Saiba quem é Máira Rocha, médium cearense acusada de usar dados da internet em cartas psicografadas

Ela foi denunciada à Federação Espírita do Distrito Federal e também à Polícia Civil, segundo o Fantástisco.

Escrito por Redação producaodiario@svm.com.br
07 de Setembro de 2026 - 10:43 (Atualizado às 10:43)
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Legenda: Médium cearense Máira Rocha durante psicografia de cartas consoladoras em São Paulo (SP).
Foto: Reprodução/YouTube.

Famílias que procuraram a médium cearense Máira Rocha, natural de Jati, em busca de mensagens de parentes mortos afirmam ter identificado informações disponíveis na internet em cartas apresentadas como psicografadas. Contra ela também existem acusações de ameaças, charlatanismo e estelionato.

As denúncias foram exibidas pelo Fantástico, da TV Globo, no domingo (6), após mais de dois meses de investigação do jornalístico. Segundo as pessoas ouvidas pelo programa, Máira utilizaria informações obtidas em redes sociais, reportagens e outros conteúdos disponíveis na internet para elaborar as supostas mensagens. Procurada pelo programa, a médium não aceitou gravar entrevista.

Entre as pessoas ouvidas está a empresária Marina Escames, que perdeu o marido, Thiago, vítima de leucemia. Espírita kardecista, ela afirma que procurou Máira porque queria receber notícias do companheiro e também encontrar uma forma de amenizar a dor do filho caçula, Matteo, que tinha três anos quando o pai morreu.

“Eu acreditava piamente que ela seria uma ponte entre mim e o Thiago”, relatou Marina.

A comerciante Marcela Magalhães também procurou a médium depois da morte do filho Henrique, de 18 anos, vítima de um acidente de carro. Segundo ela, a situação de luto a deixou vulnerável. “É tanta dor que você acredita em qualquer coisa”, afirmou.

As duas acabaram encontrando problemas que, segundo elas, levantaram dúvidas sobre a autenticidade das cartas.

Carta de filho morto tinha informações encontradas na internet

Durante uma transmissão ao vivo, Máira teria mencionado Henrique como “um jogador de futebol que desencarnou muito cedo”. A família, porém, afirma que ele nunca foi jogador profissional.

Marcela posteriormente descobriu que uma fotografia do filho usando uniforme esportivo havia sido publicada em uma reportagem sobre o acidente. O texto jornalístico também o descrevia equivocadamente como jogador de futebol.

Outro recado aumentou a desconfiança. Máira teria associado Henrique a dois jovens que apareciam em uma montagem publicada nas redes sociais de Marcela. As três pessoas, entretanto, haviam morrido em circunstâncias e momentos diferentes.

Outra família encontrou erros em carta

Diva Mascarenhas Borges também procurou Máira após a morte de um familiar. Segundo ela, a carta recebida apresentava informações que não correspondiam à realidade da família.

Um dos trechos mencionava que o falecido queria conversar com Judite, sua esposa. O problema, segundo Diva, é que Judite havia morrido um ano antes.

A família também estranhou a utilização de nomes que não eram usados no cotidiano. Dois irmãos adotivos de Diva, por exemplo, foram registrados originalmente como Edvano e Edvani, mas posteriormente passaram a utilizar outros nomes. Segundo ela, os nomes antigos apareciam na carta.

Famílias levaram denúncias a entidades espíritas e à polícia

Público chegou a denunciar a médium cearense Máira Rocha à Federação Espírita do Distrito Federal.
Legenda: Público chegou a denunciar a médium cearense Máira Rocha à Federação Espírita do Distrito Federal.
Foto: Reprodução/YouTube.

Diva procurou a Federação Espírita do Distrito Federal e, segundo o relato exibido pelo Fantástico, descobriu que outras pessoas também haviam apresentado denúncias contra Máira.

O presidente da entidade, Paulo Costa, afirmou que recebeu relatos de pessoas que procuraram as cartas em busca de consolo e posteriormente descobriram que informações apresentadas nas mensagens poderiam estar disponíveis em jornais, na internet ou nas redes sociais.

Outro denunciante, identificado como Silvano, questionou uma carta atribuída à mãe, morta em 2000. Segundo ele, a mensagem apresentava nomes de familiares, mas esquecia um dos netos e incluía como neta uma pessoa que, segundo a família, era sobrinha da cunhada.

Silvano registrou boletins de ocorrência no Distrito Federal, por suspeitas de charlatanismo e ameaça. O material da reportagem aponta ainda registros policiais contra Máira em pelo menos cinco estados, envolvendo suspeitas de estelionato, calúnia, difamação e ameaça.

