Antes dos 30 anos de idade, o comerciante potiguar Braz Marinho Neto já enfrentava uma rotina intensa de exames e consultas, ainda na década de 1970. Sentia fraqueza, enjoos e perda de força, sem saber a causa. Morador de Apodi, no interior do Rio Grande do Norte, buscou atendimento em Mossoró (RN) e, de lá, precisou migrar para o Ceará.
Em Fortaleza, a 313 km de casa, ele não só encontrou estrutura para tentar entender a própria enfermidade, como acabou entrando para a história. No dia 1º de setembro de 1977, há exatos 49 anos, Braz foi o primeiro paciente a receber um transplante de órgão no Ceará, em uma cirurgia pioneira que ocorreu graças à doação de um rim feita pela irmã mais velha, hoje com 90 anos de idade.
Era 1º de setembro daquele ano quando uma turma de profissionais da saúde começou, por volta das 14h, a realizar o procedimento inédito no Estado que terminaria às 21h, conforme registraram os jornais da época.
A cirurgia entre doadores vivos - que continua sendo aceita no modelo de transplantes no Brasil - ocorreu em uma sala que hoje já não é mais utilizada para esse tipo de procedimento, no chamado Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Ceará (UFC), hoje Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC), no bairro Rodolfo Teófilo.
Aquele feito, no qual Braz recebeu um rim da irmã mais velha, a também potiguar Sebastiana Marinho Torres, foi precursor no Norte e Nordeste e abriu caminho para a consolidação da rede de transplantes do Ceará, hoje reconhecida como uma das referências nacionais na área.
Na época, outros Estados brasileiros já realizavam esse tipo de procedimento. O primeiro transplante de rim entre doadores vivos no país havia sido feito em abril de 1964, no Hospital dos Servidores do Estado (HSE), no Rio de Janeiro.
No procedimento no Ceará, o receptor potiguar havia viajado para Fortaleza, junto à esposa Aldeniza de Lima, em busca de tratamento dois anos antes da cirurgia. Braz tinha insuficiência renal crônica, mas até chegar à capital, não sabia exatamente qual o diagnóstico, contou ao Diário do Nordeste o filho do comerciante, Carlos Geniesson. Na época, Carlos, junto aos irmãos ainda crianças, ficou em Apodi sob os cuidados da tia, que foi a doadora do pai anos depois.
O procedimento foi realizado por uma equipe que tinha dentre outros profissionais os médicos Antônio Lacerda Machado e Roberto Barreto Marques, referências na área de tratamento e transplante renal. Àquela altura, a cirurgia foi feita de forma ousada e com bastante entusiasmo por jovens profissionais, relatou ao Diário do Nordeste Roberto Barreto Marques, nefrologista, hoje com 79 anos e professor aposentado da UFC.
O Diário do Nordeste inicia neste mês a série de reportagens multimídia “EntreLaçados, a rede que move transplantes no Ceará” e revela bastidores de um processo que, guiado pela ciência, entrelaça para sempre pessoas, profissionais e sensações como esperança, solidariedade, luto, dor, amor e vitória. Além de reportagens no site, o especial traz um minidocumentário focado no tempo e no processo das esperas por transplante, publicações nas redes sociais, episódios de podcast e uma newsletter.
Solidariedade de Sebastiana serviu a Braz e à ciência
A vontade e disposição dos profissionais alavancou o processo, mas foi a coragem de Sebastiana Marinho Torres que garantiu a efetivação do passo pioneiro. Quase 50 anos depois da doação, ela, hoje com 90 anos, recebeu a equipe do Diário do Nordeste em casa, na cidade de Apodi. A idade avançada não permitiu a realização de uma entrevista extensa com a idosa, nem ouvir da própria as recordações daquele período, mas a memória desse marco passa de geração em geração na família potiguar.
A filha de Sebastiana e sobrinha de Braz, Ângela Maria Torres Silva, relembra que era criança quando a mãe viajou para Fortaleza para realizar a cirurgia. Anos mais tarde, afirma ela, é que acredita ter compreendido a dimensão daquela decisão.
“A gente era muito criança. Quando ela saiu pra fazer a cirurgia, a gente ficou despreocupada porque a gente não entendia muito, né? Quando foi mais ou menos uns dois meses, foi que ela retornou pra cá. Quando ela chegou, a gente fazia só perguntas: 'O que é isso, mamãe?”.
