Um dos prédios históricos mais importantes do Centro de Fortaleza, a antiga Escola Jesus, Maria e José enfrenta um cenário de abandono e deterioração que ameaça também um dos elementos mais simbólicos da fachada do prédio.
A escultura da Sagrada Família — representação de figuras centrais no catolicismo — apresenta corrosão severa e corre risco de tombar devido ao comprometimento da estrutura do imóvel.
O alerta é de Antonio Vieira, professor licenciado em Artes Visuais e conservador-restaurador de bens patrimoniais móveis e integrados, que analisou, a pedido do Diário do Nordeste, imagens da peça.
Construído entre 1902 e 1905, o prédio deixou de funcionar como escola em 1920 e, ao longo das décadas, passou por diferentes usos. Atualmente, o imóvel está desativado e apresenta sinais de abandono, com vegetação tomando conta de áreas internas, paredes deterioradas e portas e janelas fechadas com tijolos.
O estado da edificação também preocupa pela possibilidade de novos danos à estrutura e aos elementos arquitetônicos.
A situação da escultura, porém, acrescenta uma urgência ao processo de preservação. Segundo Vieira, o monumento apresenta corrosão em toda a sua extensão, perda da pintura, craquelamento provocado pela oxidação e deterioração dos grampos, parafusos e porcas utilizados na sustentação da peça.
Risco iminente de obra tombar
O Diário do Nordeste fez imagens de drone da Escola Jesus, Maria e José, bem como da escultura da Sagrada Família. Na avaliação técnica do conservador-restaurador, o principal risco está na combinação entre a deterioração do metal e o comprometimento da estrutura que sustenta a escultura.
“Partindo de uma análise técnica, a partir da área da Conservação e do Restauro, observa-se que o monumento escultórico foi produzido em metal, apresentando em toda a sua extensão corrosão severa ocasionada por oxidação (ferrugem). Os quatro elementos figurativos evidenciam perdas da policromia devido às intempéries e aos desgastes naturais do tempo”, explica Antonio Vieira.
Ele também chama atenção para os elementos metálicos responsáveis pela fixação da obra. “Os grampos de sustentação são fixados em diversas partes das esculturas, onde os parafusos e porcas perdem a sua função primária devido à corrosão da matéria original do monumento, o metal”, afirma.
O especialista considera que o risco não é apenas futuro, mas está relacionado ao atual estado de conservação do conjunto.
Diante do grave estado de conservação e posicionamento do monumento escultórico, evidencia-se, num futuro próximo, um possível sinistro com relação à permanência da escultura na estrutura de alvenaria. Pois toda a estrutura de ferro embutida que sustentava a alvenaria e o suporte da fachada externa foi retirada por vândalos. Ou seja, falta muito pouco para que o monumento escultórico tombe de vez
Fachada também apresenta deterioração
O risco envolvendo a escultura está diretamente relacionado às condições da fachada da antiga escola. De acordo com Vieira, a arquitetura do prédio possui elementos decorativos que individualizam o imóvel.
“A fachada do prédio da Escola Jesus, Maria e José apresenta uma arquitetura eclética com diversos elementos figurativos que singularizam a sua arquitetura de fachada. Deve-se urgentemente tomar uma medida de estabilização estrutural e proteção de toda a parte de alvenaria no intuito de resguardar parte dos seus elementos e adornos estéticos figurativos, salvo os que ainda se encontram em bom estado de conservação”, avalia.
Apesar da situação, Vieira afirma que a escultura ainda pode ser recuperada. Segundo ele, seria necessário reunir profissionais e instituições para desenvolver um projeto específico de conservação e restauração. Ele lembra que a Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho chegou a propor uma parceria com o Município de Fortaleza para executar o trabalho.
Portas e janelas fechadas com tijolos
A situação atual do prédio também levanta questionamentos sobre intervenções realizadas para impedir novas invasões. Portas e janelas foram fechadas com tijolos, alterando elementos originais da edificação.
Yan de Abreu, um dos membros do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico-Cultural de Fortaleza (Comphic), considera que a medida representa uma descaracterização do imóvel, embora ressalte que é necessário confirmar com a Prefeitura de Fortaleza quem realizou a intervenção e em quais circunstâncias.
Segundo ele, a antiga escola já enfrentou episódios de invasão e ocupação. O imóvel chegou a abrigar famílias, situação que também contribuiu para o desgaste e tornou a proteção do prédio uma questão de segurança.
