Mulheres que buscam um método seguro e eficaz para evitar gestações indesejadas têm acesso, desde o fim do ano passado, a mais uma possibilidade de proteção no Ceará, após o Estado passar a ofertar o implante subdérmico contraceptivo, conhecido pela marca Implanon, pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Entre o início dessa operação, em novembro, e o fim de julho deste ano, mais de 15 mil mulheres receberam o dispositivo gratuitamente.
Apesar de a incorporação do Implanon ao SUS ter sido anunciada pelo Ministério da Saúde em julho de 2025, a oferta começou de forma gradativa em todo o País e ainda não chegou a todos os municípios igualmente, já que equipes de saúde precisaram ser capacitadas para a orientação às pacientes e para a inserção do dispositivo.
Por isso, de acordo com o Ministério da Saúde, o acesso gratuito ao implante começou de fato apenas em outubro do ano passado. Desde então, a Pasta já adquiriu 1,8 milhão de unidades do dispositivo e capacitou aproximadamente 13 mil profissionais e gestores da Atenção Primária em todo o País.
Considerado um dos métodos mais eficazes e seguros do mundo, o Implanon funciona a partir da liberação do hormônio etonogestrel e tem proteção de até três anos. A eficácia do implante é de mais de 99%, e ele é conhecido por apresentar menos efeitos colaterais em relação a outros métodos.
No Ceará, segundo levantamento feito pelo Diário do Nordeste com base nos dados do Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Básica (Sisab), a aplicação gratuita dos contraceptivos já ocorre em 122 dos 184 municípios, mas deve ser ampliada nos próximos meses.
Ao todo, 15.415 inserções foram registradas até julho. Dessas, 1.542 foram feitas em adolescentes de 14 a 17 anos.
De acordo com a coordenadora da Atenção Primária da Secretaria Estadual da Saúde (Sesa), Thaís Facó, o Ceará já recebeu cerca de 63 mil dispositivos do tipo Implanon. Segundo ela, os números mais atualizados dão conta de um índice levemente diferente do apontado pelo Sisab: 15.807 aplicações entre janeiro e julho, número que pode ser ainda maior devido à demora para registro e atualização dos dados no Sisab.
Por ter mais de 500 mil habitantes, Fortaleza é a única cidade do Ceará que recebe os dispositivos diretamente do Ministério da Saúde, enquanto as demais devem receber os implantes por meio da Sesa. Na Capital, segundo a Secretaria Municipal da Saúde (SMS), foram inseridos 5.944 implantes subdérmicos entre janeiro e agosto deste ano.
Apesar de os números do Sisab e da Sesa apontarem para a aplicação de pouco mais de 15 mil implantes subdérmicos liberadores de etonogestrel (Implanon) em 122 municípios do Ceará, o Ministério da Saúde informou, em nota, que o Estado realizou, até o fim de julho deste ano, 17.259 inserções em 123 municípios.
A Pasta afirmou que foram destinados, até o momento, 72.579 dispositivos para o Estado. A diferença pode existir pela demora na atualização de alguns sistemas de saúde. Segundo o MS, no Brasil, já foram realizadas mais de 424,4 mil inserções de Implanon pelo SUS desde outubro de 2025.
Qual o impacto da chegada do Implanon ao SUS?
A coordenadora de Atenção Primária da Sesa destaca que, antes da incorporação ao SUS, o implante subdérmico era ofertado no Ceará apenas pontualmente para mulheres em situação de extrema vulnerabilidade, como adolescentes que já tinham passado por gestações ou mulheres privadas de liberdade – que continuarão tendo prioridade na inserção neste primeiro momento.
Thaís destaca que a ampliação da oferta é uma conquista importante para a proteção das adolescentes, já que o Implanon, por ser um método seguro e de longa duração, deve reduzir índices de gravidez na adolescência.
A gente vem numa tendência de redução de gravidez na adolescência. Algumas ações educativas já vinham sendo realizadas, mas o implante vem para potencializar ainda mais essa redução da gravidez na adolescência. E, partindo do princípio que a gente reduz — e a gravidez na adolescência tem mais complicações —, a gente também deve reduzir a mortalidade materno-infantil.”
Outro aspecto importante da oferta para um público amplo é a melhoria na saúde sexual e reprodutiva e a garantia da autonomia das mulheres, destaca a gestora.
“É um planejamento reprodutivo na perspectiva de a mulher entender que a gente está lá não só para ela constituir uma família, mas para ela decidir como ela quer ter filhos, se ela quer ter filhos e quando ela quer ter filhos”, afirma.
