‘Voluntários da chuva’: Conheça trabalho de 550 moradores que medem água para levar esperança ao CE

Maioria dos pluviômetros é instalada dentro das casas dos habitantes.

Escrito por
Sofia Leite* producaodiario@svm.com.br
Imagem mostra um pluviômetro de matal em cima de um muro amarelo com uma plantação e o céu azul com nuvens ao fundo.
Legenda: Serviço de medição da chuva é realizado em todo o estado e não tem remuneração.
Foto: Francisco das Chagas do Livramento.

Todos os dias, às 6 horas da manhã, José Alencar de Freitas, conhecido apenas como Alencar, confere como está o pluviômetro instalado dentro de sua casa na cidade de Morrinhos, no interior do Ceará. Ele é responsável por informar à Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), por aplicativo de mensagens ou ligação, quanto choveu naquele ponto do município.

Os pluviômetros possuem uma proveta graduada na qual é feita a medição da água, relacionando o volume acumulado no corpo do equipamento com a chuva, sempre em milímetros (mm).

É por causa do trabalho de observação do pluviômetro, feito de forma voluntária, que a população tem acesso aos dados relacionados às chuvas e sabe se o "inverno" está sendo bom ou não. O sistema de medição das chuvas funciona dessa forma desde 1997. As informações passadas pelos voluntários todos os dias ficam disponíveis no site da Funceme.

Alencar não é o único que faz isso. São mais de 500 voluntários em todo o estado, um para cada pluviômetro do tipo convencional. O sistema de medição de chuva cearense é o mais denso do país. Isso quer dizer que ele é o mais bem distribuído, com pluviômetros em todos os municípios. Nos outros estados do Brasil, os medidores ficam concentrados em pontos específicos. No Ceará, além de todas as cidades terem pluviômetros, cada município tem mais de um equipamento.

Quem são os voluntários que medem a chuva no CE?

Dos 76 anos de vida de Alencar, já são mais de 20 dedicados a esse trabalho. E ele tem tudo registrado, cada chuva que já caiu em Morrinhos nesse período. Tudo está anotado em vários cadernos que ele juntou ao longo do tempo. Os cadernos vão sendo preenchidos e substituídos por outros, mas ele não deixa de registrar os milímetros de todas as chuvas no papel.

Alencar trabalhou na Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Ceará (Ematerce) por mais de 30 anos. Foi isso que o levou a ser voluntário da Funceme. Um colega do trabalho viu que ele tinha um bom terreno para colocar um medidor de chuva. Assim foi feito.

Eu só não gosto de uma coisa: quando eu saio na rua depois de uma chuva grande e as pessoas ficam me perguntando quanto choveu, como vai ser o inverno, se vai ser seco, se vai chover abaixo da média, porque isso eu não tenho como adivinhar, é função da Funceme. Eu só informo o que cai dentro do aparelho."
José Alencar de Freitas
Voluntário da Funceme

Apesar de gostar do trabalho, Alencar pensa em passar a tarefa para outra pessoa, porque pretende se mudar para Fortaleza para ficar mais perto da filha e de médicos. Segundo ele, sua saúde está ficando debilitada por conta da idade avançada.

Imagem mostra José Alencar ao lado do pluviômetro pelo qual ele é responsável usando uma camisa de botão azul e uma bermuda.
Legenda: Alencar segue o compromisso diário de olhar o pluviômetro há mais de 20 anos.
Foto: Acervo pessoal.

Já Francisco das Chagas do Livramento, de 64 anos, é responsável por ver o quanto a chuva enche o pluviômetro localizado no Sítio Malhada, na zona rural de Limoeiro do Norte, a 6 km da sede do município. Neto, como é chamado, mora no sítio com a esposa e completou 41 anos como voluntário da Funceme no dia 8 de janeiro deste ano. Ele diz que, durante esses 41 anos, nunca esqueceu de checar o medidor, nem mesmo um dia.

Francisco é formado em História e trabalhou por 32 anos como professor do Ensino Fundamental II em escolas municipais de Limoeiro do Norte. Ele lecionou quase todas as matérias. As principais foram matemática e português, mas também teve ciência, geografia, religião e até inglês.

Veja também

O voluntário conta que ama realizar o trabalho de medição da água, porque, desde novo, é apaixonado por chuva, assim como muitos cearenses que consideram as precipitações sinônimo de esperança. Antes de começar a medir a chuva para a Funceme, ele já tinha um pluviômetro em casa. Por conta disso, deram a ele a ideia de comunicar à Funceme esse interesse. Ele entrou em contato e, depois disso, a Funceme instalou na casa dele um pluviômetro próprio do órgão.

Imagem mostra Francisco das Chagas do Livramento ao lado do pluviômetro pelo qual é responsável em Limoeiro do Norte usando uma camiste branca, com uma plantação e o céu azul com nuvens ao fundo.
Legenda: Francisco das Chagas do Livramento é voluntário da Funceme há 41 anos.
Foto: Acervo pessoal.

José Roberto Tavares Santana é outro voluntário da Funceme. Ele mora no Sítio Santo Antônio, que fica a 3,6 km do distrito de Bastiões, pertencente ao município de Iracema. José perdeu as contas de há quanto tempo realiza a medição da chuva, mas deve fazer mais de 10 anos, segundo o que ele conta. 

O pluviômetro não foi instalado dentro da casa de José Roberto, mas fica muito perto e, como ele não tem vizinhos, ficou responsável pela missão de ir todos os dias até o equipamento ver o tamanho das chuvas.

Em um dos dias da última semana, José Roberto enviou para a Funceme a informação de que choveu 10 mm no posto pelo qual ele é responsável no Sítio Santo Antônio, em Iracema. O dado foi colocado no site da Fundação.

