A trilha-sonora ideal para leitura deste texto é "Perigosa", das Frenéticas. Ou "Lança Perfume", da Rita Lee. Se nem uma, nem outra, uma terceira opção é "You are my love", da Liverpool Express. As três melodias dançam vivas pelos corredores da memória de quem frequentou os chamados clubes sociais de Fortaleza, cujo apogeu se deu nos anos 1970, quando a Capital era conhecida como "cidade dos clubes". Hoje, a maioria dos espaços resiste apenas na memória, com alicerces ocupados por prédios, repartições públicas e comércios.
O Comercial Clube é um exemplo dos que povoam as lembranças de quem era jovem entre as décadas de 1970 e 1980 - como o estudante Roberto Teixeira, 60, que se recusa a falar sobre o lugar no passado. "Porque, apesar de terem demolido para construir um espigão de 20 ou 30 andares na antiga Avenida Aquidabã, agora Historiador Raimundo Girão, ele subsiste na memória dos que gostam muito de Fortaleza", poetisa Roberto.
O maranhense, que morou na capital cearense entre 1972 e 1980, se emociona ao lembrar do "cheiro do mar" que exalava entre as atuais ruas Carlos Vasconcelos e Monsenhor Bruno - sensação que, inclusive, intitula um poema que ele escreveu em homenagem ao clube. "De madrugada, e vazando a aurora / O vento frio batendo / O cheiro do mar! (...) Às mesas e no salão / A empregada, o empresário, o proletário / A jovem dama desiludida, recém-iniciada / Moças curiosas, balzaquianas e mulheres do trottoir".
Comercial Clube, na Praia de Iracema.
Foto atual: Natinho Rodrigues
A pluralidade conferida ao Comercial, porém, não era regra. Entusiasta dos cinemas antigos de Fortaleza, como o sexagenário São Luiz, a professora aposentada Dulce Pinto, 76, pouco tem a dizer sobre a vida dos clubes sociais - mas denuncia na fala a desigualdade da Capital da época. "Eu não era grande frequentadora. Só ia mesmo quando era uma festa de formatura no Náutico; as tertúlias no Maguari. As festas eram boas. Mas era mais coisa de elite, dos mais ricos, que tinham ações dos clubes, principalmente do Náutico", relembra.
Restrito
Mesmo quando o espaço fincava raízes na periferia, o acesso era restrito, como descreve o historiador Miguel Ângelo de Azevedo, o Nirez. Era o caso do Clube de Regatas, cujo espaço reformado abriga, hoje, o Cuca da Barra do Ceará. "Ficava na Barra, mas a frequência era mais o pessoal da elite. Eles promoviam festas, formaturas, não era exclusividade dos moradores próximos. Era um dos clubes mais importantes da cidade. Durante o tempo em que ele esteve em alta, era lá que eram escolhidos o Rei Momo e Rainha em todo carnaval", pontua.
Clube de Regatas, na Barra do Ceará.
Foto atual: Natinho Rodrigues
Além do Regatas, outros clubes deram espaço a equipamentos públicos: no antigo Jockey Clube Cearense, fundado nos anos 1940 e demolido em 2008, funciona, hoje, o Hospital da Mulher; a fachada da primeira sede do ainda existente Clube dos Diários é preservada por um banco privado, no Centro de Fortaleza. O Diários, aliás, saiu do cruzamento das ruas Barão do Rio Branco e Senador Alencar para se mudar à Praia do Futuro com o extinto Iracema, que também passou por dois pontos do Centro: um onde hoje funciona a Caixa Econômica da Praça do Ferreira, outro na atual sede da Secretaria de Finanças de Fortaleza.
Jockey Club, no bairro homônimo.
Foto atual: Natinho Rodrigues
Clube dos Diários, no bairro Manoel Dias Branco.
Foto atual: Natinho Rodrigues
Saudosismo
Se o sucesso dos clubes veio com a derrocada dos grandes cinemas, o surgimento de novos hábitos de lazer os levou ao declínio, como analisa Nirez. Os poucos que resistiram, contudo, são gigantes: como Náutico Atlético Cearense (NAC) e Ideal Clube, ambos na Regional II. "Os sócios eram grandes comerciantes e industriais, fizeram sedes suntuosas. Até hoje são mais elitistas, os outros eram mais pobres. Por isso resistiram", afirma o historiador.
Entretanto, o presidente do Náutico, Jardson Cruz, aponta que manter o local funcionando é um desafio diário. "Precisamos renovar o nosso quadro, trazer filhos e netos dos sócios, fazer festas mais jovens. Sempre buscamos uma mescla do passado com o presente. Dos 16 mil sócios que o clube já teve, sobraram 1.800 - e 35% deles estão inadimplentes", lamenta.
Apesar disso, com otimismo e respeito à história dos clubes e da cidade, Jardson sentencia: "O Náutico completou, neste mês, 90 anos, e é referência para a sociedade. É onde grandes acontecimentos e competições históricas foram sediados, e resiste porque é um patrimônio. O clube nunca vai morrer, mas não pode viver de saudosismo".