Para a médica ginecologista e obstetra Aline Veras Brilhante, doutora em Saúde Coletiva e professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), a ampliação do uso corrige uma questão antiga: o oferecimento de um único método contraceptivo reversível de longa duração no SUS, o DIU de cobre.
Outro ponto levantado por Aline é que, caso o Implanon continuasse restrito a mulheres em situação de alta vulnerabilidade, havia um risco de o implante tornar-se “uma ferramenta de controle reprodutivo de populações específicas”.
A médica destaca, no entanto, que é normal que as políticas públicas tenham como foco o público mais vulnerável de início. “Uma vez a política consolidada, você expande. O perigo era se continuasse restrito a essa população”, explica.
Aline Veras pontua que a ampliação promove mais equidade para as mulheres, já que, na rede privada, o Implanon custa caro, tornando-se um privilégio de quem possui acesso financeiro para adquiri-lo.
“Agora, aquela jovem que não consegue pagar uma consulta particular, que não tem acesso a um convênio de saúde, consegue ter uma oferta de um método eficaz e seguro, de mais um método no rol de métodos contraceptivos ao qual ela pode ter acesso”, celebra.
Assim como Thaís Facó, a ginecologista Aline Veras destaca a ampliação do uso como ferramenta importante para reduzir o índice de gestações na adolescência, o que pode trazer ganhos não só para meninas e suas famílias, mas para a saúde pública de maneira geral.
“Se a gente reduz o número de gravidez na adolescência – com todos os problemas que essa gravidez traz para as meninas, para as suas famílias e, consequentemente, para o Estado inteiro –, a gente reduz gestações em intervalos muito curtos, o que aumenta o risco de morte materna, e a gente reduz a sobrecarga da rede materna infantil. Então, melhora a qualidade da assistência”, reforça.
Qual a eficácia do Implanon?
As especialistas ouvidas pela reportagem destacam que o implante subdérmico é considerado o método contraceptivo mais seguro contra a gestação, com mais de 99% de eficácia, índice superior até ao da laqueadura tubária.
Essa proteção é garantida durante os três anos de duração do implante, de forma igualitária, sem queda de eficácia. Ao fim dos três anos, é preciso trocar o implante por um novo.
É importante lembrar que o Implanon, assim como outros métodos contraceptivos, é eficaz apenas contra a gravidez, e não protege contra nenhuma das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Por isso, é importante continuar com o uso de preservativos (masculinos ou femininos) para proteção completa.
Quais são os benefícios do Implanon e quando o uso é indicado?
Além da alta eficácia, há outros pontos positivos que se destacam no implante subdérmico. Um deles é a rápida reversibilidade da fertilidade. Isso significa que, caso a paciente queira tirar o Implanon para engravidar, a fertilidade volta rapidamente, permitindo mais autonomia para a mulher.
Além disso, segundo Thaís Facó, os efeitos adversos são menos intensos, se comparado a outros métodos; e, quando ocorrem, costumam durar poucos meses após a primeira aplicação.
Outro ponto positivo é que, por ter apenas progestagênio, o Implanon pode ser utilizado em mulheres que têm contraindicação ao estrogênio, como pacientes com hipertensão e histórico de trombose.
Quem também pode se beneficiar do implante subdérmico são pacientes com doenças como endometriose e adenomiose, que costumam sofrer com cólicas intensas durante a menstruação. Isso porque ele costuma reduzir ou interromper o fluxo menstrual, a depender de cada organismo. “Essas pessoas têm perfil para implante”, aponta Thaís.
O caso da estudante de nutrição Paulina Santos, de 23 anos, que sofria com cólicas muito fortes por causa da adenomiose, ilustra a recomendação. Quando estava no período menstrual, a jovem não conseguia fazer nenhuma das atividades cotidianas por causa da dor. Após um período utilizando o anticoncepcional injetável sem muito sucesso, ela decidiu, junto à sua médica, optar pela inserção do Implanon.
A estudante conta que, em julho do ano passado, antes da ampliação do uso no SUS, comprou o dispositivo e levou a um hospital público de Itapipoca, no interior do Ceará, para a aplicação, que foi rápida e indolor. No quarto mês após a inserção, teve escapes menstruais por algumas semanas, mas depois não apresentou mais nenhum efeito colateral.
Atualmente, relata ter uma vida mais tranquila e sem dores e garante que, assim que tirar o Implanon, ao fim dos três anos, já deseja aplicar outro implante – quem sabe, desta vez pelo SUS. “No meu caso, tive que pagar porque queria uma coisa mais imediata, mas na próxima vez, vou tentar pelo SUS”, conta.