Prefeitura diz que imóvel passará por melhorias
Ao Diário do Nordeste, a Secretaria Municipal da Cultura de Fortaleza (Secultfor) informa que o imóvel da Escola Jesus, Maria e José é um bem tombado pelo Município e, nesse contexto, acompanha as ações voltadas à preservação do patrimônio.
Segundo a Pasta, já estão previstas melhorias e limpeza no imóvel, com o objetivo de contribuir para a conservação do espaço e sua posterior devolução à Arquidiocese de Fortaleza.
Ainda foi constituído um Grupo de Trabalho (GT) entre a Prefeitura e a Arquidiocese, no qual o Município se compromete a auxiliar a instituição religiosa na aquisição de recursos para futuras melhorias no espaço.
A reportagem questionou à Prefeitura sobre a possibilidade de retirada emergencial da escultura da Sagrada Família, diante do risco apontado por especialista de que a estrutura tombe. O Município não respondeu ao questionamento.
Grupo de Trabalho tem 120 dias para apresentar plano
A edificação é de propriedade da Mitra Arquidiocesana de Fortaleza, mas está sob posse direta do Município por meio de um contrato de comodato firmado em 2007, pelo qual a Prefeitura assumiu o encargo de conservação, restauração e manutenção do imóvel.
Entre as atribuições estabelecidas para o Grupo de Trabalho por meio de portaria, estão:
- realizar estudos, vistorias, diagnósticos e avaliações das condições atuais do imóvel;
- estudar e propor uma destinação de uso e finalidade definitiva para a edificação, compatível com a preservação;
- buscar e propor dotações orçamentárias e fontes de recursos para a restauração;
- elaborar um plano de ação para restauração, conservação e preservação do prédio.
A portaria estabelece prazo de 120 dias, contados a partir da publicação em 12 de junho, para que o Grupo apresente um relatório analítico final e propostas técnicas.
Conselheiro vai comunicar Comphic sobre risco da escultura
A situação da Escola Jesus, Maria e José é recorrente nas reuniões do Comphic, mas a situação da escultura da Sagrada Família não havia sido discutida especificamente em encontros do grupo, segundo informou Yan de Abreu.
Após tomar conhecimento do estado da peça, porém, o conselheiro afirmou que pretende comunicar o grupo e cobrar uma medida emergencial, como a retirada preventiva diante do risco de perda da peça. “Nós não podemos também ficar ali sem dar resposta a essa solicitação da sociedade civil”, afirma.
Ministério Público cobra preservação
A deterioração da antiga escola ocorre enquanto o Ministério Público do Ceará cobra judicialmente medidas para a preservação do imóvel. A 133ª Promotoria de Justiça de Fortaleza informou que aguarda manifestação do Poder Judiciário sobre pedidos apresentados em julho.
Entre as medidas requeridas, está a execução de R$ 22.925.442,09 em multas aplicadas ao Município de Fortaleza pelo descumprimento reiterado de decisão judicial que determinou a recuperação e o restauro da edificação.
A medida ainda obriga que a Prefeitura comprove a adoção de medidas emergenciais, incluindo vigilância patrimonial, inspeção técnica especializada, ações de estabilização da estrutura e apresentação dos estudos e documentos relacionados ao processo de recuperação da antiga escola.
A eventual execução das multas, segundo o MP, não afasta a obrigação de restaurar e preservar a edificação, conforme já determinado pela Justiça.
Prédio tem mais de 120 anos de história
A antiga Escola Jesus, Maria e José começou a ser construída em 1902 e foi concluída em 1905. A instituição funcionou como escola até 1920 e, posteriormente, passou por outras utilizações, incluindo a função de cinema paroquial entre 1920 e 1940, além de outros usos ligados à Igreja do Pequeno Grande e ao contexto do Imaculado Coração de Maria.
A história do prédio, porém, está diretamente relacionada ao contexto social de Fortaleza no início do século XX. Segundo Yan de Abreu, a escola surgiu em um período marcado pela chegada de pessoas atingidas pelas secas à Capital e pela ausência de políticas públicas suficientes para atender populações em situação de vulnerabilidade.
“A escola surge para acolher as crianças necessitadas, que viviam na rua, que não tinham acesso à educação", explica Yan.
De acordo com o conselheiro, a instituição também está inserida na história do assistencialismo promovido por organizações ligadas à Igreja Católica e pela Sociedade Vicentina. Essa dimensão social, segundo ele, amplia a importância histórica do imóvel para além de suas características arquitetônicas.