Retirada da Sagrada Família previa estrutura de apoio que não foi usada, diz ex-coordenador

Plano elaborado em 2021 previa ainda restauro e exposição da escultura.

Escrito por João Lima Neto joao.lima@svm.com.br
18 de Setembro de 2026 - 17:59 (Atualizado às 19:39)
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Legenda: Obra da Sagrada Família foi erguida com cordas por um caminhão munck.
Foto: Kid Jr/Thiago Gadelha.

Um plano elaborado desde 2021 para a retirada da escultura da Sagrada Família da fachada da antiga Escola Jesus, Maria e José, no Centro de Fortaleza, previa o uso de um caminhão munck associado a uma plataforma industrial posicionada sob a peça para sustentar a estrutura durante a descida. O procedimento tinha como objetivo evitar que a escultura permanecesse suspensa durante o içamento e reduzir os riscos de danos à obra.

A escultura acabou sendo removida da fachada nessa quinta-feira (17) e sofreu danos durante o procedimento. Imagens mostram partes da estrutura quebradas após a queda. A Prefeitura informou que a peça teve pequenas avarias.

A informação sobre o plano de manejo é do arquiteto e urbanista Diego Zaranza, ex-coordenador do Patrimônio Histórico-Cultural da Secretaria Municipal da Cultura de Fortaleza (Secultfor), que participou da elaboração do documento quando esteve à frente do setor, entre 2021 e 2023.

Segundo o ex-gestor, além dos equipamentos, havia a previsão de acompanhamento de um profissional especializado em conservação e restauro durante a retirada.

Zaranza afirma que o planejamento feito durante a gestão dele previa que a escultura fosse retirada com equipamento capaz de suportar o peso e com uma plataforma funcionando como base durante a descida. "Faltou plataforma. Era para ser um munck mesmo, não um tão pequeno como aquele. Era para ser içado daquele jeito, mas com tiras e outras armações de segurança", afirmou.

De acordo com o ex-coordenador, a peça era considerada pesada e deveria ser submetida a uma operação cuidadosa.

O que estava previsto em 2021

  • retirada da escultura com uso de caminhão munck;
  • utilização de uma plataforma industrial sob a peça durante a descida;
  • contenção e amarração da estrutura para evitar movimentações;
  • acompanhamento de profissional especializado em conservação e restauro;
  • encaminhamento da escultura para a Escola de Artes e Ofícios;
  • pesquisa sobre a obra e seus materiais;
  • execução de um processo de restauro com participação de profissionais e alunos;
  • produção de documentação sobre a intervenção;
  • exposição temporária da escultura após o restauro.

Procedimento foi 'desastroso', diz profissional da conservação 

O conservador-restaurador de bens patrimoniais móveis e integrados Antonio Vieira, professor da Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho, analisou as imagens da retirada a pedido do Diário do Nordeste. Para ele, o procedimento adotado não observou critérios técnicos de conservação e restauro compatíveis com a importância e o estado de conservação do monumento.

"O procedimento de retirada do monumento escultórico foi equivocado e desastroso", afirmou. Segundo Vieira, o estudo técnico de manejo foi apresentado em 2021 ao Conselho de Patrimônio Histórico e Cultural (CPHC) e indicava justamente o posicionamento de um caminhão munck para fazer a amarração da estrutura e de uma plataforma industrial para sustentar a escultura durante a descida.

A plataforma teria a função de impedir que a peça permanecesse "flutuando" enquanto era retirada. O cuidado era considerado importante porque o monumento é formado por diferentes elementos, alguns deles fixados à estrutura por parafusos, segundo o restaurador.

"Trata-se de um monumento estrutural de anexos, ou seja, as esculturas poderiam também se desprender, pois são fixadas com parafusos na estrutura", explicou Vieira.

Plano previa restauro e exposição da escultura

A Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho promove atividades de educação patrimonial, com foco em cursos de conservação e restauração do patrimônio cultural.
Legenda: A Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho promove atividades de educação patrimonial, com foco em cursos de conservação e restauração do patrimônio cultural.
Foto: Instituto Dragão do Mar/Divulgação.

A retirada da escultura não havia sido planejada apenas como uma etapa da obra no antigo prédio. Conforme Zaranza, a proposta elaborada durante a gestão em que ele atuava previa também o encaminhamento da peça para a Escola de Artes e Ofícios, onde seria realizado um trabalho de restauro.

A ideia era transformar a recuperação em uma atividade formativa. Alunos, professores e restauradores especializados participariam da pesquisa e da intervenção, com produção de documentação sobre o processo.

Depois de restaurada, a escultura permaneceria temporariamente disponível para visitação. A intenção era permitir que o público pudesse observar a obra de perto e conhecer a história dela.

A previsão, posteriormente, era devolver a peça à antiga Escola Jesus, Maria e José quando o restauro do imóvel estivesse próximo da conclusão. Zaranza compara a proposta ao processo realizado com a escultura La Femme Bateau, que passou por restauro antes de retornar ao espaço público.

Segundo ele, a articulação com a Escola de Artes e Ofícios chegou a ser retomada recentemente. Após tomar conhecimento da retirada da peça por matéria do Diário do Nordeste, em agosto deste ano, o ex-coordenador entrou novamente em contato com a diretora da instituição, com o objetivo de facilitar a articulação. Conforme Zaranza, ela teria confirmado a possibilidade de receber a escultura, desde que fossem resolvidas questões relacionadas aos custos e à logística.

Danos exigirão intervenção mais complexa

Escultura sofreu danos em diferentes partes com queda de transporte.
Legenda: Escultura sofreu danos em diferentes partes com queda de transporte.
Foto: Kid Jr/SVM.

Nas imagens da retirada, partes da escultura aparecem danificadas após a queda. Vieira afirma que houve danos na base, na cabeça de São José e em elementos que representam folhas de um coqueiro. "Lamentavelmente, a escultura sofreu danos severos", avaliou.

Segundo o especialista, a extensão das avarias aumenta a complexidade da intervenção que será necessária para recuperar o monumento. "Toda a estrutura deverá ser recomposta de forma estrutural", afirmou.

Secultfor é questionada

O Diário do Nordeste entrou em contato com a Secretaria Municipal da Cultura de Fortaleza (Secultfor) para questionar as informações apresentadas pelo ex-coordenador Diego Zaranza, especialmente sobre a existência do plano elaborado em 2021, os equipamentos previstos para a retirada, a não utilização da plataforma de sustentação, o acompanhamento de profissionais especializados e o destino da escultura após os danos.

Também foram solicitados esclarecimentos sobre quem será responsável pelo restauro da peça e quais critérios técnicos serão utilizados na recuperação. Até a publicação desta matéria, não houve retorno da Secultfor. O espaço permanece aberto para manifestação da secretaria.

Após a queda da escultura, a própria empresa contratada para retirar a escultura foi apontada como responsável pelo restauroSegundo a Arquidiocese de Fortaleza, a empresa se comprometeu a realizar a recuperação completa da imagem. A informação também foi confirmada pela Secretaria Municipal da Infraestrutura (Seinf), que afirmou que a Prefeitura acompanhará os trabalhos.

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