Caranguejos de Fortim têm substância que pode desregular hormônios humanos, diz estudo da UFC

Achados da pesquisa foram publicados na revista científica internacional Marine Environmental Research

Escrito por Alexia Vieira alexia.vieira@svm.com.br
02 de Setembro de 2026 - 06:00
capa da noticia
Legenda: As amostras foram colhidas em 300 caranguejos de 17 pontos da costa do Norte e do Nordeste. A publicação inicial contempla apenas as amostras de Fortim e Itapissuma, no Pernambuco.
Foto: Divulgação/UFC.

Pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) identificaram a presença de bisfenóis em caranguejos coletados em Fortim, no litoral do Ceará. A substância, utilizada em plásticos e papéis térmicos, é considerada tóxica para seres humanos e pode influenciar o funcionamento do sistema endócrino de seres humanos, impactar negativamente o sistema imunológico e reprodutivo.

O estudo defende que as altas concentrações do composto nos crustáceos evidenciam a poluição ambiental de manguezais. Não é possível, no entanto, definir quais são os impactos do consumo desses animais contaminados a partir da pesquisa da UFC.

“Isso serve de alerta quanto à questão do gerenciamento do resíduo sólido e do resíduo líquido. Quando um material é descartado e vai parar em um aterro sanitário controlado ou em um sistema de reciclagem, ok. Ali é o destino correto dele. Agora, quando esse material vai parar em um lixão, fica o risco ambiental”, explica o professor Rivelino Cavalcante, do Instituto de Ciências do Mar (Labomar-UFC) e coordenador do estudo.

Segundo Rivelino, a maioria dos contaminantes oriundos das atividades humanas vai parar no sedimento de mangues, onde vivem os caranguejos. Por isso, a pesquisa utilizou o animal como um biomonitor: a partir desse componente importante dos manguezais, foi possível mensurar a qualidade do ambiente. 

Foram colhidas amostras de 300 caranguejos em 17 manguezais das regiões Norte e Nordeste. Os resultados da pesquisa em Fortim e em Itapissuma, no Pernambuco, foram publicados na revista científica internacional Marine Environmental Research.

O que é o bisfenol encontrado nos caranguejos

Os bifenóis são um grupo de substâncias químicas usadas como matéria-prima na fabricação de plástico de policarbonato e resinas epóxi. Além disso, o composto é encontrado em papéis térmicos, como comprovantes de cartão, recibos de caixas de supermercado, senhas de atendimento, etc.

O bisfenol A (BPA) é o tipo mais conhecido e estudado, mas foram encontrados nos caranguejos também o bisfenol F (BPF) e o bisfenol C (BPC). 

No Brasil, o BPA é proibido em mamadeiras e utensílios voltados para a alimentação de lactentes e crianças de até 3 anos. Para os demais usos, o emprego da substância é aceitável desde que respeitados os limites máximos estabelecidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Os tipos análogos ao bisfenol A (BPF e BPC) não têm uso proibido no Brasil. No entanto, pesquisas também os associam a riscos à saúde humana. A União Europeia, que já proibia o BPA em mamadeiras e recibos de papel térmico, passou a banir o uso de bisfenóis e derivados na confecção de embalagens de alimentos a partir de julho de 2026. 

Segundo a pesquisa da UFC, a maior parte das amostras retiradas dos caranguejos mostrou níveis de bisfenóis que excedem a ingestão diária tolerável para seres humanos. As concentrações de bisfenol F (BPF) nos crustáceos da espécie Cardisoma guanhumi de Fortim foram consideradas “alarmantes”. 

Fluidos dos crustáceos, como urina e hemolinfa, foram utilizados para identificar contaminação.
Legenda: Fluidos dos crustáceos, como urina e hemolinfa, foram utilizados para identificar contaminação.
Foto: Divulgação/UFC.

O Diário do Nordeste procurou a Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), por e-mail, para perguntar se os órgãos têm conhecimento da problemática mostrada na pesquisa e se há monitoramento dos níveis de poluição dos manguezais de Fortim. Não houve resposta até a publicação desta matéria.

Impacto do consumo dos caranguejos precisa ser estudado

O estudo, conforme o professor Rivelino, não se debruçou sobre os impactos do consumo de caranguejos contaminados na saúde humana. Ele afirma que o material foi coletado apenas de crustáceos vivos. Portanto, não é possível inferir se a mesma quantidade de bisfenóis é encontrada no alimento preparado.

“A pesquisa avaliou o animal vivo no seu ambiente. Nós não sabemos, por exemplo, o que acontece após o preparo dele como uma refeição. O que nós precisamos fazer são pesquisas mais aprofundadas nisso. O que o estudo mostra mesmo é que nossos animais estão recebendo substâncias que não eram para receber”
Rivelino Cavalcante
pesquisador do Labomar-UFC

Nos próximos passos, os pesquisadores devem fazer análises clínicas dos animais para entender as consequências da contaminação no DNA dos crustáceos.

A análise de fluidos dos caranguejos ainda é pouco utilizada em pesquisas desse tipo, conforme Rivelino. Para o estudo, foram desenvolvidos métodos de coleta da urina e da hemolinfa (líquido que exerce um papel semelhante ao do sangue nos crustáceos). 

Isso permitiu a extração das amostras de forma minimamente disruptiva ao ambiente, sem a necessidade de sacrifício dos bichos. 

Esse conhecimento deve ser novamente aplicado na busca de outras substâncias que indiquem a poluição dos manguezais, como os parabenos, muito encontrados em cosméticos e maquiagens.

 

Este conteúdo é útil para você?

Newsletter

Escolha suas newsletters favoritas e mantenha-se informado

Colunistas