Mistério de Itatira: fenômeno causou pânico em escola do Sertão do CE em 2010

Estudantes entraram em transe, mudaram voz e criaram força extrema.

Escrito por
Nícolas Paulino nicolas.paulino@svm.com.br
(Atualizado às 07:45)
Imagem desfocada mostrando a interação próxima entre duas pessoas, com detalhes de cores vivas em suas roupas (azul, branco e vermelho) contra um fundo escuro. Uma mulher adulta segura as mãos de uma estudante fardada em Itatira.
Legenda: Estudantes ficavam em transe e tinham alterações na voz e no comportamento.
Foto: Antonio Carlos Alves/Arquivo DN.

Há pouco mais de uma década, o distrito de Cachoeira BR, em Itatira, no Sertão de Canindé, vivenciou semanas de perplexidade que ainda trazem desconforto nas conversas de moradores. O “fenômeno de Itatira” envolveu uma sucessão de episódios intrigantes que mobilizaram ciência, religião e autoridades de saúde na busca por respostas.

O caso transformou o cotidiano da Escola de Ensino Fundamental Eduardo Barbosa por semanas, atingindo 32 alunas e um aluno. Os sintomas coletivos eram alarmantes: transes, perda de consciência, agressividade, mudanças na voz e uma força física desproporcional para a idade.

Tudo começou no dia 2 de junho de 2010. Os primeiros relatos descreviam uma “onda” de transtornos. Jovens entre 11 e 16 anos começaram a apresentar dores musculares intensas, sufocamento, batimentos cardíacos acelerados e episódios de transe

Quando em crise, as estudantes demonstravam uma agressividade incomum e alteração drástica na voz. Contudo, após o transe, se recuperavam e voltavam a conversar normalmente, como se nada tivesse acontecido.

Cena borrada de uma mulher de blusa preta segurando uma menina de uniforme branco e azul desmaiada nos braços.
Legenda: Algumas garotas relataram ter sido vítimas pelo menos cinco vezes.
Foto: Antonio Carlos Alves/Arquivo DN.

O Diário do Nordeste cobriu o caso por cerca de três semanas. Uma jovem de 16 anos detalhou a progressão do ataque: “começa com um calafrio, depois as mãos ficam trêmulas... um sufocamento toma conta do tórax, as pernas não seguram o corpo e aos poucos vem o desmaio”. 

Um garoto de 14 anos descreveu uma sensação iminente de fatalidade, afirmando que sentia uma “agitação que dá vontade de correr, gritar e pedir para não morrer”. 

Outra jovem, que na época tinha 18 anos, relatou que a experiência era acompanhada de uma força mental. “A voz fica enrolada e grossa e a força que penetra na mente pede que reze missa e faça orações”.

Alguns depoimentos narravam a presença espiritual de um rapaz uniformizado que ficava olhando e falava com os estudantes, com uma voz também alterada.

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Investigação psicológica

Diante do pânico, as aulas foram suspensas e as autoridades locais buscaram auxílio técnico. No dia 11 de junho de 2010, o padre e parapsicólogo Élio Correia Freitas visitou a unidade para avaliar as jovens em uma sala reservada. 

Sua conclusão afastou teses sobrenaturais, apontando para um quadro conhecido como “histeria coletiva”, ou, na terminologia atual, Doença Psicogênica de Massa (DPM). O termo anterior caiu em desuso por soar pejorativo e sexista, ao atrelar descontrole emocional apenas às mulheres.

Para Freitas, o fenômeno se devia ao afloramento de angústias, dores e sofrimentos mentais gravados no inconsciente.

“Em nenhum caso tem demônio, tudo é uma questão provocada pelo inconsciente da cabeça dessas jovens”, explicou.

Ele defendeu que a solução residia no acompanhamento psiquiátrico, pois as vítimas sofriam de um “sufocamento no peito” que precisava ser desabafado. “Tratá-las bem é o primeiro passo. Elas precisam desabafar, falar sobre o que está criando esse tipo de comportamento. Vamos respeitar as religiões, mas, nesse momento, a questão não é religiosa, é médica”, frisou. 

Debate de interpretações

Porém, enquanto profissionais de saúde buscavam causas no funcionamento da mente, lideranças religiosas divergiam. Outro padre da Igreja Católica optou pela cautela, declarando que seria preciso “aprofundar para não dizer coisas sem nenhum sentido”. 

Por outro lado, segmentos evangélicos sugeriram uma origem “maligna” ou a ação de espíritos de jovens que haviam falecido em acidentes na região e que estariam “vagando precisando de reza”.

Já a Federação Espírita do Ceará ofereceu uma terceira via: a mediunidade. Um representante ponderou que os sintomas eram sinais claros de uma inteligência extracorpórea buscando auxílio. 