Quando questionada sobre o porquê de ter aceito fazer a cirurgia, Ângela diz que Sebastiana sempre remetia ao forte vínculo entre os dois. “Quando meu tio perguntou se ela teria coragem de ser a doadora, ela disse: tenho. Tem mesmo? Ela falou: Tenho, vamos fazer os exames. Foram e ela fez. Ela deu. Deu com todo o gosto do mundo”, destaca a filha.
A disposição para ajudar o irmão fazia parte da história da família, relata Ângela. Sebastiana era a irmã mais velha e havia ficado viúva aos 37 anos, quando precisou criar sozinha os seis filhos. Nesse contexto, Ângela lembra que Braz era uma figura muito querida entre os parentes e que o carinho entre os irmãos era evidente: "Ele era um tio maravilhoso, maravilhoso mesmo. Eles eram muito amigos, ela queria muito bem a ele”.
Mesmo depois da mudança para Fortaleza, os laços permanecem fortes, acrescenta ela: “até hoje a família lá de Fortaleza só vem para minha casa porque ele deixou esse legado. Se tiver alguma coisa lá acontecendo, a gente tá aqui sofrendo. Se aqui tiver, lá tá sofrendo também. Se estiver alegre lá, a gente tá alegre aqui. É uma história muito bonita”.
Aos 90 anos, Sebastiana “nunca apresentou complicações relacionadas à doação do rim”, segundo a filha.
Como foi o primeiro transplante de órgãos no Ceará?
Quando o transplante aconteceu, Braz tinha 33 anos e a irmã 42, conforme os registros da época. Segundo relembrou o médico Roberto Barreto Marques, em entrevista ao Diário do Nordeste, 49 anos após a cirurgia, Braz enfrentava o desgaste físico provocado pela insuficiência renal e pela necessidade de sessões frequentes de hemodiálise. Embora a irmã não apresentasse compatibilidade total, ela era considerada uma doadora viável dentro dos critérios da época.
“Ele era um paciente nosso e que sofria muito com a diálise. Surgiu a irmã dele, que por sinal ela não era HLA idêntica (referência ao Antígeno Leucocitário Humano que é crucial para o sucesso de transplantes). Ela era semi-idêntica. Entrava naquele caso em que o resultado não é tão bom a longo prazo”.
Os irmãos permaneceram internados por alguns dias no Hospital após o transplante, onde a possível rejeição ao órgão era monitorada. O procedimento foi considerado exitoso para a época e, segundo Roberto, naquele período, a sobrevida dos transplantes entre irmãos com compatibilidade total chegava perto de 100%.
Com a evolução dos medicamentos, a rejeição passou a ser cada vez menos frequente, acrescenta ele: “o paciente hoje dificilmente perde um rim por rejeição, porque já existe muita droga bastante eficiente para isso”.
Após o transplante, Braz trouxe os filhos para Fortaleza, onde passou a morar definitivamente e refez a vida, tendo residido em bairros próximos ao Hospital Universitário, já que passou a ser acompanhado permanentemente no local. Depois de receber o rim da irmã, viveu por 16 anos, tendo falecido em 1993, segundo o filho Carlos Geniesson, que segue morando na capital cearense.
Antes da realização do primeiro transplante, esse grupo de profissionais buscava estruturar o Hospital Universitário para avançar no tratamento renal. Primeiro veio a implantação do primeiro centro de hemodiálise e o compartilhamento de informações entre pesquisadores e cirurgiões que já estudavam transplantes experimentais.
“Basicamente, havia uma equipe que era comandada pelo doutor Lacerda Machado, professor de cirurgia da universidade, que fazia pesquisa já em transplante animal. Quando eu voltei do Rio de Janeiro, eu tinha trabalhado durante dois anos lá na equipe de transplante do Hospital do Servidor do Estado (onde foi feito o primeiro transplante do Brasil). Então a gente juntou forças aí, o grupo de cirurgia, e começamos a trabalhar na possibilidade de fazer transplante aqui”.
Segundo ele, a primeira missão foi preparar os pacientes com insuficiência renal crônica. “Inicialmente, foi feito um centro de hemodiálise. O Hospital Universitário não tinha hemodiálise na época, que seria para preparar os pacientes portadores de insuficiência renal crônica.” Profissionais como a imunologista Zélia Petrolla e cirurgiões como João Martins e João Evangelista se juntaram ao processo.
No final da década de 1970, após a cirurgia pioneira, o Centro de Pesquisas Hepato-Renais do Hospital das Clínicas, indicam publicações de jornais do período, anunciou a intenção de realizar novos transplantes e 25 pacientes já estavam cadastrados na unidade para passar pelo procedimento.
