Como alunos e professores usam IA nas escolas do Ceará
Conselho Nacional de Educação prepara documento sobre uso de IA no ambiente escolar, entre vantagens e riscos.
Gerar resumos sobre um texto complicado. Elaborar atividades para dinâmicas em grupo. Ajustar a grafia de construções complexas. No fim, já se sabia: a inteligência artificial chegaria em todos os segmentos, inclusive na Educação. A tecnologia é realidade em escolas do Brasil e do mundo e, no Ceará, caminha entre vantagens e desafios.
Estudantes, professores e pesquisadores situam o panorama na lida diária, e garantem: a ideia é de que ferramentas virtuais sejam apoio, não substitutas da mente humana. No panorama geral dos termos, os números são expressivos.
Pesquisa TIC Educação 2024 – publicada em 2025 pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil, abrangendo as cinco regiões brasileiras – aponta que 37% dos estudantes de Ensino Fundamental e Médio utilizam plataformas e ferramentas de IA para realizar tarefas escolares. Quando se observa apenas o Ensino Médio, o percentual salta para 70%.
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No tocante aos professores, esse mesmo estudo revela que 43% dos docentes lançam mão de ferramentas de IA generativa na preparação de conteúdos didáticos. Ao se verificar apenas aqueles que lecionam no Ensino Médio, esse percentual cresce para 58%. Recursos de IA também têm sido utilizados por gestores das escolas e dos sistemas de ensino.
“A tendência é que a IA se torne cada vez mais integrada ao cotidiano escolar, tanto na personalização do ensino quanto no apoio ao planejamento docente. A forma de transmitir conteúdos deve se tornar mais dinâmica, com foco em resolução de problemas, análise crítica e interdisciplinaridade”, avalia Maria Rydleily de Albuquerque Leal.
Professora de Matemática da rede pública estadual de ensino, ela divide a rotina com o Diário do Nordeste em momento oportuno. Na última segunda-feira (23), a comissão do Conselho Nacional de Educação – criada para debater regras para uso de IA em escolas da educação básica e universidades – apresentou a versão inicial de um documento cujo parecer deve receber votos em 16 de março. O Ministério da Educação solicitou ajustes no texto.
Questões como a inclusão da inteligência artificial no currículo dos alunos e o uso da ferramenta pelos professores estão entre as regras. O conteúdo passou por um ano e meio de debates na comissão com especialistas, o Ministério da Educação e a Unesco. Após votação, vai para consulta pública e mais uma votação no plenário do conselho. Por fim, homologação do ministro Camilo Santana.
O uso de ferramentas como o Chat GPT para elaboração de atividades, planejamento de aulas, criação de avaliações contextualizadas e adaptação de conteúdos para estudantes com necessidades específicas, contudo, já são efetivas no cotidiano de Rydleily.
Ela também utiliza o Canva para produção de materiais didáticos mais visuais e organizados, e o Google Classroom como apoio na organização das atividades e comunicação com os alunos. “Comecei a utilizar IA de forma mais sistemática a partir de 2023, inicialmente para otimizar o planejamento e, posteriormente, para enriquecer as estratégias pedagógicas”, diz.
A escola onde trabalha – a EEEP Leopoldina Gonçalves Quezado, localizada em Aurora, município do interior cearense, distante 480 km de Fortaleza – aderiu parcialmente à tecnologia. Há incentivo ao uso de ferramentas digitais, mas coexistem limitações estruturais, a exemplo de acesso desigual à internet e a equipamentos.
Ainda assim, o uso de IA é presente em sala de aula, sobretudo como “ferramenta de apoio à aprendizagem e não como substituta do raciocínio do aluno”. Rydleily atua com dinâmicas em que os estudantes analisam respostas geradas por IA, identificam possíveis erros, aprimoram resoluções e comparam estratégias de resolução, especialmente em Matemática.
