religiões se utilizavam do sincretismo religioso para tentar reduzir o preconceito.
Para Jean, outro aspecto tem contribuído para o crescimento da Festa de Iemanjá na Capital: a chegada à Praia de Iracema, que ocorreu há cerca de 13 anos e se tornou estratégica para a valorização das tradições culturais e religiosas ligadas à umbanda e ao candomblé em solo cearense.
“Essa ampliação é muito importante, porque as associações que vão para a Praia de Iracema têm um entendimento que todas as grandes festas da cidade acontecem lá, no Aterro – as festas católicas, os grandes encontros. Então, a festa de Iemanjá ganha uma outra visão”, explica Jean.
Enquanto a Praia do Futuro se fortalece como lugar de tradição e memória, a Praia de Iracema se torna "um lugar contemporâneo, para a visibilidade turística da festa".
Jean, que acompanha e registra a Festa há cerca de 20 anos e participou da elaboração do dossiê que ajudou a transformar o festejo em um Patrimônio Imaterial da Cidade, em 2018, afirma que o festejo ainda carece de mais atenção do poder público, para que “as celebrações negras e indígenas possam estar à mesma altura das celebrações das outras religiões”.
“A gente precisa avançar mais para que o poder público olhe para a festa como uma festa que também pode ser boa economicamente para a cidade”, destaca.
Fortalecimento da Festa de Iemanjá ajuda a combater intolerância religiosa
As garantias para as religiões de matriz africana – e, consequentemente, para a salvaguarda da Festa de Iemanjá – só vieram com uma abertura “gradual” a essas crenças com a promulgação da Constituição Federal de 1988, explica Jean dos Anjos.
Para o pesquisador, desde então, as tradições afro-indígenas garantiram uma liberdade que ainda não existia, mas ainda há caminhos importantes a serem percorridos.
“Essa representatividade precisa aumentar. A gente precisa ter mais políticas de visibilidade, mais políticas públicas para que as pessoas se sintam, inclusive, protegidas pelo Estado para dizer que é umbandista ou é candomblecista, porque às vezes a violência acontece no olhar”, ressalta.
“Se você entra no ônibus com o seu fio de conta, as pessoas te olham atravessado, as pessoas não se sentam ali do teu lado ou se afastam. Isso é um tipo de violência”, completa.
Parte do preconceito parte da falta de representatividade e conhecimento sobre as religiões de matriz africana, o que reforça a necessidade de haver mais atenção e valorização do festejo de Iemanjá.
“A Festa de Iemanjá, por muito tempo, foi a única festa pública, em espaço público da cidade, de religiões negras e indígenas. Hoje a gente já tem algumas outras festas públicas, como a festa de São Jorge, a feijoada de São Jorge que tem acontecido na cidade, a festa de Cosme e Damião”, lembra Jean.
“A Festa de Iemanjá abre espaço para a gente pensar sobre esses povos de matriz africana, que resistiram a um período de quase quatro séculos de escravidão, e resistiram ao apagamento da sua cultura, ao apagamento da sua religiosidade, ao apagamento da sua língua, da sua culinária. Tudo isso a gente vai encontrar nas festas de Iemanjá”, conclui o pesquisador.
Festejos também são realizados no interior do Estado
Além da Capital, que recebe a maior Festa de Iemanjá do Ceará, outras cidades também são conhecidas pelos festejos de 15 de agosto. Caucaia, Aquiraz e Camocim são algumas das que registram festas tradicionais, que começam na noite do dia 14 e se estendem por todo o dia 15.
Mas não somente cidades litorâneas recebem a festa da Rainha do Mar. Municípios como Iguatu e Crateús, entre outros, também realizam festejos em homenagem à Iemanjá, na beira de reservatórios de água doce, como rios e açudes.
