Luxo e tradição da família cearense que morava no casarão da Avenida Imperador

Casa teve festas da elite e até abastecimento de leite com vacas no quintal.

Escrito por João Lima Neto joao.lima@svm.com.br
21 de Setembro de 2026 - 06:30 (Atualizado às 06:32)

Antes de se tornar sede de órgãos públicos e de atravessar décadas marcada pelo abandono, o casarão de número 1.313 da Avenida Imperador, em Fortaleza, foi residência de uma família ligada à indústria, à vida social e à elite econômica cearense. O imóvel pertenceu ao empresário Joaquim Markan Ferreira Gomes e foi ocupado por ele, pela esposa, Noemi, e pelos cinco filhos do casal.

O casarão foi morada da família Markan  pelo menos entre o início do século XX e o início da década de 1930.Não se tem ao certo o período em que eles viveram na residência, mas o nascimento do filho mais novo, Geraldo Markan, em 1929, aconteceu lá. Anos depois, Joaquim Markan mudou-se com a família para o Rio de Janeiro e, em 1956, o imóvel foi adquirido pelo DNOCS, encerrando o período conhecido da residência particular da família.

O Diário do Nordeste denunciou, em agosto, que o histórico casarão tombado, avaliado em R$4,7 milhões tinha sido danificado e sofrido descaracterização com obra de vizinho. Agora, voltamos para os tempos de glória, quando o imóvel abrigava vida e luxo.

Entre as histórias preservadas pela neta e bisneta do industrial estão a de uma festa de casamento, celebrado com champanhe rosé trazido da França. Elas contam, ainda, das grandes festas frequentadas pela sociedade cearense e até a criação no quintal de duas vacas para garantir leite fresco às crianças da família.

Ana Markan, bisneta de Joaquim Markan, ao lado da mãe, Myriam Markan Silva Gaspar de Oliveira, e da tia, Gilda Markan Silva Rios.
Legenda: Ana Markan, bisneta de Joaquim Markan, ao lado da mãe, Myriam Markan Silva Gaspar de Oliveira, e da tia, Gilda Markan Silva Rios.
Foto: Kid Jr/SVM.

As lembranças desse período permanecem na família por meio de relatos transmitidos entre gerações. Myriam Markan, neta de Joaquim, chegou a frequentar o casarão quando era criança, mas afirma ter poucas recordações próprias do imóvel. Ana Markan, bisneta do empresário, preservou a história principalmente por meio das narrativas da mãe e da avó.

Em entrevista ao Diário do Nordeste, Myriam contou que moravam no casarão Joaquim, Noemi e os cinco filhos: Yêdda, Myriam, Francisco ( Chico), Fernando e Geraldo (Gegê). Todos os filhos nasceram no imóvel da avenida Imperador, conforme o relato familiar. 

A residência também foi cenário de um dos acontecimentos marcantes da família — o casamento de Yêdda, filha mais velha de Joaquim, com Renato. A celebração é lembrada pelas descendentes como uma grande festa, com a presença de pessoas da alta sociedade cearense. “Foi maravilhoso. Foi tudo do melhor possível. Inesquecível”, recorda Myriam.

Imagens do casamento de Ieda registrada dentro do casarão da Avenida Imperador 1.313. (Imagem melhorada com uso de IA)
Legenda: Imagens do casamento de Ieda registrada dentro do casarão da Avenida Imperador 1.313. (Imagem melhorada com uso de IA)
Foto: Acervo da Famíia Markan.

Ana também ouviu da avó que o casamento foi preparado com grande cuidado. Entre as lembranças transmitidas está a história de que champanhe rosé teria sido trazido da França para a celebração. 

Uma casa grande para uma família numerosa

Terreno do casarão vai até a Avenida Tristão Gonçalves.
Legenda: Terreno do casarão vai até a Avenida Tristão Gonçalves.

A dimensão do terreno ajuda a compreender o espaço ocupado pela residência e pelas demais estruturas. Atualmente, a área possui 1.757,78 m², com profundidade de 105 metros, testada frontal de 17,97 metros e largura de 10,73 metros nos fundos.

O espaço é formado atualmente por quatro edificações e uma caixa d'água de concreto armado. A configuração é diferente daquela registrada na década de 1950, quando documentos apontavam a existência de uma única edificação de dois pavimentos.

As lembranças da família descrevem uma residência com vários ambientes. Segundo Myriam, havia quatro salas no pavimento inferior e quatro quartos no andar superior. Entre os espaços estavam as salas de jantar e de estar, além de uma sala destinada ao café. 

O terreno também tinha uma área posterior ligada à rotina da família. Uma das histórias preservadas por Myriam conta que, quando nasceram Yêdda e uma das irmãs, Joaquim teria mandado levar duas vacas para que as crianças tivessem leite fresco.

“A casa era linda, luxuosa e maravilhosa”, resume Myriam, em entrevista ao Diário do Nordeste, ao falar das histórias que ouviu sobre o imóvel. 

