Famílias que disseram sim à doação de órgãos se reencontram em Fortaleza

Realizado pelo IJF, evento reuniu pessoas que autorizaram a doação de órgãos de familiares e pacientes que tiveram a vida transformada pelo transplante.

Escrito por Ana Alice Freire* ana.freire@svm.com.br
25 de Setembro de 2026 - 19:31 (Atualizado às 19:35)
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Legenda: O casal tem planos de retornar à Brasília após a conclusão do tratamento.
Foto: Fabiane de Paula.

“A gente nunca tá preparado”. A frase, dita com a voz embargada e pausada, resume a dor que Antônio Marcelo Gomes, de 54 anos, ainda carrega desde a morte da filha Maria Teresa, aos 23 anos, no fim de julho do ano passado. Metalúrgico e morador de Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza, ele relembra a interrupção precoce da vida da jovem, mas também encontra na decisão dela de ser uma doadora de órgãos, uma forma de manter parte da história da filha viva.

A história de Antônio faz parte das dezenas de experiências compartilhadas nesta sexta-feira (25), durante o 14º Encontro das Famílias Doadoras, realizado pelo Instituto Dr. José Frota (IJF) em Fortaleza. A atividade fez parte da programação do Setembro Verde, campanha de conscientização e incentivo à doação de órgãos.

Cerca de 60 famílias que autorizaram a doação de órgãos e tecidos participam do encontro, ao lado de pessoas transplantadas, profissionais de saúde e integrantes da rede de transplantes.

O momento é dedicado ao acolhimento, à homenagem e à troca de experiências entre quem viveu diferentes lados do processo. De um lado, estão famílias que precisaram tomar uma decisão em meio ao luto. Do outro, pessoas que tiveram a oportunidade de continuar vivendo após receber um órgão.

Em entrevista ao Diário do Nordeste, Antônio Marcelo lembrou que, no dia seguinte à confirmação da morte encefálica da filha, a família autorizou a doação dos órgãos. A decisão estava de acordo com um desejo que Teresa já havia manifestado em vida.

“Ela viu uma reportagem e chorou, porque ela tinha visto que é um grande número de pessoas que esperam na fila do transplante. E as pessoas que não são doadoras não sabem que é uma boa ação. Não custa nada. A gente tá indo, o corpo é uma matéria e o que importa é o espírito”, conta Antônio.

Após a filha doar as córneas e os rins, Marcelo e a esposa tornaram-se doadores de órgãos.
Legenda: Após a filha doar as córneas e os rins, Marcelo e a esposa tornaram-se doadores de órgãos.
Foto: Fabiane de Paula.

A família de Teresa doou os rins e as córneas dela. Para o pai, além de saber que a filha ajudou outras pessoas, existe uma dimensão ainda mais simbólica no gesto: a possibilidade de que parte dela continue proporcionando vida. “É saber que tem uma pessoa que tá levando a vida da nossa filha. Os olhos enxergam através dos olhos da Teresa. É maravilhoso demais”, diz.

O assunto tema da série de reportagens multimídia “EntreLaçados, a rede que move transplantes no Ceará”, publicada neste mês no Diário do Nordeste e que conta histórias de transplantados e doadores, assim como de profissionais que integram esse sistema. Além disso, revela os bastidores de um processo que une pessoas por meio de ciência e solidariedade.

Assista ao documentário Entrelaçados

Captação de órgãos

O IJF é responsável por cerca de 30% das captações de órgãos realizadas no Ceará. De janeiro a julho de 2026, o hospital contabilizou 118 doadores de órgãos e tecidos. Desse total, 47 foram doadores de múltiplos órgãos e 69 de córneas.

82%
Percentual de autorização de doação de órgãos do IJF

Por trás desses números está o trabalho da Equipe Hospitalar de Doação para Transplantes (e-DOT), formada por 19 profissionais de saúde, entre enfermeiros, técnicos e médicos. O grupo atua 24 horas por dia no acompanhamento dos potenciais doadores e no acolhimento dos familiares.