Quem é Máira Rocha?

Máira Rocha é advogada, trabalha no Ministério da Saúde e ficou conhecida no meio espírita como médium. No início de 2026, fundou a própria instituição, a Casa da Caridade Inácio Daniel, voltada para atividades assistenciais e espirituais.

Segundo o Fantástico, o espaço atende cerca de 5 mil pessoas por mês e sobrevive de doações. Entre as atividades estão a distribuição de alimentos, roupas e agasalhos, além dos atendimentos espirituais e das chamadas cartas consoladoras.

A instituição também promovia leilões de roupas e objetos utilizados pela médium em sessões. A prática, entretanto, é criticada por representantes da Federação Espírita Brasileira (FEB).

O presidente da FEB, Jorge Godinho, afirmou que a doutrina espírita não autoriza nem ensina a realização de leilões desse tipo e defendeu que o trabalho mediúnico seja realizado de forma desinteressada.

Máira diz ouvir espíritos desde a primeira infância

Antes de se tornar conhecida pelas cartas psicografadas, Máira Rocha já relatava publicamente experiências mediúnicas desde a infância. Em uma palestra realizada em 31 de maio de 2019, em Franca (SP), no evento “Cartas Consoladoras”, do Recanto Espírita Maria de Nazaré, ela afirmou ter começado a se comunicar com espíritos aos sete anos.

Máira afirmou que cresceu no Interior do Ceará, em uma família dividida entre católicos e evangélicos, em uma época em que, segundo seu relato, experiências mediúnicas não eram compreendidas pelos familiares. “Desde os sete anos que eu me conheço por falar com os espíritos. Até então eu não intitulava a eles espíritos, porque eu não tinha conhecimento, eram amigos como são hoje, só que desconhecidos meus”, relatou.

Em vídeo, ela relatou diferentes episódios vividos na infância. Um deles foi na escola onde a mãe trabalhava como professora de matemática. Como não tinha com quem Máira, a mãe levava Máira para as aulas.

Durante uma prova, a menina teria começado a ditar respostas aos estudantes porque, segundo o próprio relato, os espíritos as informavam. Ela chegou a escrever respostas no quadro enquanto a mãe corrigia outras avaliações. De acordo com Máira, os alunos acabaram tirando nota 10.

Ao Fantástico, a prima Márcia Rocha afirmou que nunca havia percebido qualquer manifestação mediúnica durante a infância de Máira e disse que, em uma cidade pequena como Jati, um fenômeno desse tipo dificilmente passaria despercebido.

Márcia também contestou a origem do apelido “Lê”, que Máira relacionava a um espírito que teria lhe ensinado a ler. Segundo a prima, o apelido seria uma referência ao nome Alexandrina, de Máira Alexandrina.

Médium se defende com relatos de pessoas que receberam cartas

Apesar das denúncias, Máira Rocha também é defendida por pessoas que afirmam ter recebido cartas psicografadas com informações que, segundo elas, seriam desconhecidas pela médium. Os relatos foram publicados em vídeos no Instagram da cearense.

Um homem que perdeu o filho durante um assalto, em 2018, afirma ter recebido uma mensagem cinco anos depois com detalhes como seu apelido, um cordão de ouro presenteado pelo filho e o nome de sua loja.

Outra mulher conta que perdeu o filho, de 27 anos, para a Covid-19, em março de 2020. No mês seguinte, recebeu uma carta atribuída ao jovem e afirma que Máira revelou detalhes que somente ela e o filho conheciam.

Há ainda o relato de uma mulher que recebeu uma carta da mãe, em 2019. Segundo ela, a mensagem mencionava uma antiga fonte na Praça da Sé, no Crato (CE). A informação teria sido posteriormente confirmada por uma sobrinha que pesquisou fotografias históricas do município.

Ameaças e outras acusações

Além das suspeitas relacionadas às cartas, o material apresentado pelo Fantástico reúne acusações de ameaça, estelionato, charlatanismo, calúnia e difamação. O Ministério Público também recebeu denúncias envolvendo suposta apropriação indébita, desvio de recursos e possível rede de influência com servidores públicos. As acusações ainda são objeto de apuração.

Marcela Magalhães afirmou ter sido ameaçada após questionar a médium. Segundo ela, Máira teria dito que poderia fazer uma transmissão ao vivo para revelar informações pessoais que haviam sido confidenciadas durante um momento de fragilidade.

“Uma dor muito grande, um problema muito sério que havia acontecido comigo e que eu desabafei com ela”, relatou Marcela.

Em vídeos apresentados na reportagem, a própria Máira faz declarações em tom de advertência a pessoas que questionassem seu trabalho.

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