O homem por trás da casa

Joaquim Markan Ferreira Gomes em foto de álbum da família. Ele morreu em maio de 1971.  (Imagem melhorada com uso de IA)
Legenda: Joaquim Markan Ferreira Gomes em foto de álbum da família. Ele morreu em maio de 1971. (Imagem melhorada com uso de IA)
Foto: Acervo da Famíia Markan

Joaquim Markan Ferreira Gomes nasceu em Santana do Acaraú, em 8 de outubro de 1884. Estudou no Seminário de Fortaleza e depois no Colégio São Vicente de Paula, em Petrópolis, no Rio de Janeiro.

Ainda jovem, desenvolveu fascínio pela Amazônia e, entre os 16 e os 18 anos, percorreu selvas e rios da região. De volta ao Ceará, passou a trabalhar com o pai, Francisco Filomeno Ferreira Gomes, na Fábrica de Cigarros Iracema.

Em 1916, Joaquim deixou a sociedade familiar e comprou a Fábrica São Lourenço, passando a comandar sua própria indústria de cigarros. A empresa produzia marcas que ficaram conhecidas na época, entre elas os cigarros “Acácia”.

A trajetória empresarial é lembrada pela família como parte importante da personalidade de Joaquim. Ana o descreveu como um homem empreendedor e destacou a capacidade dele de construir seu próprio caminho dentro da família empresarial dos Ferreira Gomes. 

Além dos negócios, Joaquim participou da vida social de Fortaleza. Foi presidente do Ideal Clube em 1933, diretor do Clube Iracema e sócio do Clube dos Diários.

Joaquim morreu no Rio de Janeiro em 31 de maio de 1971. Posteriormente, os restos mortais foram trasladados para Fortaleza e sepultados no Cemitério São João Batista. Noemi morreu em Fortaleza alguns anos depois.

Família ligada a elite e a cultura

Família Markan na década de 1920 eum das salas do casarão da Avenida Imperador, 1.313. (Imagem melhorada com uso de IA)
Legenda: Família Markan na década de 1920 eum das salas do casarão da Avenida Imperador, 1.313. (Imagem melhorada com uso de IA)
Foto: Acervo da Família Markan.

As lembranças de Ana ajudam a reconstruir também o ambiente social em que os filhos de Joaquim e Noemi foram criados. Ela contou que a família valorizava a educação e a formação cultural. A avó, Yêdda, estudou em colégio interno no Rio de Janeiro e aprendeu francês e inglês.

“Ela dizia: ‘A gente tinha que falar francês o tempo todo’”, conta Ana, ao reproduzir uma lembrança transmitida pela avó sobre os estudos. 

Yêdda também desenvolveu uma relação próxima com a música e com a vida cultural. Segundo Ana, ela estudava piano e posteriormente atuou como professora de inglês e francês.

Outro dos filhos, Geraldo Markan, conhecido na família como GG, seguiu um caminho diferente. Tornou-se ligado às artes, ao teatro e à produção intelectual. Ana conta que ele foi professor de Antropologia da Universidade Federal do Ceará e dramaturgo. 

A própria família associa aquele período a uma Fortaleza marcada por hábitos e costumes diferentes dos atuais.

“Era Fortaleza Belle Époque. A vovó viveu essa Fortaleza Belle Époque”, afirma Ana, ao recordar a formação de Yêdda e o ambiente em que ela cresceu. 

As lembranças que ficaram

Neta e bisneta guardam até hoje fotos da família quando viviam no casarão da Avenida Imperador.
Legenda: Neta e bisneta guardam até hoje fotos da família quando viviam no casarão da Avenida Imperador.
Foto: Kid. Jr/SVM.

Embora tenha frequentado o casarão ainda criança, Myriam diz que as memórias diretas são limitadas. Ela conta que viveu mais próxima da avó em outro endereço, no Edifício Dona Bela, na Rua Coronel Ferraz, e que conheceu o casarão principalmente pelas histórias contadas pela família.

Já Ana cresceu ouvindo a mãe apontar para o imóvel sempre que passavam pela Avenida Imperador. “Minha mãe sempre me falava da casa. Toda vez que nós passávamos na Imperador, ela dizia: ‘A casa do vovô, a casa do vovô, essa casa era linda’”, relata Ana.

A bisneta conta que, durante anos, só conseguiu observar a fachada da residência. Ao reencontrar fotografias e documentos relacionados à família, após lê matéria do Diário do Nordeste no início de setembro, passou a reconstruir uma história que conhecia apenas por fragmentos. 

Para Ana, o casarão representa mais do que a antiga residência de um empresário. É um elo material com a história da família. “Eu olho para aquela casa hoje e já pedi que elas me levassem lá. Eu pretendo ir, pretendo ajudar no que for preciso”.

Este conteúdo é útil para você?

Newsletter

Escolha suas newsletters favoritas e mantenha-se informado

Colunistas