Para Aline Almeida, coordenadora da e-DOT, a preparação dos profissionais para lidar com situações de perda é uma das partes fundamentais do processo. A equipe recebe treinamentos em comunicação em situações críticas, comunicação de notícias difíceis, acolhimento familiar e luto. O acompanhamento começa ainda na abertura do protocolo de morte encefálica, antes mesmo de a família ser convidada a decidir sobre a doação.

“Isso faz com que a gente consiga acolher essa família de uma maneira efetiva, atender suas necessidades. E o fato também de a gente acolher desde o início do processo, desde a abertura do protocolo de morte encefálica, a gente já faz esse acompanhamento, já tenta esclarecer as dúvidas”
Aline Almeida
Enfermeira

Segundo ela, não existe um tempo único para que uma família consiga compreender o que está acontecendo e tomar uma decisão. “A gente tenta respeitar o tempo de cada família, e cada família muitas vezes tem um tempo diferente. Então a gente tenta estar próximo para ajudar nas necessidades, para esclarecer as dúvidas e tenta dar um tempo que essa família necessita”, pontua.

No Brasil, a autorização familiar é indispensável para a doação de órgãos e tecidos após a morte. Mesmo que a pessoa tenha manifestado em vida o desejo de ser doadora, os familiares precisam autorizar o procedimento. Por isso, a orientação é que o assunto seja conversado ainda em vida, para que a família conheça a vontade da pessoa e possa considerá-la no momento da decisão.

Após a autorização e a conclusão dos procedimentos necessários, os órgãos e tecidos seguem os fluxos estabelecidos pelo Sistema Nacional de Transplantes (SNT) e podem beneficiar pacientes em diferentes regiões do País.

“Transplante não é uma cirurgia com data marcada"

Entre as pessoas que participaram do encontro também estava o advogado Altair Almeida, de 66 anos. A história dele começou em 2018, quando foi diagnosticado com fibrose pulmonar. Na época, ele morava em Brasília e os médicos não conseguiram identificar a causa da doença.

Durante alguns anos, Altair conseguiu conviver com a condição sem grandes restrições. A partir de 2023, porém, o quadro começou a piorar e ele passou a precisar de oxigênio para respirar. Em 2024, recebeu dos médicos a informação de que o transplante era a única alternativa. Para entrar na lista, Altair e a esposa, Francis Almeida, mudaram a residência de Brasília para Fortaleza em junho de 2024. No mês seguinte, ele foi oficialmente incluído na fila.

Encontro acontece anualmente e faz parte da programação da campanha de conscientização da doação de órgãos.
Legenda: Encontro acontece anualmente e faz parte da programação da campanha de conscientização da doação de órgãos.
Foto: Fabiane de Paula.

“A cada dia ele piorava. Nos últimos dias, antes do transplante, ele já não conseguia mais sair da sala para a cozinha. Mesmo com oxigênio, a saturação dele caía para menos de 80”, lembra Francis.

A espera também era marcada pela incerteza. Altair chegou a ser chamado dez vezes para realizar o procedimento, mas, por diferentes motivos, o transplante não pôde ser realizado. “Transplante realmente não é uma cirurgia com data marcada. Você tem que ficar aguardando. Eu fui chamado dez vezes e não consegui fazer o transplante”, conta.

A espera terminou em março de 2025, quando veio o 11º chamado. Desta vez, o pulmão era adequado, a família doadora autorizou a retirada e o procedimento pôde ser realizado. Foram sete horas de cirurgia, sete dias na UTI e outros 15 no hospital.

Hoje, segundo Francis, o marido leva uma vida próximo da normalidade, embora siga os cuidados necessários para pessoas transplantadas, incluindo o uso de medicamentos imunossupressores.

Para o casal, a experiência também transformou o significado de uma palavra que, até então, estava distante da própria realidade: doação.

“Salvou. E por isso a importância desse evento de agradecer às famílias que dizem sim. A gente nunca conheceu o nosso doador, mas a gente é muito grato pela família. E que outras famílias realmente possam também dizer sim, para que outras pessoas possam viver como eu consegui viver”, afirma Francis.

*Estagiária sob supervisão da jornalista Dahiana Araújo. 

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