Um fóssil de araucária, com aproximadamente 120 milhões de anos, recebeu o nome de Araucaria benignae, em homenagem a Menina Benigna, jovem mártir do Cariri que foi beatificada pela Igreja Católica em 2022.
O holótipo, exemplar que serve como referência científica para a identificação da espécie, está presente na coleção do Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens (MPPCN), em Santana do Cariri.
Conforme o museu, o material integra o conjunto de fósseis repatriados da França em 2024, em um processo de retorno e valorização do patrimônio paleontológico brasileiro.
"Na época dos dinossauros, da separação dos continentes, as araucárias ocorriam na nossa região, o que a gente hoje chama como Cariri. Então, essa espécie traz essa história da evolução do nosso planeta. É com muita felicidade, de forma muito certa, que homenageia a Menina Benigna, que é um símbolo da nossa região, uma personagem muito associada a Santana do Cariri. Agora, todos os brasileiros poderão ver essa justa homenagem", afirma Allysson Pontes Pinheiro, diretor do Museu de Paleontologia e professor da Universidade Regional do Cariri (Urca).
De acordo com o diretor do museu, diversos desses fósseis estão sendo trabalhados cientificamente, mas o primeiro deles que se torna uma espécie nova é a Araucaria benignae.
"Um detalhe muito importante é que o material usado para descrever a Araucaria benignae foi repatriado da França ao Brasil, das mais de duas toneladas de fósseis que recebemos do país europeu", destaca o professor.
A partir da nova nomenclatura científica do fóssil, o nome de Benigna passa a integrar também o registro científico internacional, acompanhando a trajetória da espécie em artigos acadêmicos, coleções científicas, catálogos, museus e futuras pesquisas.
O museu destaca que, além de levar o nome de Benigna para o universo científico, o exemplar permanece fisicamente ligado ao território onde Benigna nasceu e viveu.
Na próxima sexta-feira (25), às 10h, no Geopark Araripe, na cidade do Crato, será realizada uma cerimônia de apresentação de fósseis repatriados, que agora irá incluir o fóssil em homenagem a Menina Benigna.
>> A nova nomenclatura do fóssil em homenagem a Benigna foi publicada em artigo científico
Relevância científica da região do Cariri
O fóssil de araucária é resultado de uma investigação paleobotânica presente em uma rede internacional de estudos sobre a flora do Cretáceo da Bacia do Araripe.
Conforme Edenilce Peixoto, professora da Urca, a espécie Araucaria benignae foi descrita com base nas estruturas reprodutivas, popularmente conhecida como pinha. O nome é composto por duas partes, em que Araucaria é o nome do gênero, e benignae, dado em homenagem a Menina Benigna, figura religiosa de onde o fóssil foi extraído.
"É uma espécie da família Araucariaceae, a mesma do Pinheiro do Paraná. Hoje, essa família está restrita a algumas regiões do Globo e, no Brasil, só ocorre no Sul e sudeste de forma natural. Mas no período Cretáceo, aproximadamente 120 milhões de anos, quando essa espécie viveu, essa família era amplamente distribuída e, inclusive, predominava na vegetação daqui do Nordeste", explica a especialista.
Segundo o museu, a descrição da espécie contribui para o compartilhamento de informações sobre a diversidade de araucárias que habitaram o antigo ambiente do Cariri e amplia a compreensão da flora existente durante o Cretáceo.
O estudo também destaca a relevância da região do Cariri no desenvolvimento de pesquisas paleontológicas de alcance internacional, como uma das unidades geológicas mais importantes para o estudo dos ecossistemas do Cretáceo.
O trabalho traz pesquisas científicas de instituições brasileiras e estrangeiras, incluindo a Universidade Regional do Cariri (URCA), a Universidade Federal do Ceará (UFC), a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e instituições alemãs, entre elas o Senckenberg e o Museum für Naturkunde Chemnitz.
Conexão entre ciência e religiosidade
Para o Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, a homenagem une dois elementos fundamentais que caracterizam a região de Santana do Cariri: o patrimônio paleontológico e a tradição religiosa.
O mesmo território preservou, durante aproximadamente 120 milhões de anos, material do antigo ambiente da Bacia do Araripe, ao mesmo tempo em que protege a memória da beatificada Menina Benigna.
Apesar de documentos históricos já apontarem associação entre figuras da tradição cristã e organismos fósseis, como Papulavis, gênero de ave fóssil do Eoceno da França relacionado a Papulus, mártir cristão dos séculos V ou VI; e Hildoceras, gênero de amonites relacionado a Santa Hilda de Whitby, não foi identificado, até o momento, outro caso documentado que reúna uma mulher mártir oficialmente reconhecida pela Igreja Católica e uma homenagem na nomenclatura de uma espécie fóssil.
"Um dos aspectos que tornam a homenagem especialmente significativa é o fato de o exemplar utilizado como referência para a descrição da nova espécie permanecer em Santana do Cariri. Para a paleontologia, a nova espécie contribui para o conhecimento da flora cretácea da Bacia do Araripe. Para a memória de Benigna, representa uma forma singular de perpetuação de seu nome. Para Santana do Cariri, aproxima dois patrimônios que atravessam diferentes escalas de tempo: a história da vida na Terra e a história de sua população", destaca o Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens.
Recentemente, foi divulgado que um fóssil, nomeado como Cicero spectabilis — junção de alusão ao caririense Padre Cícero e da palavra em latim para “espetacular” — será repatriado pelo Brasil, com previsão de retorno ao Cariri ainda em 2026, após pesquisadores descobrirem a presença dele em uma coleção nos Estados Unidos.
Trata-se de um crustáceo que vivia há 115 milhões de anos na região da Bacia do Araripe. A espécie irá compor o acervo do MPPCN, ligado à Universidade Regional do Cariri (Urca), ficando disponível para estudo e visitas de pesquisadores, estudantes e população.
Quem foi Menina Benigna
Benigna Cardoso da Silva nasceu em Santana do Cariri em 1928. Em 1941, aos 13 anos de idade, ela foi assassinada com golpes de facão dados por Raul Alves, após recusar ter relações sexuais com o criminoso.
Após a morte, a Menina Benigna passou a ser venerada como mártir na Região do Cariri e virou símbolo da resistência contra o feminicídio e a violência sexual contra crianças e adolescentes.
Ela foi beatificada em outubro de 2022, no município de Crato, na Região do Cariri, tornando-se a primeira beata cearense.
A beatificação foi autorizada pelo Papa Francisco em 2019, oito anos após a Diocese de Crato pedir a abertura do processo. Em 2013, a menina Benigna foi nomeada "Serva de Deus" pela Igreja Católica.