Dor de cabeça latejante e intensa, náuseas, sensibilidade à luz e ao som. Esses são os sintomas mais comuns da enxaqueca, condição neurológica que atinge 15% da população brasileira. No Ceará, foram realizadas 9.318 internações pela doença e outras dores de cabeça na rede pública de saúde, entre 2016 e 2026.
Os dados são do Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SUS), do Ministério da Saúde, e foram levantados pelo Diário do Nordeste. Para filtrar os dados, foram retirados os casos de internação cujos códigos da Classificação Internacional de Doenças são G43 (enxaqueca) e G44 (outras síndromes de cefaleia).
A enxaqueca é uma cefaleia — termo médico que descreve qualquer tipo de dor de cabeça — que pode iniciar-se em qualquer idade, sendo mais comum de surgir na puberdade ou na idade adulta. Elas ocorrem em pessoas cujo sistema nervoso é excepcionalmente sensível a certos estímulos.
O médico neurologista Rui Kleber Martins Filho explica que a internação acontece quando o paciente enfrenta uma crise aguda e que não apresenta uma evolução positiva.
“Não havendo uma melhora satisfatória no pronto-socorro e aquela crise persistindo de forma muito incapacitante, o paciente acaba precisando ser internado para que seja feita uma terapia mais intensiva, com mais de um tipo de medicação e acompanhamento neurológico rigoroso”, detalha.
Geralmente, a internação se dá em casos mais graves, quando a dor é “mais intensa e mais extensa”, situa o especialista. Após a dor ser cessada, os médicos devem traçar com o paciente estratégias de curto, médio e longo prazo para o tratamento das crises.
“É procurar fazer uma análise criteriosa daquela condição que o paciente está apresentando, e tentar entender se aquela refratariedade está acontecendo por conta da enxaqueca em si ou se a gente tem uma outra condição que possa estar associada e mereça investigação com exame de imagem e avaliação”, completa.
No Ceará, seis unidades de alta complexidade da rede estadual possuem neurologistas no corpo clínico. Para ser atendido, é necessário ter o encaminhamento médico a partir das Unidades Básicas de Saúde (UBS). São os médicos do posto de saúde que irão avaliar os sintomas dos pacientes e indicar o especialista, caso seja identificada a necessidade.
‘Já perdi um casamento por causa da enxaqueca’
Um estudo publicado em 2025 pela revista Lancet aponta que mais de 31 milhões de brasileiros em idade produtiva são afetados pela enxaqueca. De origem genética, a doença neurológica não tem uma causa específica, mas pode ser desencadeada por gatilhos como sono irregular, jejum prolongado, consumo de álcool e período menstrual nas mulheres.
Desde criança, Júlio César Feitosa de Souza, de 37 anos, convive com a dor incapacitante e foi aprendendo a lidar com os desconfortos. Entre os sinais que indicam o início de uma crise de enxaqueca, para ele, estão tonturas e as auras, experiências sensoriais de curta duração que surgem antes ou durante a crise de enxaqueca.
“Minha visão fica assim, com umas bolinhas, e eu fico enxergando só metade. Geralmente, essa aura demora mais ou menos meia hora ou uma hora. Só que nesse período, eu não sinto dor”, diz. A dor na cabeça só aparece depois, “na parte da testa até o meio da cabeça, na parte da frente”.
Nas crises, o motorista de aplicativo também enfrenta vômitos e diarreia. Os episódios de dor duram de três a cinco horas, com a crise estendendo-se ao longo de dois ou três dias. “Incomoda, não consigo enxergar a luz, tenho que ficar num lugar escuro”, conta.
Ele afirma que evita certas comidas porque causam dor, como melancia, maionese e comidas gordurosas. Em relação aos hábitos, o motorista percebe que se dormir demais ou exagerar no exercício físico, a dor de cabeça costuma aparecer.
“Um dia desse, eu perdi um casamento. Eu cheguei lá e o casamento já tinha acabado, porque eu comecei a sentir [a aura] antes de sair e tive que tomar medicamento [...] Às vezes, fico até feliz quando é uma dor de cabeça normal, e não uma enxaqueca”.
Por que a enxaqueca atinge mais mulheres?
Porém, estatisticamente, mulheres são mais acometidas pela doença. Uma das razões são as oscilações hormonais comuns no gênero. Acredita-se que o estrogênio desencadeia a enxaqueca, seja pelo aumento ou flutuação da substância química, como explica a fisioterapeuta Maira de Oliveira Viana.
“Quando uma mulher entra na menopausa, por exemplo, é interessante que ela vá fazer um acompanhamento para saber se está fazendo reposição ou não, porque quando eu tenho uma queda brusca [de estrogênio], aí pode ser que a enxaqueca venha. Por isso que, às vezes, as mulheres têm enxaqueca no período menstrual porque é uma alteração muito abrupta, é uma variação muito alta da dos hormônios”, diz.
Aos 25 anos, a assistente administrativa Vitória Souza Lopes Alves enfrenta episódios de dor que duram de dois a três dias. Quando passa pelas crises, a jovem costuma utilizar máscaras geladas na cabeça para aliviar indisposição e fica reclusa no quarto em “silêncio e escuro absoluto”.
“Nos episódios de dor, não pode haver barulho nenhum ou luzes. Nas piores crises, nem minha própria voz posso ouvir. Por várias vezes, já faltei ao trabalho”
Conforme Vitória, as dores que sente não estão relacionadas com o período menstrual. Ela conta que a ideia de ir a um hospital para tratar as crises é improvável, pois o ambiente pode piorar a dor.
“Tem muito barulho de aparelhos, vai e vem de pessoas, entra e sai de médicos”, explica. Ruídos, luzes e cheiros são alguns dos gatilhos mais comuns de Vitória, além de sinais como tonturas e dor de ouvido.
Outras dores de cabeça
Além da enxaqueca, os números do Ministério da Saúde incluem outras síndromes de algias cefálicas, dispostas no CID G44, que não se enquadram nos tipos mais comuns. Essas doenças têm como sintoma principal a dor de cabeça, com características variáveis em relação à localização da dor, a intensidade, a duração e a frequência.
As síndromes são divididas em subcategorias:
- G44: Cefaleia em salvas, ou cluster headache;
- G44.1: Cefaleia vascular, não classificada em outra parte;
- G44.2: Cefaleia tensional;
- G44.3: Cefaleia crônica pós-traumática;
- G44.4: Cefaleia induzida por drogas ou suspensão;
- G44.8: Outras síndromes de cefaleia especificadas.
Elas podem ser episódicas ou crônicas, atingindo um ou dois lados da cabeça, e associadas a sintomas como lacrimejamento e coriza, ou a fatores desencadeantes específicos.
O neurologista Rui Kleber explica que essas síndromes são investigadas a partir das características da dor.
“Por exemplo, uma cefaleia em salvas é uma dor imponente, mais de um lado da cabeça, e vem associada com vermelhidão no olho, queda da pálpebra e inquietação. Enquanto isso, a enxaqueca é uma dor que muda de lado, que é mais duradoura, tem náuseas, vômitos e sensibilidade à luz e ao som”, detalha.