Qual o cenário de transplantes de órgãos naquele momento
Naquele período, conforme o médico Roberto Barreto Marques, o transplante dependia quase exclusivamente da doação entre familiares vivos devido à maior possibilidade de compatibilidade imunológica. Essa estratégia buscava reduzir o risco de rejeição em uma época em que os imunossupressores ainda eram bastante limitados.
“A ideia no início era fazer transplante intervivos. O melhor doador seria aquele irmão que fosse HLA idêntico, tivesse os antígenos semelhantes, exatamente iguais”, explica o médico. E acrescenta que eram realizados exames imunológicos e a prova cruzada para verificar se o receptor possuía anticorpos contra o doador.
“Era feita a seleção do doador e após isso se programava a cirurgia com os anestesistas, com os cirurgiões e tudo mais. Então o rim era retirado do doador e colocado no receptor. Era feita a imunossupressão, que na época era mais simples do que hoje”.
O nefrologista esteve à frente de diversas etapas do tratamento de Braz, desde a preparação clínica até o acompanhamento ambulatorial após a cirurgia. Ele relembra que os pacientes precisavam passar por uma investigação rigorosa para eliminar qualquer infecção que pudesse se agravar após o início da imunossupressão.
Na véspera da cirurgia, o paciente era submetido à hemodiálise para chegar em melhores condições metabólicas ao procedimento. Depois do transplante, o acompanhamento seguia diariamente durante a internação, que costumava durar entre sete e dez dias, e depois seguia no ambulatório. “O nefrologista era basicamente quem carregava o piano”, ressalta.
Caso surgissem sinais como febre ou diminuição da produção de urina, a equipe investigava uma possível rejeição e intensificava o tratamento com corticoides.
Conforme registros da imprensa da época, a equipe era composta por:
Médicos
- Geraldo Wilson Gonçalves (diretor do Centro de Ciências e Saúde)
- Antônio Lacerda Machado (coordenador do Transplante)
- Roberto Barreto Marques (nefrologista, coordenador da parte clínica)
- João Evangelista Bezerra Filho
- Antônio Borges Campos
- Emanuel de Carvalho Melo
- João Martins de Sousa Torres
Médicas anestesistas
- Maria Gonzaga Pinheiro
- Maria Celeste Nascimento
Estudantes (na época)
- Alison Gurgel
- Sérgio Juaçaba
- Vanda Bezerra
- Paulo Rossas
Nesse início, apesar dos êxitos das cirurgias, o médico Roberto afirma que os primeiros anos foram marcados por dificuldades estruturais e financeiras. Segundo ele, não havia ainda um apoio formal e estruturado dos governos, e os recursos obtidos com o serviço de hemodiálise eram reinvestidos para manter o programa de transplantes.
Com o passar dos anos, segundo ele, a criação de um programa chamado Nordeste Transplante fortaleceu a troca de órgãos entre Ceará, Pernambuco e Piauí, permitindo o crescimento dos procedimentos com doadores falecidos. Depois, a Secretaria Estadual da Saúde (Sesa) estruturou a rede e implantou equipes de busca de doadores. No Ceará, a Central Estadual de Transplantes, vinculada à Sesa, foi criada oficialmente em 1998.
Para Roberto, o sistema atual é resultado daquele esforço pioneiro. ”Começou com muita dificuldade e a coisa evoluiu”, reitera. Hoje, o Hospital Universitário já ultrapassou a marca de dois mil transplantes renais realizados e ajudou a formar equipes que expandiram a atividade para procedimentos ainda mais complexos, como o transplante de fígado.
Filho também teve necessidade de doação e passou por dois transplantes
Na família de Braz, quase 50 anos depois de o pai entrar para a história como o primeiro transplantado de órgãos do Ceará, o filho, Carlos Geniesson carrega no próprio corpo a continuidade da trajetória. Em 1997, quatro anos após a morte do pai, Geniesson descobriu que também tinha doença renal policística e precisaria iniciar hemodiálise. Anos depois, passou por dois transplantes.
Em entrevista ao Diário do Nordeste, em um dia de consulta em julho no mesmo Hospital onde o pai foi transplantado e ele também, recordou que Braz era “um cara aguerrido, queria viver e se agarrou nesse transplante. A esperança de ter uma vida melhor. Assim como é o meu caso, sou transplantado, e a gente faz o transplante para ter uma vida melhor”.
Em março de 1999, fez o primeiro transplante. Após 15 anos da primeira cirurgia, ele precisou voltar temporariamente à hemodiálise e, seis meses depois, realizou um segundo transplante. Casado e pai de uma filha de 19 anos, Geniesson diz que a família foi a maior motivação para enfrentar novamente a doença.