“Também proponho situações-problema nas quais os alunos precisam formular perguntas adequadas para obter respostas mais precisas da ferramenta, desenvolvendo pensamento crítico e letramento digital. A IA se torna produtiva quando mediada pelo professor e alinhada aos objetivos pedagógicos”, percebe.
“A escola não ganha ao ir contra a tecnologia”
Os desafios se sobressaem, porém. Entre os principais citados pela professora, estão formação docente adequada, infraestrutura tecnológica e risco de uso superficial das ferramentas. Em um contexto de alta conectividade, o maior entrave, segundo ela, é ensinar o aluno a utilizar a IA como apoio cognitivo, e não como atalho.
“Acredito que a IA se torna aliada quando trabalhamos ética digital, autoria, interpretação e resolução de problemas. O foco deve permanecer no desenvolvimento das competências, e não apenas na obtenção rápida de respostas. Mais do que transmitir informação, o papel do professor será mediar, orientar e desenvolver competências socioemocionais e cognitivas que a tecnologia não substitui”.
dos docentes lançam mão de ferramentas de IA generativa na preparação de conteúdos didáticos
A opinião ecoa no olhar do professor Ademar Celedônio, diretor de Ensino e Inovações de uma franquia de escolas privadas. Para ele, há três ideias centrais que devem orientar a regulação sobre o tema:
- Proteger o estudante;
- Preservar a responsabilidade pedagógica do professor;
- Estabelecer uma governança clara sobre o uso da inteligência artificial na escola, com critérios bem definidos.
O movimento, claro, envolve supervisão humana obrigatória em decisões sensíveis, regras claras sobre autoria, proteção de dados e limites de vigilância, além de transparência e rastreabilidade. Também passa, conforme observa, por formação contínua de professores e estudantes e responsabilização dos fornecedores de plataformas.
“A norma precisa deixar explícito onde a IA pode apoiar – como no planejamento, na personalização e no suporte ao professor – e onde não pode substituir o humano, como na avaliação formativa, em decisões pedagógicas e no uso de dados dos estudantes. Deve ser tratada como agenda de aprendizagem e proteção, não como corrida pela novidade”.
Ou seja, nas palavras do próprio mestre, a escola não ganha ao ir contra a tecnologia, mas ao formar cidadãos capazes de utilizá-la de maneira crítica e responsável.
Usar, mas sem abandonar métodos tradicionais
Marcos Isaac é um dos estudantes que até aqui tem equilibrado o uso de IA no aprendizado. Discente do curso de Letras da Universidade Federal do Ceará (UFC), ele é egresso da EEM Luíza Távora Promorar, no bairro Jardim das Oliveiras, em Fortaleza, e utiliza ferramentas digitais em casos específicos.
“Quando leio algum texto de difícil interpretação, peço à IA pra dar uma simplificada. Também peço para gerar perguntas e às vezes resumos, mas sempre com muito cuidado e atenção. As plataformas que costumo usar são o ChatGpt e o Gemini”, conta.
No posto de universitário, não costuma usar a tecnologia em sala de aula. Mas há dois anos, quando estudava na rede estadual de ensino, era diferente – em especial quando se tratava de trabalhos. Utilizava para ajustar alguma ideia ou corrigir algum texto, afinal “sempre tivemos facilidade no manejo”. A principal diferença proporcionada pelas ferramentas no dia a dia é o acesso mais rápido a informações, comparado a outros meios de pesquisa.
Resultado: sente que tem aprendido conteúdos de forma mais clara e fácil. “Recomendaria uso de IA, sim, mas não deixando os métodos tradicionais de estudos de lado. Defendo o uso moderado e consciente, somente como ferramenta de apoio, não como único instrumento de aprendizagem”. Quando questionado sobre como enxerga o futuro desse cenário, é enfático.
