Casarão histórico de R$ 4,7 milhões é danificado por obra de vizinho em Fortaleza; veja imagens

Imóvel localizado na Avenida Imperador possui tombamento provisório desde 2012.

Escrito por João Lima Neto joao.lima@svm.com.br
25 de Agosto de 2026 - 06:00 (Atualizado às 06:22)
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Legenda: Prédio teve fachada alterada com muro construído em mureta.
Foto: Tgiago Gadelha/SVM.

Quem passa pela Avenida Imperador, no Centro de Fortaleza, talvez não perceba a história preservada nas antigas construções que ainda resistem na paisagem urbana. No número 1313, porém, uma alteração chama atenção de quem passa. Conhecido por moradores da região como o “prédio do Dnocs”, o casarão, que hoje pertence à União e está cedido ao Município de Icapuí para a implantação de uma casa de apoio, ganhou um muro que mudou a configuração visual da fachada.

Com base em uma postagem no Instagram do projeto "Fortaleza a Pé", do educador e turismólogo Gerson Linhares, que denunciou a descaracterização do bem tombado provisoriamente, a reportagem do Diário do Nordeste esteve no casarão para entender o caso e descobriu um problema ainda mais grave que o muro: danos no interior da residência histórica provocados por uma obra realizada no imóvel vizinho.

Área de entrada de prédio estava com entulho e com cômodos com parede quebrada com areia.
Legenda: Área de entrada de prédio estava com entulho e com cômodos com parede quebrada com areia.
Foto: Divulgação/Prefeitura de Icapuí.

Fotografias e vídeos de áreas internas do imóvel, enviados pelo município de Icapuí, revelam paredes rompidas, trechos de alvenaria expostos e restos de materiais de construção espalhados pelos cômodos.

Obra foi alvo de autuação

Antes mesmo da mobilização sobre o prédio em rede social, a situação já havia provocado o poder público. A Agência de Fiscalização de Fortaleza (Agefis) autuou o dono da obra no dia 10 de agosto, quando constatou irregularidades relacionadas à execução da obra:

  • Art. 828: a obra foi autuada por não apresentar o  Plano de Gerenciamento de Resíduos Sólidos (PGRS/PGRCC) quando exigido. A norma pede que o responsável tenha ou apresente o plano devidamente licenciado pelo Município.
  • Art. 835: a fiscalização apontou que a obra foi executada sem a devida licença municipal. O dispositivo caracteriza como infração a execução de obra ou serviço de reparo sem licença.
  • Art. 845: danificação de construções ou conjuntos arquitetônicos integrantes do patrimônio cultural ou inseridos em áreas de proteção.

Como o casarão possui tombamento provisório, a Agefis declarou que "eventuais danos, destruição, mutilação ou descaracterização de elementos protegidos podem resultar em medidas e penalidades previstas na legislação".

Veja antes e depois de alteração na fachada:

Os responsáveis poderão ser submetidos às medidas previstas na legislação, inclusive aquelas relacionadas à recomposição ou restauração do bem.

Segundo a Agefis, o responsável pela obra ainda está dentro do prazo legal para apresentação de defesa sobre as infrações. A reportagem procurou a construtora envolvida no caso, mas as ligações não foram atendida. O espaço segue aberto para manifestação. 

Entulho e paredes quebradas 

As fotografias e vídeos aos quais a reportagem teve acesso, registrados por seguranças do município de Icapuí e enviadas pela secretária da Saúde da cidade, Francisca Nathalia Barreto Rats, mostram que a área de entrada do casarão foi fechada pelo muro, com uma abertura em uma parede revestida por azulejos. O rompimento deixou tijolos e estruturas aparentes. No piso, há terra, pedaços de alvenaria e outros resíduos.

Em outra imagem, há uma área externa com trecho de parede rompido e tijolos expostos, além de vegetação, galhos e materiais espalhados pelo espaço.

A pasta acompanha a situação porque o Município recebeu da União a cessão do imóvel por 20 anos e pretende instalar no local uma casa de acolhimento.

Nathalia Barreto afirma que a Prefeitura ainda não iniciou a reforma prevista para o casarão e que não foi responsável pelas intervenções encontradas no imóvel. Segundo a secretária, a obra vizinha teria avançado sobre uma área pertencente ao imóvel cedido ao Município.

“A gente não mandou levantar um tijolo lá. O que a gente só fez foi uma limpeza", informou a gestora.

Casarão já foi residência de uma família

Fachada de casarão chama atenção por grande rachadura.
Legenda: Fachada de casarão chama atenção por grande rachadura.
Foto: Thiago Gadelha/SVM.

A história do imóvel começa muito antes de ser um prédio usado pelo Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs). Em edição de revista de Ciências Sociais, de 2008, o professor e pesquisador Gilmar de Carvalho conta a história dos primeiros moradores da casa: a família Markan.

No casarão, viveu Joaquim Markan, empresário ligado à fabricação de cigarros em Fortaleza. O filho dele, Geraldo Markan, nasceu na residência em 5 de janeiro de 1929, apontando que o imóvel deve possuir mais de 100 anos. 

