Fábrica no CE poderá produzir até 4 mil curativos de pele de tilápia por dia

Expectativa é que o projeto industrial esteja em pleno funcionamento em 2028.

Escrito por Clarice Nascimento clarice.nascimento@svm.com.br
19 de Agosto de 2026 - 06:00
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Legenda: 25% da produção da fábrica sendo destinada à demanda de saúde do país, como hospitais e o SUS.
Foto: Natinho Rodrigues/SVM.

O curativo biológico feito a partir da pele de tilápia liofilizada será produzido em larga escala no Ceará. A primeira fábrica do mundo dedicada à produção do material inovador será instalada em Jaguaribara, no Vale do Jaguaribe. A expectativa é que o projeto industrial já esteja em pleno funcionamento em 2028.

Voltado para o tratamento de queimaduras e de outras condições, o curativo desenvolvido pela Universidade Federal do Ceará (UFC) poderá ser comercializado para uso médico em empresas, hospitais e no Sistema Único de Saúde (SUS), além de abastecer o mercado internacional. 

Em entrevista ao Diário do Nordeste, o secretário de Desenvolvimento Econômico do Ceará (SDE), Fábio Feijó, explica que a fábrica irá aproveitar o resíduo da produção de filé de tilápia da região de Jaguaribara para a fabricação da tecnologia revolucionária. 

“Temos uma pesquisa que se tornou uma patente e essa patente agora vai virar uma indústria. Isso por si só já denota que o Estado está exportando e transformando pesquisa e desenvolvimento em ativo econômico. Além disso, é um resíduo se transformando em recurso e movimentando a economia da região”, declara.  

O projeto industrial será conduzido pelo Consórcio Biotec, por meio da Inova Medical. A expectativa é que sejam produzidas cerca de 4 mil unidades por dia, segundo Feijó.

O gestor da SDE destaca também que a estimativa da empresa investidora é de 50% de tudo que for produzido em solo cearense será exportado para o mercado exterior, com 25% da produção sendo destinada à demanda de saúde do Brasil

Incentivo estatal e atrativos para exportação

O município de Jaguaribara foi escolhido por ser um dos maiores produtores de tilápia do país e situar-se próximo a Orós, outro grande produtor do Estado. Com essa vizinhança geográfica, a fábrica terá uma cadeia de matéria-prima quase ininterrupta. “Se consumirem 100% da produção de lá (Jaguaribara), estão próximos do segundo local”, afirma Feijó. 

Para o coordenador geral da Pesquisa da Pele de Tilápia e presidente do Instituto de Apoio ao Queimado, Edmar Maciel, instalar a indústria no interior é valorizar os estudos da Universidade e a cidade que foi essencial para o desenvolvimento da patente. 

“Nada mais justo que essa fábrica ficasse aqui. Isso foi um trabalho hercúleo e também do professor Odorico Moraes, que batalhou muito para que essa pele ficasse em Jaguaribara, porque tudo se iniciou em Jaguaribara. A primeira vez que nós fomos conhecer piscicultura foi em Jaguaribara. Trouxemos os primeiros peixes para extrair pele e estudar durante anos”, afirma.

Curativo biológico criado no Ceará é usado em seres humanos para acelerar recuperação de queimaduras
Legenda: Curativo biológico criado no Ceará é usado em seres humanos para acelerar recuperação de queimaduras
Foto: Saulo Roberto

Para a instalação da fábrica, o Governo do Ceará e a Prefeitura de Jaguaribara fecharam um acordo em que o município doa o terreno para o Estado e este construirá uma infraestrutura física, conforme explica Feijó. 

Ou seja, a estrutura final pertencerá ao patrimônio público e será alugada para a empresa de modo a reduzir o custo inicial de investimento privado e fixar a operação no território cearense.

O início da construção está previsto para o fim de 2026, com testes operacionais no encerramento de 2027 e inauguração com plena atividade fabril em 2028. 

A negociação de incentivo estatal tem como base o Fundo de Desenvolvimento Industrial (FDI) do Ceará que concede incentivos fiscais como financiamento ou redução proporcional do ICMS. A operacionalização é gerida pela Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará (Adece), bem como o monitoramento dos acordos firmados. 

Essa metodologia já é aplicada em fábricas do setor têxtil e calçadista. O diferencial, segundo o gestor, é que a instalação no Vale do Jaguaribe requer um modelo que tenha segurança biofarmacêutica.

“Os galpões têm que ter toda uma construção voltada para a biossegurança. Por exemplo, não podemos ter ar-condicionado padrão, tem que ser produtos especiais, no estilo de hospitais que trabalham com áreas de risco. Precisam ter um filtro especial, não podem gelar mais ou menos”, salienta. 

Em termos financeiros, serão aplicados cerca de R$52 milhões nos primeiros três anos de produção, detalha Feijó, sendo R$9 milhões destinados para iniciar as obras ainda neste ano. O faturamento projetado é de R$58 milhões já no primeiro ano. Após o terceiro ano de operações, a estimativa é que o valor salte para mais de R$130 milhões anuais. 

Com a chegada da bioindústria, Jaguaribara poderá ganhar 200 empregos diretos, com potencial de expansão para 300 oportunidades que pagarão salários mais vantajosos por se tratar de uma biotecnologia. 