“Por um lado caminha para um lado sombrio, pois vemos alunos que jogam o trabalho no Chat GPT, por exemplo, e só ‘copiam e colam’, sem averiguar se a informação é verdadeira, sem saber do conteúdo. Ali ele não exerce o pensamento crítico, não estimula ideias. Então, pode impactar dessa forma negativa”.
No panorama da rede privada de ensino, impressões se repetem. O professor PA Damasceno sinaliza a necessidade de cuidado diante de ferramentas ainda em desenvolvimento. Ele utiliza a IA de forma pessoal para elaborar slides, organizar a estética de trabalhos ou analisar textos produzidos para materiais aos alunos. No entanto, quando encara o modus operandi das instituições em si, percebe que o uso da tecnologia “ainda é incipiente”.
“São mais os profissionais, dentro de cada área de ocupação, que a utilizam. Ao mesmo tempo, vivemos um momento dúbio em sala de aula porque, na prática diária de ensino-aprendizagem, há agora a proibição do uso do celular – mesmo com a emergência das tecnologias digitais”, dimensiona.
Não à toa, convida à reflexão: que tipo de informação queremos para a próxima geração de brasileiros? “O Brasil tem um fosso educacional gigantesco, que precisa ser vencido. A IA é um elemento a mais para ser discutido. Ela não faz nada só. O problema é como a gente ensina os alunos a usá-la com senso crítico, independência e autonomia, como um matemático usa uma calculadora científica. Ele sabe fazer o cálculo, mas, ao lançar mão da máquina, está acelerando o processo. O que a IA faz é isso, acelerar. A questão é ficar não só na produção, mas também na interpretação e na análise”.
O que diz a Secretaria de Educação
Indagada pela reportagem sobre a adoção de IA nas escolas públicas do Ceará neste ano, quais diretrizes são buscadas nesse processo e a quantas anda o desenvolvimento do Plano de Educação Digital do Estado – política pública voltada ao segmento – a Secretaria da Educação (Seduc-CE) diz que “orienta e promove a formação para que professores e gestores estejam aptos a utilizar a IA”.
Ao mesmo tempo, conforme a nota, “reconhece a autonomia da escola para fazer o uso, quer de forma transversal ou, ainda, em componentes curriculares ou eletivas que promovam a cultura digital, sendo um dos elementos a IA”.
De acordo com a pasta, há parceria com o Google para uso da ferramenta Gemini em todas as escolas da rede estadual. Além disso, encontra-se, em fase de elaboração, o Catálogo de Indicações do Uso Pedagógico de Inteligência Artificial 2026, com previsão para o mês de março. Entre outros passos listados pela Secretaria, está a formação de 738 professores da rede estadual, envolvendo 83 escolas de diferentes regiões do Ceará.
“A implementação da IA nas escolas não ocorre de forma impositiva ou restrita a disciplinas específicas. Após a formação, o uso da tecnologia passa a ser uma decisão pedagógica do professor, de acordo com o planejamento e os objetivos de aprendizagem de cada área”.
Quanto ao Plano de Educação Digital do Ceará, a pasta diz que é um documento orientador para que Seduc e escolas possam conduzir processos de atualização curricular e de desenvolvimento profissional docente. Atualmente, encontra-se em fase de diagramação.
Virtual e analógico juntos
O já mencionado Ademar Celedônio, diretor de Ensino e Inovações de uma franquia de escolas privadas, evoca mais um tipo de perspectiva considerando o contexto de inteligência artificial: a possibilidade da harmonia entre o virtual e o analógico.
Isso porque, segundo ele – bem como os professores e o estudante entrevistados nesta reportagem – observa-se um movimento de retomada e valorização de práticas mais analógicas, frequentemente associado às restrições ao uso de celulares em sala de aula.
Esse fenômeno, para o estudioso, reflete uma preocupação legítima com foco, atenção e qualidade da aprendizagem. Trata-se de um debate ocorrido em diversos países, e que agora também alcança universidades e faculdades no Brasil.
