Por que agremiações reagiram à retirada do Carnaval de rua da Domingos Olímpio

Dentre os impactos com a possível mudança, foi citada a quebra da tradição da festa em Fortaleza, afetando também uma diversão a baixo custo.

Escrito por Ana Beatriz Caldas beatriz.caldas@svm.com.br
09 de Agosto de 2026 - 10:38
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Legenda: Desfiles são realizados na avenida desde 1997.
Foto: Ismael Soares.

Uma das discussões ocorridas em Fortaleza ao longo da semana foi o fato de a Prefeitura ter mencionado que cogitava transferir a programação de carnaval da Av. Domingos Olímpio para o estacionamento da Arena Castelão em 2027. Em poucos dias, a gestão voltou atrás e anunciou a permanência na via. No entanto, diante do cenário, algumas questões foram levantadas: por que agremiações reagiram à possível mudança, quais motivos a gestão teria para isso e que impactos podem ocorrer caso os tradicionais desfiles de maracatus, afoxés, cordões, escolas e blocos cheguem a deixar aquele local? 

Segundo fontes ouvidas pela reportagem, a definição da permanência ocorreu após a maioria dos representantes das agremiações carnavalescas se recusar a deixar o local, especialmente pela importância da Domingos Olímpio para a memória e a cultura de Fortaleza, já que o local recebe os desfiles desde 1997.

Em meio às mudanças conceituais e mercadológicas pelas quais os carnavais do Brasil passaram nas últimas três décadas, com a chegada de novos estilos musicais e formas de vivenciar a festa na rua, a avenida fortalezense continua a guardar boa parte da tradição carnavalesca popular do Ceará, promovendo um encontro entre história, cultura e religião que ajuda a contar parte dos patrimônios do Estado.

Cerca de 45 agremiações carnavalescas integram, atualmente, o Carnaval de rua da Domingos Olímpio. São 14 maracatus, 10 escolas de samba, 9 blocos, 7 afoxés e 5 cordões, além das agremiações que ensaiam um retorno para 2027. O Fórum do Carnaval de Fortaleza conta com dois membros de cada categoria, sendo um titular e um suplente.

A decisão pela manutenção dos desfiles na avenida foi tomada na última quarta-feira (5), depois de uma reunião entre membros da Secretaria da Cultura de Fortaleza (Secultfor) e representantes de maracatus, afoxés, escolas de samba, blocos e cordões do Fórum do Carnaval de Fortaleza. Segundo Raimundo Praxedes de Souza, presidente da Associação Cultural das Entidades Carnavalesca do Ceará (Acecce), a sugestão só foi descartada após a maior parte das agremiações fazer uma “grande campanha” em prol da Domingos Olímpio.

Durante a última semana, o Diário do Nordeste esteve em contato com diversas lideranças de maracatus, escolas de samba, blocos, cordões e afoxés para ouvir dirigentes das agremiações sobre os pontos positivos e negativos de uma possível saída da Domingos Olímpio. De maneira geral, as quatro primeiras categorias convergiram em recusar a sugestão de mudança, alegando que a tradição seria quebrada, impactando quem faz e brinca o Carnaval de rua.

A única divergência foi dos afoxés, que inicialmente avaliaram a mudança como positiva, diante da demanda da categoria de acrescentar mais um dia aos festejos tradicionais – existente há pelo menos dois anos, para que os afoxés abram a festa na Domingos Olímpio na sexta-feira, como ocorre em outras cidades do País –, que seria difícil de concretizar na avenida, devido ao comércio local. O segmento, no entanto, foi voto vencido.

Avenida possibilita diversão de baixo custo à comunidade do entorno

Desfile do bloco Garotos do Benfica.
Legenda: Desfile do bloco Garotos do Benfica.
Foto: Divulgação.

Um dos críticos à possibilidade da transferência dos desfiles da avenida para outro local, Raimundo Praxedes, presidente da Acecce e do Maracatu Nação Baobab, destaca que a permanência na Domingos Olímpio garante a manutenção de um Carnaval acessível a públicos de todas as faixas de renda da Cidade

Segundo Praxedes, muitos dos foliões e dos brincantes que acompanham e participam dos desfiles moram em bairros próximos e costumam ir até à avenida andando, tendo a cultura popular como meio de lazer gratuito. 

“Quem brinca é um pessoal do poder aquisitivo muito baixo. Os que vão pra avenida é a mesma coisa”, comenta. “Só para você ter ideia, todo mundo leva as alegorias para Domingos Olímpicos empurrando, quem é aqui da Bela Vista, do Pirambu, da Piedade”, completa.