Hoje, ele segue uma rotina de consultas e medicamentos, mas afirma viver sem grandes limitações. “Vivo o dia de hoje, sem pensar no amanhã. Amanhã pertence a Deus, então eu vivo um dia depois do outro”.
E completa sobre a relevância da doação: “pode ter certeza, aonde você está fazendo isso, alguém está sendo beneficiado e essa pessoa que está sendo beneficiada vai estar muito contente por ter sido agraciada com esse órgão. Queira ou não queira, um pedaço dessa pessoa que vai ser doada vai estar vivo ainda, vai estar dando alegria a alguém”.
Hospital é referência em transplantes
A unidade onde foi realizado o primeiro transplante do Ceará se consolidou como referência na área. Hoje, o HUWC faz transplante de rim, fígado, medula óssea, pâncreas e córneas. Segundo a coordenadora da enfermaria de transplantes da unidade, a médica nefrologista Cláudia Maria Costa de Oliveira, são feitos, em média, de 80 a 100 transplantes por ano no local.
O serviço, explica ela, acompanha pacientes encaminhados por clínicas de diálise para o preparo pré-transplante, além de pessoas em tratamento conservador nos ambulatórios de nefrologia e de outras especialidades. Ao todo, o hospital conta com 10 ambulatórios voltados ao pré-transplante e tem cerca de 700 pacientes na lista de espera. Cláudia ressalta que a preparação para o transplante exige uma série de procedimentos.
“É preciso realizar vários exames laboratoriais de imagem, além de pareceres de especialistas e da avaliação completa da parte imunológica que é realizada no laboratório de histocompatibilidade, para traçar o HLA e o painel de reatividade de anticorpos do doador, para determinar a melhor aceitação".
Em Fortaleza, aponta, os pacientes costumam ingressar na lista de espera entre três e seis meses após o início da preparação, enquanto os moradores do interior enfrentam um processo mais demorado. A meta do serviço é concluir esse preparo entre nove e 12 meses.
Ainda conforme Cláudia, cerca de 90% dos transplantes realizados no HUWC utilizam órgãos de doadores falecidos, e o tempo médio de espera por um rim é de dois anos. Ela ressalta que reduzir esse intervalo é fundamental para melhorar os resultados clínicos: “após 6 meses de diálise, a cada ano essa mortalidade aumenta e os resultados são piores. O objetivo é preparar cedo e transplantar cedo”.
Outra médica nefrologista que também atua no HUWC, como chefe da Unidade do Sistema Urinário do Hospital, Paula Frassinetti Castelo Branco, ressalta que o pioneirismo dos profissionais na década de 1970 foi determinante para transformar o Estado em uma referência nacional na área.
Segundo ela, o avanço não ocorreu apenas entre os médicos, mas envolveu a formação de equipes multidisciplinares e uma forte ligação com a Universidade Federal do Ceará (UFC), responsável por preparar gerações de especialistas que hoje atuam em diferentes regiões do País.
“Com relação ao histórico, como iniciou a questão dos transplantes, nós temos um grande legado deixado por esses pioneiros, porque eles tiveram a coragem de enfrentar esse desafio. E o Ceará se tornou um centro de referência, porque o transplante é uma medicina, uma ciência de ponta”.
A pesquisa tem avançado, mas ainda são muitos os desafios relacionados ao financiamento científico, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, pondera ela. Um dos recursos que têm ajudado é o financiamento de projetos via editais de incentivo à produção científica.
Entre os avanços tecnológicos incorporados ao programa cearense de transplantes, Paula destaca a estrutura laboratorial e os equipamentos disponíveis no Estado.
“O Ceará tem uma soroteca, nós guardamos o soro desses pacientes para fazer os testes imunogenéticos. Nós temos, em cooperação com o laboratório de imunogenética, o Centro de Pesquisas em Doenças Hepatorrenais do Ceará. Eles estão cada vez mais avançando nessa área dos testes imunológicos”, reforça.
Créditos
Thatiany Nascimento, Repórter | Ismael Soares, Produtor Audiovisual | Jemmyle Cunha, Lincoln Souza e Louise Dutra, Equipe de Arte | Dahiana Araújo e Nícolas Paulino, Editores de DN Ceará | Karine Zaranza, Coordenadora de Jornalismo | G. André Melo, Gerente de Audiovisual | Ívila Bessa, Gerente de Jornalismo | Gustavo Bortoli, Diretor de Jornalismo