A estudante vê a ampliação do uso como “uma vitória muito grande”, que possibilita que mulheres de baixa renda consigam acessar o método contraceptivo que transformou sua vida.
“No meu caso – e no caso de outras pessoas que eu conheço –, realmente a vida se torna outra, porque você não tem mais tantas preocupações da injeção, de tomar a pílula e esquecer. Você consegue ter uma vida melhor, uma vida em que você não tem empecilhos”, conclui.
A executiva de vendas Nathalia Teixeira, de 39 anos, também passou de outro método contraceptivo para o Implanon e se sentiu mais confortável após a troca. Ela usava o DIU Kyleena, mas sentia muitos efeitos colaterais. No fim do ano passado, conseguiu fazer a aplicação do implante pelo plano de saúde, em um consultório médico, de forma “tranquila e rápida”.
“Ele é um excelente método. Não dói, não tive nenhum outro tipo de desconforto, com exceção dos escapes que tenho vez por outra”, conta.
Após a portaria que incorporou o Implanon ao SUS, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) tornou obrigatória a inclusão do procedimento de inserção do implante no rol de serviços oferecidos pelos planos de saúde. Nesse âmbito, no entanto, a obrigatoriedade é válida apenas para mulheres de 18 a 49 anos.
Avaliação médica e informação sobre efeitos colaterais são necessárias antes da adesão
Ainda que o Implanon possa trazer muitos pontos positivos para a maioria das mulheres, a adaptação ao método pode ser difícil para algumas pacientes. É o caso da assessora de imprensa Letícia Farias de Aquino, de 24 anos, que colocou o dispositivo pelo SUS há pouco mais de um mês e tem sofrido com efeitos colaterais.
“A adaptação tem sido péssima. Tenho tido muita dor de cabeça e coisas que nunca senti: muita insônia, oscilações de humor, e um sangramento que ainda não passou”, conta. “Mas entendo que só tem um mês, então isso é uma questão que pode ser natural, porque até seis meses é um período de adaptação”, completa.
A jornalista já havia utilizado métodos como a injeção e o DIU, mas teve dificuldades de se adaptar a eles. Optou pelo Implanon por ouvir boas experiências de outras pessoas e pela alta eficácia do método. A inserção, conta, foi tranquila, mas nessas primeiras semanas, “tudo está desorganizado”.
Otimista, Letícia acredita que os efeitos devem passar em breve e que o momento ruim é “apenas uma fase”. “Tenho muitas amigas que disseram que no início é assim mesmo e depois passa, e fica tudo bem”, relata.
Além das dores de cabeça e oscilações no humor, os efeitos colaterais mais comuns do Implanon incluem irregularidade no fluxo menstrual (escapes), sensibilidade nas mamas e acne. Quando ocorrem, eles costumam passar em até seis meses ou no máximo um ano, segundo Thaís Facó. “Tem mulher que com três meses não sente mais nada”, ressalta.
Para evitar frustrações ou retirada precoce do dispositivo, a ginecologista Aline Veras destaca a importância de uma avaliação prévia para que, juntos, a equipe de saúde e a paciente possam avaliar qual o melhor método contraceptivo para ela.
“O papel do médico ginecologista e do médico de família e comunidade que atende essa mulher na UBS é saber ofertar todos os métodos, explicar os benefícios e as contraindicações de cada um, entender o quadro daquela mulher e ver qual desses métodos terá mais benefícios não contraceptivos para ela”, explica.
“É um método fantástico, mas também não vai ser o método principal para todo mundo”, ressalta.
Implanon pelo SUS: quem tem direito, como conseguir e onde colocar?
Adolescentes de 14 a 17 anos e mulheres de 18 a 49 anos podem procurar as Unidades Básicas de Saúde (UBS) ou seus agentes comunitários de saúde para conversar sobre o interesse de colocar o implante.
“É importante a conversa com o médico, porque o médico e a equipe vão avaliar se ela tem critério de elegibilidade ou se ela é mais elegível a outro método”, reforça Thaís Facó.
A inserção do implante subdérmico é feita em postos de saúde e é considerada um procedimento pouco invasivo, com aplicação e recuperação rápidas.
O primeiro passo é fazer um teste rápido de gravidez, já que há uma “contraindicação expressa” de inserção do dispositivo em mulheres com risco de gestação. Depois, a paciente recebe uma pequena anestesia local no braço e o dispositivo é colocado por inserção intradérmica.
Após a aplicação, é preciso que a paciente use uma proteção complementar – como preservativos e/ou pílula anticoncepcional, caso esse método já seja utilizado por ela – até que o hormônio liberado pelo implante chegue num pico de segurança. Esse período de “transição” dura de sete a dez dias.