“Quando o terreiro não consegue chegar aqui na Capital, a Festa de Iemanjá também é feita nos açudes e nos rios, porque a própria origem de Iemanjá no continente africano é no Rio Ogum, na Nigéria. Então, Iemanjá é um orixá celebrada originalmente no Rio Ogum. Quando ela chega aqui no Brasil, ela é ressignificada e passa a ser celebrada na beira da praia”, explica Jean dos Anjos. “Onde há água, há Iemanjá e há celebração pra Iemanjá”.
Diferentemente da Capital, aponta, as festas realizadas no interior do Estado ainda necessitam de mais pesquisas e salvaguarda de suas celebrações.
Qual a cidade com maior proporção de pessoas de umbanda e candomblé no CE?
O Ceará ocupa o 10º lugar no ranking de estados com mais pessoas que declararam ser praticantes de umbanda ou candomblé no Censo Demográfico 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Segundo a pesquisa, 27.861 pessoas afirmaram ser adeptas de uma dessas religiões no Estado, número mais de três vezes maior do que o do Censo anterior, de 2010, quando apenas 8.624 pessoas que se declararam umbandistas ou candomblecistas.
No Ceará, a cidade com maior proporção de pessoas de umbanda ou candomblé é Aquiraz, na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), com 1% da população praticante de uma das religiões, seguida por Ararendá (0,88%), Nova Russas (0,79%) e Ibiapina (0,64%).
Esses números, no entanto, podem ser ainda maiores, explica Jean dos Anjos, já que muitas pessoas ainda têm receio de se identificar publicamente como adeptas de religiões de matriz africana.
“A gente vai ter pessoas que não se declaram umbandistas ou candomblecistas porque elas têm medo, por exemplo, de que o pessoal do trabalho descubra, ou mesmo familiares. Então, o preconceito ainda é muito grande – o preconceito e o medo por conta do preconceito”, pontua o antropólogo. “Ainda há respostas ao Censo, de pessoas umbandistas, que vão se dizer espíritas kardecistas ou mesmo católicas”, completa.
Veja as cidades com maior proporção de pessoas de umbanda ou candomblé:
- Aquiraz (CE): 1%
- Ararendá (CE): 0,88%
- Nova Russas (CE): 0,79%
- Ibiapina (CE): 0,64%
- Alto Santo (CE): 0,63%
- Caucaia (CE): 0,63%
- Juazeiro do Norte (CE): 0,63%
- Groaíras (CE): 0,62%
- Fortaleza (CE): 0,61%
- Itaitinga (CE): 0,61%
- Paracuru (CE): 0,57%
- Jaguaruana (CE): 0,52%
- Maracanaú (CE): 0,5%
- Poranga (CE): 0,5%
- Palmácia (CE): 0,49%
Confira a programação da Festa de Iemanjá em Fortaleza
15 de agosto (sábado)
5ª Festa de Yemanjá e Barco do Seu Sibamba da Praia do Mucuripe
Onde: Av. Beira-Mar, 3479 - Mucuripe (próximo ao Mercado dos Peixes)
Horário: 8h às 12h
61ª Festa de Iemanjá da Praia do Futuro
Onde: Barraca Zé da Praia (Av. Zezé Diogo, 2551 - Praia do Futuro)
Horário: 8h às 17h
14ª Festa de Iemanjá
Onde: Praia de Iracema (Av. Historiador Raimundo Girão, 800)
Horário: 10h às 19h
Festa de Yemanjá 2026
Onde: Praia do Poço da Draga / Pavilhão Atlântico
Horário: 13h às 18h30 / 17h30 às 19h
Saída da Caravana Cultural (cortejo da estátua de Chico da Matilde, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura)
Onde: Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (CDMAC) para o Palco Poço da Draga, no Pavilhão Atlântico
Horário: 13h30
16 de agosto (domingo)
Encerramento da Festa de Iemanjá | Roda de conversa com Pai Neto, Pai Ricardo e Mãe Bia + Apresentações do Grupo Cultural Toque de Senzala e do Grupo Cultural Batuque de Aruanda
Onde: Estação das Artes (Rua Dr. João Moreira, 540 – Centro)
Horário: A partir das 10h