Por trás das paredes deterioradas do casarão da Avenida Imperador 1.313, no Centro de Fortaleza, existe uma construção muito maior do que a fachada deixa imaginar. Foi justamente esse “mundo lá dentro” que as arquitetas Marianne Albuquerque, Rebeka Ayres e Beatriz Santos percorreram cômodo por cômodo para produzir um dossiê que agora pode ajudar a transformar o tombamento provisório do imóvel em proteção definitiva.
O Diário do Nordeste teve acesso ao documento produzido pelas profissionais por meio do Edital de Fomento ao Patrimônio Edificado da Secretaria Municipal da Cultura de Fortaleza (Secultfor). O material reúne levantamento arquitetônico, registros fotográficos, medidas, identificação de danos, características construtivas e informações sobre a história do casarão.
O Edital de Fomento ao Patrimônio Cultural Edificado, lançado pela Secultfor em 2025 com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), selecionou projetos para realizar estudos técnicos de imóveis tombados ou em processo de preservação no município. A iniciativa previa a elaboração de diagnósticos sobre o estado de conservação dos bens, reunindo informações históricas em dossiês destinados a atualizar o acervo da Coordenação do Patrimônio Histórico-Cultural (CPHC) e subsidiar decisões do poder público. O edital selecionou 15 projetos com investimento total de R$ 276 mil.
A casa 1.313 possui tombamento provisório municipal desde 2012. O documento elaborado pelas arquitetas deverá servir de referência para a instrução do processo de tombamento definitivo. Atualmente, o imóvel pertence à Superintendência do Patrimônio da União no Ceará (SPU) e está cedido ao Município de Icapuí para a implantação de uma casa de apoio.
Enorme terreno chamou atenção de arquitetas
As arquitetas fizeram quatro visitas técnicas ao casarão no ano de 2025. A primeira dificuldade no trabalho surgiu antes mesmo de as profissionais conseguirem colocar os pés dentro do casarão. Marianne conta que a equipe precisou descobrir quais órgãos poderiam autorizar o acesso ao imóvel e onde estariam documentos antigos, como plantas da construção.
Então, nossa primeira visita na casa começou primeiro a gente tentando ver em que órgãos a gente tinha que procurar para poder realmente ter acesso à casa, porque muitas pessoas chegavam: ‘Ai, tem uma planta já feita, aí tu vai lá na UFC que pega essa planta’. Sendo que a gente nunca conseguiu achar essa planta realmente
Depois de procurar informações no Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs), último órgão público a usar o imóvel, e a SPU, atual dono da propriedade, elas conseguiram autorização para entrar no imóvel e passaram a contar também com o apoio dos seguranças que permanecem no local.
E veio uma surpresa: o acesso não ocorreu pela Avenida Imperador, como as arquitetas imaginavam. “Não, na verdade a gente entrou pela Tristão Gonçalves e aí quando a gente entrou era um corredor enorme de terreno até chegar realmente, enfim, na casa", explica Marianne.
Foi somente depois de atravessar esse terreno que elas chegaram à construção principal. “Quando a gente chegou foi aquele, nossa, é... Tinha os cachorros que estavam lá dentro da casa. Enfim, é como se a gente tivesse vivendo várias partes diferentes da história acontecendo ali naquele momento".
Profissionais visitaram cômodo por cômodo
O trabalho de Rebeka Ayres foi transformar a visita em levantamento técnico. A equipe percorreu os ambientes, fez medições, fotografou, filmou e observou as condições de conservação. “Então a gente foi fazendo cômodo por cômodo, fotografando, filmando, medindo e vendo o que é que o que é que tinha de patologias também ao mesmo tempo, né?”
O levantamento permitiu registrar desde problemas estruturais e sinais de deterioração até elementos que poderiam passar despercebidos para quem observa o imóvel apenas da rua.
Portas, pisos, pilares, madeira e outros detalhes chamaram a atenção das profissionais. Parte dos itens sofreu deterioração por conta do tempo, mas alguns estão preservados com chances de restauração.
Principais problemas encontrados:
- Infiltrações generalizadas — atingem paredes, tetos e diferentes ambientes;
- Problemas no telhado — telhas quebradas ou deslocadas, grandes buracos e deterioração do madeiramento;
- Risco de desabamento de partes da cobertura — o levantamento de 2025 registrou, inclusive, a queda de um pedaço do madeiramento do telhado;
- Forros deteriorados — há fragmentação, apodrecimento e desabamentos parciais;
- Pisos danificados — foram identificados deformações, desprendimentos e, em um ponto próximo à escada, cedimento do assoalho que levou à evacuação do ambiente;
- Fachada deteriorada — com descascamento e desplacamento do reboco, fissuras, rachaduras, desgaste da pintura e danos em elementos decorativos;
- Colapso parcial da fachada — em 2024, duas mãos-francesas ruíram junto com parte da alvenaria e do telhado;
- Umidade e mofo — o dossiê registra acúmulo generalizado de mofo e sinais de umidade ascendente;
- Esquadrias danificadas — problemas de funcionamento, deterioração e, em documentos anteriores, ocorrência de cupins;
- Escada em condições precárias — peças do piso e dos espelhos apresentam desprendimento e desaprumo; o corrimão estava instável e havia sido reparado de forma improvisada;
- Instalações elétricas e hidrossanitárias inadequadas — os documentos apontam necessidade de intervenções para garantir segurança e habitabilidade;
Rebeka destaca ainda a variedade de materiais e técnicas encontradas: "A arquitetura é muito bonita. É bem eclética, mas ao mesmo tempo bem elegante e muito bonita a casa, assim".