Na visão dele, contudo, há ressalvas. “Existe um risco quando medidas desse tipo deixam de considerar a intencionalidade pedagógica e passam a representar uma negação mais ampla da tecnologia. Proibir sem educar pode afastar a escola do papel formativo, especialmente diante das habilidades que os jovens precisarão desenvolver para o mundo contemporâneo”.
Não sem motivo, o professor acredita no equilíbrio e no papel das instituições escolares de estabelecer regras claras, alternar práticas analógicas e digitais e, sobretudo, ensinar o uso responsável e crítico da tecnologia, incluindo a inteligência artificial.
“Nesse contexto, o analógico não representa retrocesso, mas uma ferramenta complementar, capaz de promover maior concentração e aprofundamento cognitivo, enquanto o digital amplia possibilidades de criação, acesso à informação e desenvolvimento de novas competências”.
Imerso nesse processo de reflexão sobre IA nas escolas, Ademar Celedônio também é um dos responsáveis pelo Guia para Uso de Inteligência Artificial na Educação. O documento – gratuito para todos os professores de escolas públicas e privadas – é embasado em referências internacionais reconhecidas,a exemplo da Unesco e do Fórum Econômico Mundial.
Quem o ler, contextualiza o professor, encontrará orientações para estruturar processos institucionais, estabelecer diretrizes para o uso seguro e integração curricular da IA, definir requisitos para a formação docente e delimitar os papéis de estudantes e educadores, além de recomendações e curadoria de ferramentas.
Letramento para lidar com riscos da IA
Para ele, o letramento em IA para professores deve começar pela pedagogia e não necessariamente pela tecnologia. A questão central é identificar onde a IA pode gerar ganhos no cotidiano da escola. “Essa tecnologia pode ajudar no planejamento de aulas, na elaboração de atividades, adaptação dos materiais, feedback aos alunos , entre outros aspectos. Mas a mais eficaz tem que ser a prática e contextualizada, baseada em situações concretas”.
Ele defende que não são treinamentos técnicos e genéricos que ajudarão o professor. É essencial desenvolver uma cultura do uso crítico, que reconheça os limites, entenda as tendências da tecnologia e desenvolva o treinamento do uso adequado dela.
“É sempre importante ter a revisão humana, quando a IA é tratada como competência profissional, e não apenas analógica. Aí, sim, ela passa a atuar como ferramenta que amplifica o trabalho docente”.
IA também é reflexo de interesses
Pesquisador da Universidade Estadual do Ceará na área de IA e Ciência de Dados em Educação, além de membro do Comitê de Ciências Humanas e Sociais do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, João Batista Carvalho Nunes, por fim, destaca: escolas do Ceará, tanto públicas quanto privadas, não estão preparadas para inserir IA no cotidiano.
A chave para mudança, segundo ele, está na necessidade constante de preparação. “É preciso investir na formação em IA de todos os profissionais que trabalham na educação: professores, gestores e pessoal técnico-administrativo. Também é necessário garantir infraestrutura adequada, assim como desenvolver ferramentas de IA em sintonia com as necessidades e contexto da comunidade escolar”.
O pesquisador também frisa a existência de grandes interesses econômicos e políticos por trás das ferramentas de IA. Há vieses na forma como os sistemas de IA foram treinados capazes de reverberar em respostas preconceituosas.
“Isso precisa ser debatido nas escolas a fim de gerar uma consciência crítica em relação à IA. A tecnologia pode trazer benefícios ou malefícios dependendo de como ela é utilizada”. É difícil prever para onde caminhará o uso da IA nas escolas? Para João Batista, sim, sobretudo diante de um acelerado desenvolvimento científico e tecnológico.
“Precisamos garantir, todavia, que os sistemas de ensino estejam preparados para absorver essas mudanças e se reinventar, mas mantendo o papel de ajudar os estudantes a se desenvolverem plenamente nas múltiplas dimensões, fazendo crescer continuamente a ‘inteligência humana’”.