Domingos Olímpio une gerações de foliões e brincantes

Desfiles ocorrem nos quatro dias do Carnaval.
Legenda: Desfiles ocorrem nos quatro dias do Carnaval.
Foto: Thiago Gadelha.

Quase todas as fontes ouvidas pela reportagem citaram como fatores relevantes para se manter na avenida, além da necessidade de se manter o local histórico de desfiles, uma possível desconexão com o público fiel dos desfiles, caso houvesse a mudança. Isso porque foliões e brincantes dividem, há décadas, a experiência dos desfiles na avenida, segundo Gerlano Barros, presidente do bloco Garotos do Benfica.

O próprio Gerlano, que representa a categoria dos blocos no Fórum do Carnaval de Fortaleza, é exemplo dessa tradição. O bloco que preside hoje foi criado por seu pai, Edilson, no início da década de 90. Há décadas, a história de sua família é contada, por meio do Carnaval, na Domingos Olímpio. Segundo ele, quase todas as agremiações têm histórias parecidas, passadas de geração em geração.

“É um Carnaval tão tradicional que tem pessoas com mais de 60, 70 anos que fazem parte desse Carnaval tão maravilhoso, amado por todos”, afirma, destacando que o local é central, o que facilita a chegada de pessoas de diversas idades e pontos da região. “Todo mundo que mora ali ao redor já faz parte há anos. Também tem agremiações que têm os seus barracões ali próximo”, aponta. 

Quem também destaca o caráter familiar e comunitário do Carnaval feito na Domingos Olímpio é Francisco José Barbosa da Silva, presidente do Maracatu Rei de Paus e representante da categoria no Fórum do Carnaval.

“Tem um público fiel a Domingos Olímpio. Se você observar, se você for pro desfile na avenida, você vai ver aquelas senhoras que vêm com suas famílias, com seus filhos, com seus netos, com seus tataranetos, que formam em torno da Domingos Olímpio uma tradição familiar”, pontua. 

Gerlano Barros coloca que, apesar a iniciativa de se cogitar uma transferência com o intuito de melhorar a experiência da festa foi “louvável”, mas reforça que não há interesse de sair da avenida por enquanto. “Para nós agora, nesse exato momento, a melhor logística pra gente é permanecer”.

Verba, divulgação e estrutura ainda são insuficientes, afirmam agremiações

Com custo alto e pouco investimento, agremiações enfrentam dificuldades para levar desfiles às ruas.
Legenda: Com custo alto e pouco investimento, agremiações enfrentam dificuldades para levar desfiles às ruas.
Foto: Fernanda Siebra/Secultfor.

Segundo fontes ouvidas pela reportagem, a Secultfor afirmou às agremiações que o valor repassado para quem desfila na avenida não terá aumento em 2027, para evitar possíveis atrasos no pagamento. O fator também pesou na decisão de votar contra a mudança para o Castelão, já que a logística ficaria mais cara – e o próprio público poderia ter dificuldade de chegar ao local para prestigiar os grupos.

No entanto, mesmo com a permanência na Domingos Olímpio, dirigentes dos grupos destacam que a infraestrutura precisa ser aprimorada e afirmam haver necessidade de mais investimentos na cultura popular.

Na edição deste ano, por exemplo, Raimundo Praxedes aponta que a mudança na direção dos desfiles causou problemas aos brincantes que carregavam estandartes e usavam indumentárias pesadas, prejudicando especialmente os maracatus. 

O som e a iluminação também deixaram a desejar, segundo ele, além da concorrência com artistas de alcance nacional, no mesmo horário dos desfiles, em polos como a Praia de Iracema, e da pouca divulgação em relação aos demais atrativos.

“Para se ter sucesso, você tem que ter uma mídia boa. Você tem que melhorar os editais, o dinheiro sair seis meses antes – porque o dinheiro sai na véspera do Carnaval. E [antecipar] o regulamento, que está saindo na hora que a gente vai desfilar”, pontua.

Francisco José, do Maracatu Rei de Paus, destaca que há problemas que se arrastam há quase três décadas. “Vão fazer 30 anos e não se qualificou o som. É o mesmo som de gestões a gestões. Ou seja, é um problema estrutural do ente público”, destaca.

Fundador do cordão As Bruxas e representante dos cordões no Fórum do Carnaval, Maurício Duarte também votou contra a mudança para o Castelão, em conjunto com a categoria. O brincante, que tem 71 anos e 58 de Carnaval de rua, também afirma que a Domingos Olímpio precisa de melhorias, mas que sair de lá não é a solução.

