‘Crânio apertando meu cérebro’: como é viver com crises de enxaqueca que mudam a rotina

De origem principalmente genética, a doença neurológica pode ser desencadeada por sons e cheiros.

Escrito por Clarice Nascimento clarice.nascimento@svm.com.br
20 de Setembro de 2026 - 08:00
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Legenda: Em 10 anos, a enxaqueca e outras síndromes de cefaleia levaram a mais de 9 mil registros de internação no Ceará.
Foto: Shutterstock.

Pode parecer que é uma simples dor de cabeça, uma desculpa para faltar um compromisso. No entanto, a enxaqueca é uma dor incapacitante que paralisa rotinas e afeta a capacidade produtiva e social de milhares de cearenses. Além da cefaleia, ela aparece junto de sintomas como náuseas, vômitos e sensibilidade à luz, a cheiros e ao som. 

Doença neurológica, a enxaqueca é caracterizada por uma dor pulsante, de intensidade moderada a forte, que dura de quatro horas a três dias. “É uma dor de cabeça que, por si só, é a própria causa do evento e o próprio diagnóstico do problema, não sendo secundária a outra doença”, explica o médico neurologista Rui Kleber Martins Filho. 

O especialista esclarece que a enxaqueca tem um componente genético, familiar e hereditário preponderante. O indivíduo já nasce com essa predisposição biológica para ter crises”, situa. Por isso, a doença pode se manifestar ainda na fase infantil, permeando toda a vida. 

O diagnóstico da doença é clínico, ou seja, não depende da realização de testes ou exames. A anamnese com o paciente é fundamental para descrever a dor, a frequência, a localização e a duração dos episódios, e a presença de fatores que ativam uma crise de enxaqueca. Os procedimentos médicos de avaliação são aplicados somente para descartar outras condições médicas que possam causar os sintomas. 

‘Enxaqueca é uma condição complexa’

A professora e coordenadora escolar Fernanda Maciel, de 48 anos, relembra que a primeira crise de enxaqueca consciente ocorreu aos 10 anos de idade, em plena sala de aula. “Eu tive queda de pressão, fiquei suando frio, mas, nos anos 1980, os professores não davam tanta atenção ao que o aluno falava”, recorda. 

Ao longo da vida, as dores foram tomando novas formas e persistindo por mais tempo. Outra crise marcante aconteceu aos 14 anos, quando os episódios de dor perduraram por três dias seguidos. A enxaqueca, inclusive, passou a se manifestar no período menstrual e só foi controlada após o uso de anticoncepcionais

“Tomei durante toda a adolescência até parar para engravidar. Nos três primeiros meses da minha gravidez, senti muita dor de cabeça e não era liberado tomar remédios porque era de risco”, diz. 

Atualmente, é a rotina da professora que mais gera gatilhos para o surgimento das crises. O ambiente escolar repleto de barulho e com forte estresse emocional são facilitadores de episódios de enxaqueca. 

“Parece que o crânio está apertando meu cérebro, é a sensação que eu tenho. Minhas têmporas ficam muito quentes, parece como se tivesse com ferro, sabe? Às vezes, tenho uma queda de pressão quando está muito forte. É horrível”, relata.

Nessas condições, a professora experimenta ânsias de vômito e uma sensibilidade extrema à luz que a força a se isolar em um quarto totalmente escuro e silencioso. (Imagem ilustrativa)
Legenda: Nessas condições, a professora experimenta ânsias de vômito e uma sensibilidade extrema à luz que a força a se isolar em um quarto totalmente escuro e silencioso. (Imagem ilustrativa)
Foto: Tunatura/Shutterstock.

Por conta desses sintomas debilitantes, a professora procurou atendimento médico e descobriu a enxaqueca crônica, ou seja, a condição deixou de ser episódica e se tornou persistente.

O neurologista Rui Kleber alerta que “quanto mais se demora para reconhecer a doença, o tratamento se tarda e mais complicações surgem no dia a dia”. “Muitas vezes os pacientes chegam achando que é um problema relacionado à visão, que não tá enxergando bem, aí vai no oftalmologista, ou então fica tomando medicações analgésicas por muito tempo sem procurar um especialista para fazer um tratamento preventivo e reconhecer aquele tipo de dor antes”, afirma.

Costumeiramente, a dor também é associada ao estresse e à ansiedade. “Tudo que a gente já sabe é que a enxaqueca é uma condição mais complexa do que isso e que precisa de acompanhamento e tratamento adequados”, completa Rui. 

“Você vê que realmente atrapalha muito a nossa rotina. É uma dor que você não tem controle, é uma dor que não tem data, não tem hora para chegar, não tem um motivo específico”
Fernanda Maciel
48, professora e coordenadora escolar

‘Pode ser que ela dure uma semana ou um mês’

Jaryson Allan Souza, de 29 anos, já enfrentou quase três meses de dor intensa todos os dias. Ainda na infância, o engenheiro químico iniciou um tratamento após consulta com um neurologista no Hospital Infantil Albert Sabin (Hias). “A enxaqueca foi aumentando de intensidade quando cheguei na faculdade, e eu associo isso aos níveis de estresse e de responsabilidades da vida, que foram crescendo”, diz. 