Imagem mostra parte do site da Funceme com os milímetros da chuva nos diferentes postos da cidade de Iracema.
Legenda: Print do site da Funceme mostrando dados passados pelos voluntários sobre a chuva.

O voluntário diz que, por lá onde ele mora, profissão é agricultor, mas que já fez um pouco de tudo para conseguir sobreviver. Ele já trabalhou como pedreiro e como músico. Em meio a isso tudo, José ainda confere o pluviômetro da Funceme todos os dias, sem se importar se está ganhando dinheiro ou não por esse serviço.

Eu aprendi com meus avós que a gente tem que ajudar os outros. Para mim, não interessa se tem remuneração ou não, eu estou fazendo minha parte, estou contribuindo com alguma coisa."
José Roberto Tavares Santana
Voluntário da Funceme

Ele conta que atualmente está parado por conta do cansaço e que, hoje em dia, o que ele planta e os animais que cria são só para consumo dele e da esposa. Os dois moram juntos no sítio.

Como músico, José toca teclado, sanfona e canta. De vez em quando, ele faz uma seresta. José já fez apresentações em Jaguaribe, Limoeiro do Norte e em Iracema. Quando fala sobre os gêneros musicais que mais toca, a resposta é rápida e tratada como óbvia: forró e brega. "É o tipo de som que o nordestino mais curte, né?", explica o voluntário da Funceme.

A música, para ele, não é tanto uma expressão artística, mas uma forma de tentar se manter. 

Para sobreviver no mundo, a gente tem que ser duro com a vida. Se a gente não for duro com a vida, a vida vai ser dura com a gente."
José Roberto Tavares Santana
Voluntário da Funceme

Imagem mostra José Roberto Tavares ao lado do pluviômetro pelo qual ele é responsável usando uma camisa xadrez, uma bermuda jeans azul e um boné vermelho.
Legenda: José Roberto é responsável por um dos pluviômetros da cidade de Iracema.
Foto: Acervo pessoal.

Funções da medição das chuvas

O registro da quantidade de chuva que cai em um determinado local ajuda em áreas como agricultura, abastecimento de água, prevenção de enchentes e estudos climáticos.

Os setores de recursos hídricos e agricultura utilizam os dados coletados pelos pluviômetros para a tomada de decisões. Os mapas do Monitor de Secas do Brasil, por exemplo, são elaborados levando em conta esses números.

Além disso, os dados da rede de pluviômetros convencionais servem também para gerar laudos técnicos em atendimento às Defesas Civis municipais. Os laudos são usados nos pedidos de decretação de emergência.

Para a gerente de Meteorologia da Funceme, Meiry Sakamoto, a medição das precipitações realizada pela rede de pluviômetros é fundamental, seja para a sociedade conhecer o comportamento das chuvas no Ceará ao longo dos dias e meses, seja para as tomadas de decisão.

Os números subsidiam também os eventuais pedidos dos municípios em relação a políticas públicas, como o Garantia-Safra, que assegura condições mínimas de sobrevivência aos agricultores familiares cujas produções sejam afetadas por perdas decorrentes de estiagem ou excesso hídrico.

Os dados da chuva ainda são importantes para solicitações de medidas emergenciais. Um exemplo dessas medidas é o uso de carros-pipa, que precisa ser justificado através dos dados relacionados à chuva do local.

Como funcionam os pluviômetros?

Segundo o gerente de monitoramento da Funceme, Elano Joca, os pluviômetros que existem são basicamente dois: um do tipo Convencional e outro do tipo Automático. No Ceará, são utilizados os Pluviômetros Convencionais Ville de Paris e os Pluviômetros Automáticos de Báscula. 

A Funceme informou à reportagem que a rede de monitoramento do Ceará conta com 550 pluviômetros convencionais instalados em todo o território cearense e com 55 pluviômetros automáticos instalados em Plataformas de Coleta de Dados (PCDs).

Veja também

Ainda conforme Elano Joca, os pluviômetros se diferenciam com relação ao material, ao mecanismo de medição, à forma de coleta e à transmissão dos dados. Enquanto os modelos convencionais são fabricados predominantemente em aço inoxidável e exigem a leitura manual da proveta por observadores, os pluviômetros automáticos necessitam de energia (bateria/painel solar), utilizam sensores eletrônicos, registram dados continuamente e permitem transmissão remota.

Outra diferença é em relação ao custo dos equipamentos. Os pluviômetros convencionais apresentam baixo custo de aquisição e manutenção. Isso facilita sua utilização em redes extensas como a do Ceará. 

Veja também

Já os pluviômetros automáticos são mais sofisticados. Como eles incorporam sensores eletrônicos, sistemas de armazenamento de dados, transmissão remota e painéis solares, possuem valor de investimento mais elevado.

A leitura do pluviômetro convencional informa o acumulado diário de chuva em um período de 24 horas, entre sete horas da manhã de um dia e sete da noite do dia seguinte.

Já os pluviômetros automáticos de Báscula conseguem medir as chuvas durante o dia em intervalos de tempo inferiores a 1 hora.

A Funceme orienta que todos os pluviômetros, tanto os convencionais, como o Ville de Paris, quanto o modelo automático de Báscula, sejam instalados em um local aberto, nivelado, longe de árvores, distante de prédios e muros e que não esteja abaixo de nenhum obstáculo.

*Estagiária sob supervisão da jornalista Dahiana Araújo

Newsletter

Escolha suas newsletters favoritas e mantenha-se informado
Este conteúdo é útil para você?
Assuntos Relacionados