O imóvel conta ainda com alguns cômodos que foram fechados com paredes de tijolos para evitar a presença de vandalos no local.
Elementos que estavam mais preservados:
- Pavimento superior — foi considerado, de modo geral, mais conservado que o térreo;
- Anexo 1 — encontrado em bom estado de conservação, embora houvesse sujeira e excrementos de animais;
- Piso de ladrilho hidráulico — ainda presente em diversos ambientes, inclusive com padrões geométricos e florais;
- Esquadrias de madeira — várias portas e janelas originais ou antigas permaneciam no imóvel, embora algumas apresentassem danos;
- Elementos de ferro fundido — como gradis e estruturas de algumas janelas, ainda estavam presentes;
- Vidros e bandeirolas — algumas portas e janelas conservavam elementos de vidro, inclusive vidro bisotado e vidro colorido;
- Forros de lambri de madeira — ainda existentes em vários cômodos, embora apresentassem infiltrações, deterioração e desabamentos pontuais;
- Pinturas antigas — na varanda, o descascamento das camadas mais recentes revelou a pintura original da fachada, de cor amarela;
- Elementos decorativos da fachada — frisos, molduras e ornamentos em relevo permaneciam identificáveis, além da composição das janelas e da platibanda;
- Piso e elementos da varanda — o ladrilho hidráulico, o guarda-corpo de concreto e a configuração espacial da varanda permaneciam identificáveis;
- Jardim — ainda conservava elementos como piso antigo de ladrilho hidráulico e jardineiras de concreto, apesar do abandono e da vegetação.ntrara mais de preservador
O telhado deu um sinal de alerta
Entre os problemas identificados durante as visitas, a cobertura do casarão apareceu como uma das áreas mais preocupantes. Beatriz Santos relata que, em uma das idas ao imóvel, a equipe encontrou parte do madeiramento do telhado caída.
A parte mais afetada foi a da coberta, inclusive teve teve uma das visitas que a gente foi, tinha lá um pedaço do madeiramento do telhado caído no corredor
O registro ganha ainda mais importância diante da situação atual do casarão. Em agosto, o Diário do Nordeste mostrou paredes rompidas, alvenaria exposta, entulho e restos de materiais de construção no interior do imóvel após uma obra realizada no terreno vizinho. A Agefis autuou o responsável pela intervenção por irregularidades, incluindo obra sem licença e danos a construção integrante do patrimônio cultural.
Na época, a Secultfor informou que o imóvel necessitava de recuperação e que deveria solicitar ao responsável pela fachada a intervenção, tomando como referência as características existentes à época do tombamento provisório.
Por fora, parecia pequena. Por dentro, era outro mundo
Uma das descobertas que mais impressionaram as profissionais foi justamente a dimensão do imóvel. “Quando você vê assim, quem tá passando pela Imperador, pensa que a casa é pequena, né? Só que quando você entra é um mundo lá dentro e ainda é um mundo de dois andares”, conta Beatriz.
A dimensão interna ajudou a revelar uma construção mais complexa do que a fachada permite imaginar. Também chamaram atenção as sucessivas modificações feitas ao longo da história. O casarão foi residência da família Markan e, posteriormente, passou a integrar a estrutura federal ligada ao Dnocs, período em que recebeu novas funções e anexos.
Dossiê desvenda residência
Depois das visitas, começou uma segunda etapa: organizar tudo o que havia sido encontrado. Beatriz explica que o dossiê é um dos produtos previstos no edital de patrimônio edificado da Secultfor. O imóvel estava entre os bens contemplados pela chamada pública.
Além do dossiê, foram produzidos outros materiais técnicos. “Era o dossiê, as plantas baixas e o relatório de execução e o dossiê seria como se fosse um uma coletânea de tudo que a gente descobriu eh sobre a casa".
O documento reúne imagens, medidas, patologias, informações arquitetônicas e o contexto histórico do imóvel. Uma das partes funciona quase como um catálogo dos ambientes. “Tem uma partezinha do dossiê que a gente faz tipo um catálogo de ambiente, é como se fosse uma ficha técnica", diz Beatriz.
O caminho até o tombamento definitivo
O dossiê elaborado pelas arquitetas poderá subsidiar a instrução do processo de tombamento definitivo do casarão, ao reunir plantas, dimensões, registros fotográficos, características construtivas e diagnóstico de conservação.
A reportagem procurou a Secretaria Municipal da Cultura de Fortaleza (Secultfor) para saber os próximos passos do tombamento. Até a publicação, não houve resposta. O espaço permanece aberto para manifestação.
Em ata de reunião extraordinária realizada em julho, o Conselho Municipal de Proteção ao Patrimônio Histórico-Cultural de Fortaleza (Comphic) registrou a apresentação dos resultados do Edital de Fomento ao Patrimônio Edificado, financiado pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), do qual as arquitetas participaram.
Segundo o documento, a iniciativa viabilizou estudos históricos e arquitetônicos e diagnósticos de conservação para subsidiar processos de tombamento e ações de preservação.