“A Domingo dos Olímpio está defasada porque não investiram nada na Domingos Olímpio”, destaca. Para ele, há necessidade de se incluir mais estrutura para quem deseja permanecer na avenida, como praça de alimentação, shows musicais e de humor. O artista também pontuou a ausência de um foco maior na projeção da festa de rua em relação a outros eventos públicos.

“Eles divulgam o Réveillon, eles divulgam as festas juninas, mas não divulgam o Carnaval, porque o Carnaval é do filho do verdureiro, é do filho do pedreiro, é do filho do Bolsa Família, é da periferia. Então, cultura popular não tem valor. Isso eu já passei em várias gestões”, ressalta.

Demanda por novo espaço segue para afoxés

Se a mudança para o Castelão foi descartada, pelo menos num futuro próximo, há quem siga sonhando com um novo lugar para receber os festejos. Larissa Caúla, presidente do Afoxé Acabaca, que celebra 20 anos neste ano, reforça que os afoxés seguem com a demanda de abrir o Carnaval na sexta-feira, para “limpar” e abrir os caminhos, o que exige que se pense em um outro espaço no futuro. 

Além disso, ela alega que o aumento no número de agremiações faz com que mais um dia seja acrescentado à programação, para que os horários das apresentações sejam mais confortáveis para brincantes e públicos. 

“A gente já tinha conversado sobre a avenida José Jatahy, alguns conversaram sobre a avenida Beira Mar, outros comentaram sobre a possibilidade de voltar pro entorno do Dragão do Mar, Aguanambi”, contextualiza.

Para Larissa, outras dificuldades impõem a necessidade de mudança, ainda que a tradição do local deva ser levada em conta na equação. “A gente tem, por exemplo, as tartarugas que têm na Domingos Olímpio, pelo fato de a gente andar com os carros alegóricos, as escolas de samba, principalmente, e os maracatus”, explica. “E há uma limitação de altura também. A gente não consegue apresentar, às vezes, carros maiores por conta dessa limitação”, completa.

A solução, para a presidente da agremiação, seria “a criação de um de um lugar específico para receber essas atividades”, a exemplo do Sambódromo da Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro. “Um espaço pro Carnaval, que teria um outro nome, pensando nos desfiles, principalmente, assim como as quadrilhas defendem a ideia da construção de um quadrilhódromo. E que a gente pudesse inclusive ali agregar museus permanentes, museu do maracatu, museu dos afoxés”, projeta.

Quem também vislumbra alternativas no futuro é Carlos Henrique Brito, presidente e carnavalesco da Escola de Samba Imperadores. Representante das escolas de samba no Fórum do Carnaval, ele votou contra a mudança para o Castelão no momento, mas também acredita que o futuro pode distanciar os foliões da tradicional avenida da cultura popular da Capital.

“Na minha visão, o Castelão pode até ser um polo futuro do carnaval de Fortaleza, mas eu acho que a gente tem que se estruturar primeiro para que a gente vá para um outro polo, com um outro olhar. Isso eu falo em relação à verba, que é muito pouca. Eu acho que a gente teria que ir com uma estrutura bem maior para o Castelão”, afirma. “Acho que devia se organizar a Domingos Olímpio para, num Carnaval futuro, sair de lá.”

Por enquanto, os próximos desfiles devem seguir o mesmo formato e já têm data para ocorrer: 6 a 9 de fevereiro de 2027. Como de costume, na avenida Domingos Olímpio.

O que diz a Secultfor

Durante as discussões sobre a possibilidade de mudanças, antes de o prefeito Evandro Leitão confirmar que o Carnaval será mantido na Domingos Olímpio, a Secretaria Municipal da Cultura de Fortaleza (Secultfor) informou, por meio de nota enviada ao Diário do Nordeste, que aquela discussão sobre uma provável mudança integrava o processo de planejamento participativo do Carnaval de Fortaleza 2027, desenvolvido no âmbito do Fórum do Carnaval. 

A proposta surgiu porque, segundo a Pasta, há uma "necessidade de analisar alternativas que possam oferecer melhores condições de infraestrutura, logística e operação para os desfiles, contemplando aspectos como concentração e dispersão das agremiações, circulação de veículos de apoio, acessibilidade, sonorização, iluminação, segurança, mobilidade e atendimento ao público".

A Secultfor justificou ainda que a ideia foi cogitada porque a "Avenida Domingos Olímpio exige uma complexa operação de bloqueio e liberação de vias, além de estar próxima a unidades hospitalares e de possuir limitações para concentração, dispersão e circulação de veículos de grande porte. Ao mesmo tempo, possui grande importância histórica e afetiva para o Carnaval de Fortaleza", complementou a nota. Por fim, a Secretaria declarou que mantém seu compromisso com a construção participativa das políticas públicas para o Carnaval de Fortaleza.

 

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