As dores de cabeça começaram a ficar mais frequentes, “latejantes, pulsantes” e contínuas. “Eu estava sentindo todos os dias de forma constante, então, precisei entrar em um tratamento mais assertivo para a dor”, afirma. 

O segundo tratamento foi iniciado em 2022 com o medicamento usado principalmente para prevenir crises de enxaqueca. “Tomei ele por 60 dias e passou a dor, mas poucos meses depois, ela voltou e precisei retomar a medicação. Só que ele sozinho foi mais eficiente”, relata. 

Hoje, Jaryson ainda utiliza o remédio em paralelo com a outra droga— antidepressivo da classe dos inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (ISRSN) indicado para o tratamento da depressão e de transtornos de ansiedade. 

“Quando eu tenho uma crise, ela não tem ali um período de tempo certo que eu vou conseguir controlar. Pode ser que ela dure uma semana ou um mês. Já tive ali episódios que foram quase três (meses) mesmo, sentindo dor diariamente.”
Jaryson Allan Souza,
29, engenheiro químico

Tratamentos medicamentosos

A dipirona, o paracetamol e outros analgésicos comuns e anti-inflamatórios são comumente utilizados como automedicação em uma busca imediatista por alívio da dor. No entanto, existe um perigo pouco conhecido chamado de “cefaleia de rebote”. 

Conforme o neurologista Rui Kleber, ela pode acontecer naqueles pacientes que possuem alta frequência de episódios incapacitantes e que acabam fazendo uso abusivo dessas medicações. São crises que podem se tornar crônicas e o paciente começa a não responder mais ao tratamento analgésico habitual. 

“Isso torna o tratamento mais difícil e ainda transforma a vida do paciente mais complicada, porque ele não sabe mais a quem recorrer quando aqueles medicamentos não estão mais resolvendo”, situa. 

A fisioterapeuta Maíra Viana alerta também que a quantidade excessiva de analgésicos e anti-inflamatórios sobrecarrega o sistema nervoso. Nas pessoas com enxaqueca, essa parte do organismo processa e regula os estímulos ambientais com um limiar de sensibilidade mais baixo. 

O sucesso no controle da doença consiste, então, na mudança de hábitos e no tratamento para que as crises se tornem mais raras, curtas e suaves. Recentemente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o registro de dois medicamentos para o tratamento da enxaqueca: o Nurtec ODT, da Pfizer, e Aquipta, da AbbVie

Ambos possuem princípios ativos da classe “gepants”, medicamentos que bloqueiam o receptor do peptídeo relacionado ao gene da calcitonina, conhecido pela sigla CGRP. Essa substância está ligada à transmissão da dor e à inflamação decorrente no momento das crises.

Dissolúvel na boca, o Nurtec ODT foi desenvolvido especificamente para tratamento agudo e preventivo da doença, sendo aprovado em maio de 2025. O Aquipta, aprovado na última terça (8), também serve como tratamento agudo e profilaxia da enxaqueca em adultos que apresentam pelo menos 4 dias de enxaqueca por mês, conforme o site da farmacêutica. 

Ainda não há informações sobre preço e quando chegarão às farmácias brasileiras. Vale destacar que o registro da Anvisa não significa oferta imediata no Sistema Único de Saúde (SUS). 

Tratamento multidisciplinar para a dor

Além das medicações, o paciente com enxaqueca pode buscar na multidisciplinaridade uma forma de reduzir as crises. Na fisioterapia, por exemplo, as técnicas manuais de liberação da musculatura cervical e das têmporas tensionadas podem aliviar as dores. 

Outra alternativa fisioterápica é a estimulação do nervo trigêmeo, tratamento não invasivo que aplica correntes elétricas de baixa voltagem na pele da face. Como explica Viana, o tratamento atua na modulação da dor, oferecendo protocolos específicos para encerrar uma crise em andamento ou para controlar preventivamente. 

A atividade física regular também é um pilar indispensável de prevenção. A prática de atividades aeróbicas moderadas estimulam a liberação natural de endorfina e outros neurotransmissores analgésicos pelo próprio sistema nervoso central. Além disso, melhora o padrão de sono, otimiza a capacidade cardiovascular e reduz os níveis gerais de estresse e ansiedade. 

Fernanda e Jaryson, personagens desta matéria, afirmam que realizam atividade física rotineiramente e sentem os benefícios da prática. 

Em relação às mudanças de hábitos, a fisioterapeuta sugere que outros profissionais da saúde auxiliam na redução dos gatilhos. A nutrição pode ajudar a encontrar os alimentos específicos e substituí-los, bem como suplementar adequadamente para mitigar efeitos colaterais de remédios preventivos.

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