Celebração religiosa noturna em frente a uma igreja em Itatira. Um garoto segura um estandarte vermelho do Coração de Jesus em uma praça decorada com varais de luzes e bandeirinhas, rodeado por fiéis reunidos para a ocasião.
Legenda: Assustada, comunidade de Cachoeira BR chegou a realizar missa colocando jovens nas intenções.
Foto: Antonio Carlos Alves/Arquivo DN.

Retorno tenso

A tentativa de retomar a normalidade no dia 14 de junho foi frustrada. A partir das 17 horas, quando alunos do turno da noite chegavam à escola, novos episódios de transe eclodiram ainda no pátio externo. 

Um jovem de 14 anos foi tomado por uma “força estranha” e seis homens tiveram dificuldade em contê-lo; ele precisou ser amarrado em cima de uma caminhonete para ser transportado a um hospital de Canindé.

No mesmo dia, uma jovem com a voz alterada profetizava “grandes acidentes” na região para que a população acreditasse no fenômeno. O impacto social na pequena comunidade, distante 50 km do centro de Itatira, foi profundo. 

Tentativas de mudança

Até o dia 23 de junho, o clima de assombro era tamanho que muitos pais, como um senhor de 62 anos que tinha três filhos na escola, tentavam transferir os alunos para outras cidades.

O caso de Itatira se encerrou sem uma resposta concludente, permanecendo como um capítulo intrigante. Como resumiu um morador de 61 anos na época: “Isso é coisa de outro mundo. Vou procurar um cantinho para que eu possa viver sossegado, aqui está muito carregado”.

Em 2026, o Diário do Nordeste procurou o padre Élio Freitas para entender os rumos da investigação. O sacerdote afirma que recomendou o encaminhamento para psicólogos e psiquiatras de hospitais da região e sugeriu buscar a gestão municipal.

A reportagem também contatou o secretário municipal de Educação do período, mas ele optou por não se manifestar. Disse apenas que o caso deu bastante dor de cabeça. “Não gosto nem de pensar”, resumiu.

Ainda contatou a Prefeitura de Itatira, questionando como o município fornece acompanhamento psicológico para os estudantes e como a saúde mental é debatida no dia a dia, atualmente, mas não conseguiu retorno nem de ligações telefônicas nem pelas redes sociais.

Adolescentes são mais vulneráveis

O suposto caso de Doença Psicogênica de Massa ocorrido na cidade de Itatira revela a necessidade de uma análise técnica sobre fenômenos psicológicos coletivos. 

Segundo a psicóloga Niveamara Sidrac, presidente do Conselho Regional de Psicologia da 11ª Região (CRP-11), esse quadro se caracteriza pela conversão de sintomas psicológicos em manifestações físicas, motoras ou sensoriais que não possuem explicação neurológica ou orgânica. 

“Se você não encontrar nenhum fator físico, você diz que sintomas psicológicos estão se expressando pelo físico”, afirma. No episódio local, as alterações de vozes e estados de transe foram sintomas clássicos de reações psicogênicas que mimetizam as tensões do ambiente.

Os adolescentes são um público mais vulnerável a esses surtos devido à fase de busca por identidade e à forte necessidade de pertencimento a grupos. 

De acordo com Sidrac, a adolescência é marcada por instabilidade emocional e pela reprodução de comportamentos coletivos, o que é potencializado pelos “neurônios-espelho”, que levam à imitação inconsciente de ações observadas no outro. 

Crenças e ambiente devem ser considerados

A origem desses episódios não é meramente individual, mas fruto de um “estresse ambiental” combinado a fatores culturais. Em Itatira, ela sugere que o ambiente escolar, muitas vezes fechado, barulhento e lotado, somado ao calor intenso do sertão, pode atuar como gatilho. 

A presidente do CRP-11 ressalta ainda que crenças em fenômenos sobrenaturais moldam os sintomas: “Se dentro das crenças culturais do local, eles estavam vivendo um momento de sobrenatural, eles vão acabar repetindo isso”. 

Para Niveamara , é fundamental “parar de avaliar as questões de transtornos mentais sob a ótica apenas individual”, devendo se compreender todo o território onde o fenômeno surge e descartando possíveis dramatizações intencionais.

No contexto da campanha Janeiro Branco, a psicóloga defende uma visão ampliada da saúde mental, que deve ser tratada como saúde coletiva e integral. Ela enfatiza que o bem-estar psíquico depende de qualidade de vida, lazer, condições dignas de trabalho, moradia e relações sociais saudáveis, indo muito além do atendimento em consultório. 

A especialista destaca que o ambiente de trabalho ou estudo precarizado adoece o indivíduo, tornando o tratamento individualizado insuficiente se as causas estruturais e ambientais não forem abordadas.

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