Curativo de pele de tilápia deve ser comercializado em cerca de três anos, diz pesquisador
Tecnologia cearense é voltada para o tratamento de queimaduras e de outras condições
O curativo biológico feito a partir da pele de tilápia liofilizada deve passar a ser comercializado para empresas, hospitais e ao Sistema Único de Saúde (SUS) em aproximadamente três anos. A tecnologia cearense desenvolvida pela Universidade Federal do Ceará (UFC) é voltada para o tratamento de queimaduras e de outras condições.
Em junho, a instituição informou, em publicação no Diário Oficial da União (DOU), que o Grupo Biotec venceu a concorrência de oferta tecnológica e será responsável pela produção em larga escala do biomaterial. O edital para seleção foi aberto no início deste ano.
Em entrevista ao Diário do Nordeste, o médico Edmar Maciel, cirurgião plástico e coordenador geral da pesquisa da pele de tilápia na UFC, revelou que a previsão média é de que o curativo chegará ao mercado em 2028 — cerca de três anos após o fechamento oficial do acordo entre a empresa e a instituição.
"A Biotec, quando assinar o contrato, algo que deve acontecer até outubro, vai pegar esse produto, registrar na Anvisa, construir a fábrica, para, depois, comercializá-lo no Brasil e no Exterior."
Apesar da previsão de quando poderá estar nas prateleiras, ainda não há informações sobre qual será o preço cobrado pelo produto.
'Momento de orgulho'
Inovadora, a solução é resultado de uma década de estudos realizados por pesquisadores da UFC e pelo médico Edmar Maciel.
"É um trabalho de 10 anos que estamos trazendo a ideia e o produto de bancada e fazendo com que ele chegue à população mais carente, já que 97% dos pacientes que se queimam não têm plano de saúde", detalha o cirurgião plástico.
É um momento de orgulho, não só por participar de tudo isso, é de poder estar com esse grupo de 380 pesquisadores que participou desse desenvolvimento."
A tecnologia foi criada a partir da pele do peixe mais consumido no País, a tilápia-do-Nilo, e já foi usada no tratamento de úlceras, em cirurgias de reconstrução vaginal, na redesignação sexual e na veterinária.
Os estudos envolvendo o produto resultaram em métodos cirúrgicos que reduzem a morbidade pós-operatória, os custos das cirurgias e a necessidade de autoenxerto — procedimento cirúrgico em que um tecido é retirado de uma parte do corpo do próprio paciente e transplantado em outra área do mesmo.
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Tecnologia cearense premiada
Quando a UFC iniciou os estudos para o desenvolvimento do produto, em 2015, o uso de pele de animais em procedimento medicinais não era novo. Nos Estados Unidos, a pele de porco já era utilizada para o tratamento de queimaduras de segundo grau e em feridas agudas ou crônicas.
No entanto, na época, a medicina brasileira ainda não tinha uma solução do tipo e a importação do produto norte-americano era algo comercialmente inviável, então as pesquisas com a pele da tilápia preencheram essa demanda.
O material mostrou-se adequado por ter grande conteúdo de colágeno tipo I. Ao interagir com feridas ou queimaduras, essa proteína acelera a cicatrização e a reparação da matriz dérmica, evitando perda de líquido, promovendo uma barreira à invasão bacteriana e aliviando a dor do paciente.
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Segundo informações da UFC, também foram desenvolvidos, além da pele liofilizada, a pele no glicerol, a matriz acelular e o colágeno purificado de pele de tilápia. Os estudos com esses produtos geraram, até o momento, 41 publicações em revistas científicas nacionais e internacionais, além de 25 premiações, todas em primeiro lugar.
Ao todo, a UFC depositou quatro patentes com produtos desenvolvidos a partir da pele da tilápia que já foram utilizados em missões médicas em diversos locais do mundo.