“A transformação vai acontecer num município pequeno, onde praticamente a vocação econômica dele é só na produção de tilápia, e vai agora ter uma indústria de alto valor agregado, pagando média salarial de indústria de biotecnologia que paga até acima do que a indústria tradicional”, ressalta Feijó. 

“Traz empregos para a região e com certeza tira um produto de descarte que polui o meio ambiente, que a pele da tilápia é jogada fora, é um produto de descarte que vai para o lixo e agora passa a beneficiar pacientes humanos, veterinários com queimaduras, feridas, reconstrução de canal vaginal, nas mais diversas utilidades”
Edmar Maciel
presidente do Instituto de Apoio ao Queimado e coordenador geral da Pesquisa da Pele de Tilápia

Pele é desidratada para ser facilmente transportada

A tecnologia envolvendo a pele de tilápia usava, inicialmente, a preservação do tecido por meio do glicerol, substância que atuava na desinfecção, conservação e manutenção da estrutura histológica e do colágeno tipo 1. No entanto, houve algumas limitações que atrapalharam o avanço da tecnologia.

Com o glicerol, a pele tinha validade de uso de apenas semanas, tornando-se perecível rapidamente, e era necessário uma complexa logística para refrigeração e envio. Para contornar as barreiras, a UFC desenvolveu a pele liofilizada, que consiste em uma desidratação profunda para conservação do biomaterial por pelo menos dois anos. 

50% da patente da pele de tilápia liofilizada é da UFC, que receberá royalties proporcionais da bioindústria.
Legenda: 50% da patente da pele de tilápia liofilizada é da UFC, que receberá royalties proporcionais da bioindústria.
Foto: Divulgação/UFC.

“É fácil de transportar, levar para qualquer lugar do mundo e, quando chega no hospital, basta hidratar a pele e ela já se torna aplicável. Então, se torna uma economia na questão da logística de conservação”, explica Feijó. Segundo o gestor, esse processo está em segredo industrial “para ninguém copiar”.  

A facilitação para transporte é ainda mais benéfica porque a instalação se dará em um Estado com boa localização para o exterior, como explana o gestor da SDE.

“Não existe nenhum local melhor no mundo para você exportar utilizado um porto ou aeroporto do que o Ceará. Nós temos o porto e o aeroporto do Brasil mais próximos da Europa, África, leste dos Estados Unidos e leste do Canadá, além do México”, diz. 

Curativo é patenteado pela UFC

Em janeiro de 2025, a UFC lançou um edital voltado para empresas interessadas em produzir curativos com esse biomaterial. Meses depois, o Grupo Biotec venceu a concorrência e se tornou responsável pela produção em larga escala do biomaterial. 

Assim, a concessão permite à empresa licença exclusiva para uso, desenvolvimento, produção e comercialização do curativo de pele de tilápia liofilizada. A UFC detém 50% da patente e a outra metade é dividida entre o professor Edmar Maciel e o cirurgião plástico pernambucano Marcelo Borges de Miranda, coinventor da técnica. 

A partir da oferta pública, a Biotec poderá explorar comercialmente a patente e se compromete a pagar royalties proporcionais aos inventores e à Universidade assim que a comercialização for iniciada, explica Maciel em entrevista.

“Nós somos pesquisadores. O que nós vamos fazer com essa empresa é transferir a tecnologia de produção da pele liofilizada quando ela nos solicitar e transferir como é que se aplica em modelo humano e animal”, detalha o professor da UFC. 

Tecnologia cearense virou até episódio de série

Os estudos para o desenvolvimento do produto iniciaram em 2015, pela UFC. Até então, o uso de pele de animais em procedimentos medicinais não era novo. Os Estados Unidos, por exemplo, já utilizavam a pele de porco para o tratamento de queimaduras de segundo grau e em feridas agudas ou crônicas.

O Núcleo de Pesquisas e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM) da Universidade encontrou na pele da tilápia, peixe mais consumido do país, uma alternativa de matéria-prima porque contém grande conteúdo de colágeno tipo I. 

Essa proteína, ao interagir com feridas ou queimaduras, acelera a cicatrização e a reparação da matriz dérmica, evita a perda de líquido e promove uma barreira à invasão bacteriana, aliviando a dor do paciente.

A tecnologia já foi usada no tratamento de úlceras, em cirurgias de reconstrução vaginal, na redesignação sexual e na veterinária.

Os últimos estudos resultaram em métodos cirúrgicos que reduzem a morbidade pós-operatória, os custos das cirurgias e a necessidade de autoenxerto — procedimento cirúrgico em que um tecido é retirado de uma parte do corpo do próprio paciente e transplantado em outra área dele.

Além da pele liofilizada, a UFC também desenvolveu pesquisas com o tecido no glicerol, a matriz acelular e o colágeno purificado de pele de tilápia. Os estudos com esses produtos geraram, até o momento, 41 publicações em revistas científicas nacionais e internacionais, além de 25 premiações, todas em primeiro lugar. 

A Universidade depositou quatro patentes com produtos desenvolvidos a partir da pele da tilápia que já foram utilizados em missões médicas em diversos locais do mundo. Para além do reconhecimento médico e científico, a invenção já foi mencionada em produções audiovisuais como Grey’s Anatomy, The Good Doctor, The Resident e One Piece.

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