O antropólogo Geraldo Markan tornou-se uma referência da cultura cearense nas últimas décadas do século XX. Deu forte e marcante contribuição ao ensino de Antropologia na Universidade Federal do Ceará (UFC). Ele circulava pelos meios literário, teatral e das artes plásticas

Décadas depois, após a saída da família, o imóvel passou a integrar a história do Dnocs. A publicação "80 anos da pesca e piscicultura do Dnocs (1932–2012)" registra que o Serviço de Piscicultura do órgão púbico passou por diferentes endereços até chegar ao "prédio próprio adquirido em 1956”.

Placa do Dnocs ainda é vista na fachada do casarão, localizado na Avenida Imperador.
Legenda: Placa do Dnocs ainda é vista na fachada do casarão, localizado na Avenida Imperador.
Foto: Thiago Gadelha.

O casarão passou a abrigar o Serviço de Piscicultura, responsável por atividades relacionadas à criação de peixes e ao combate às piranhas, com postos também no interior.

O arquivista e pesquisador Miguel Ângelo de Azevedo, o Nirez, que trabalhou no órgão, lembra da rotina. “Quando eu entrei foi exatamente lá, ele abrigava o serviço de piscicultura. Tinha um grande movimento porque atendia todo o Nordeste".

O endereço também teve relação com a pesquisa científica. O Museu Rodolpho von Ihering foi inaugurado no local em 15 de setembro de 1958, segundo a publicação histórica.

Tombamento exige preservação

O casarão possui tombamento provisório municipal desde 2012. Por essa condição, intervenções que possam afetar características protegidas estão sujeitas à análise e ao acompanhamento da Secretaria Municipal da Cultura de Fortaleza (Secultfor), por meio da Coordenadoria de Patrimônio Histórico-Cultural (CPHC).

Sobre a estrutura de tijolos construída sobre a mureta da entrada, a Secultfor informou que registros fotográficos de 2025 já demonstravam que o muro estava erguido naquele período. Assim, a estrutura não seria uma intervenção recente relacionada à atual cessão do prédio ao Município de Icapuí.

A CPHC considera que o imóvel necessita de recuperação e informou que solicitará a recuperação da fachada, tendo como referência as características existentes à época do tombamento provisório, em 2012.

A Superintendência do Patrimônio da União no Ceará (SPU-CE) confirmou que o contrato com Icapuí prevê obras de adequação e melhorias no casarão. O órgão, entretanto, informou que não tem conhecimento sobre intervenções na fachada.

A Superintendência acrescentou que poderá notificar a Prefeitura para prestar esclarecimentos, caso seja necessário.

Do Dnocs à cessão para Icapuí

Francisca Nathalia Barreto Rats afirma que o Município de Icapuí possui projeto, planta e orçamento para a reforma, mas ainda depende de recursos para iniciar a intervenção.

Segundo ela, a Prefeitura também recebeu orientação sobre a necessidade de preservar as características arquitetônicas do prédio: “Eles [SPU e Secultfor] avisaram à gente que lá não pode ser um engenheiro. Porque tem que manter toda a arquitetura".

R$ 4,7 milhões
foi a última avaliação do casarão divulgada pela SPU, em janeiro deste ano, no extrato de contrato de cessão ao município de Icapuí.

A secretária afirma que a Prefeitura pretende realizar intervenções apenas depois de obter os recursos necessários e seguindo as exigências relacionadas ao patrimônio.

Falta educação patrimonial, alerta pesquisador  

Turismólogo percorre ruas do Centro de Fortaleza em passeios com alunos e turistas.
Legenda: Turismólogo percorre ruas do Centro de Fortaleza em passeios com alunos e turistas.
Foto: Reprodução/Instagram.

Para Gerson Linhares, responsável por trazer à tona nas redes sociais o problema do casarão, a alteração na fachada representa mais do que uma mudança física em um prédio antigo.

O pesquisador e turismólogo, que há cerca de 30 anos trabalha com patrimônio histórico em Fortaleza, considera que intervenções contribuem para a perda das referências que ajudam a contar a história da cidade.

É inacreditável a gente ver o patrimônio sendo destruído, sendo descaracterizado, não tendo servidores, não tendo funcionário. Esse não é o único, né? Tem vários lá no Centro, com esse mesmo problema.
Gerson Linhares
Turismólogo e pesquisador

Segundo Gerson, o abandono de imóveis históricos é um problema que se agravou nos últimos anos. Ele aponta a falta de manutenção, de funcionários e de utilização dos prédios como fatores que contribuem para a deterioração do patrimônio.

“De 10 anos para cá, a gente está vendo que o Centro Histórico está ficando verdadeiramente esquecido. Você vê as edificações sendo invadidas por vândalos, você vê o descaso mesmo, o fechamento dessas edificações, sem dar uma funcionalidade".

O pesquisador defende que a preservação precisa estar acompanhada de ações de educação patrimonial, tanto para a população quanto para os gestores públicos.

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