Dia da Ressaca: veja dicas para recuperar o corpo e aliviar ‘arrependimento’

Efeitos danosos no organismo podem ser evitados ou tratados.

Escrito por
Nícolas Paulino nicolas.paulino@svm.com.br
Garçom carregando uma bandeja com três copos de cerveja, com um restaurante ou bar movimentado desfocado ao fundo.
Legenda: Consumo consciente de álcool deve ocorrer antes mesmo do início da ingestão, recomendam especialistas.
Foto: Adriana Pimentel.

Dor de cabeça, tontura, fraqueza no corpo. Sinais que poderiam estar relacionados a doenças infecciosas também podem aparecer durante uma ressaca após o consumo excessivo de álcool. O conjunto de sintomas tem até um período próprio para conscientização: o Dia da Ressaca, lembrado neste sábado, 28 de fevereiro.

A data não ocorre à toa: finaliza justamente o mês do Carnaval no Brasil, quando ingerir cerveja, cachaça, vinho e outras bebidas alcoólicas se torna mais frequente ao acompanhar fantasias e danças nos dias de folia.

Porém, passado o período de euforia, muitas pessoas podem sentir os efeitos danosos ao organismo causados por desidratação e intoxicação. 

Segundo o Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), estima-se que 78% dos bebedores sociais tenham episódios de ressaca; o índice pode chegar a 90% entre os chamados “bebedores pesados” (que têm maior frequência no consumo).

Olivia Pozzolo, médica psiquiatra e pesquisadora do Centro, explica que a ressaca não é causada apenas pela desidratação (decorrente do efeito diurético do álcool). O grande vilão, na verdade, é o acetaldeído, um subproduto “extremamente tóxico” que o fígado produz enquanto tenta processar o álcool. 

“Além disso, o álcool provoca uma resposta inflamatória no organismo e altera drasticamente a qualidade do sono”, complementa.

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Sintomas da ressaca

A toxicidade afeta o sistema nervoso central e contribui para sintomas como:

  • cefaléia
  • náuseas
  • fadiga e tontura
  • sensibilidade à luz 
  • irritabilidade e variações de humor
  • prejuízo da concentração
  • letargia

A ingestão de doses elevadas de etanol, independentemente do tipo de bebida, está frontalmente ligada à intensidade dos sintomas no dia seguinte.

O que comer para melhorar a ressaca?

A psiquiatra Olivia Pozzolo afirma que prioridade absoluta deve ser a hidratação. Porém, nem todo líquido é indicado. Café deve ser consumido com muita cautela porque é diurético e pode piorar a desidratação, além de irritar a mucosa do estômago, que já está sensível. 

Já a “comida gordurosa para forrar o estômago” no dia seguinte é um mito e também não é uma boa estratégia. Isso porque a gordura exige muito esforço do sistema digestivo e do fígado, que já estão sobrecarregados. 

“Para quem acorda enjoado, a recomendação prática é consumir alimentos leves e de fácil digestão, como torradas ou frutas”, indica a médica.

Remédios para curar a ressaca

O Cisa alerta que, embora haja diversas abordagens populares, não existe tratamento cientificamente comprovado para curar ressaca. Algumas substâncias como antioxidantes ou extratos fitoterápicos são investigadas, mas ainda sem evidência robusta.

Olivia Pozzolo alerta que o uso de paracetamol deve ser evitado. “Tanto o álcool quanto o paracetamol são processados pelo fígado; quando usados juntos, o risco de lesão hepática grave aumenta drasticamente”, diz.

Segundo a profissional, analgésicos comuns, como aspirina e ibuprofeno, podem ajudar com a dor de cabeça, mas são agressivos para o estômago, já inflamado pelo álcool. 

A vitamina C e outras receitas caseiras também não possuem evidência científica de que consigam reverter os danos da ressaca de forma imediata. 

“O melhor remédio, na verdade, é o repouso e a ingestão constante de líquidos”, indica a médica. 

Tigela branca de feijoada escura, guarnecida com folhas verdes frescas, acompanhada por fatias de pão torrado.
Legenda: Alimentos gordurosos devem ser evitados para não atrapalhar recuperação.
Foto: Kid Jr.

Mitos para melhorar a ressaca

Muitas pessoas acreditam que “beber de novo” no dia seguinte cura a ressaca, mas isso acaba adiando o problema. “O álcool entorpece os sintomas temporariamente, mas a sobrecarga no organismo será dobrada logo em seguida”, explica Pozzolo.

Outro mito se refere a banho gelado e consumo de energéticos: eles podem até trazer uma sensação momentânea de alerta, mas não aceleram a eliminação do álcool pelo fígado. 

“O processo de desintoxicação é biológico e depende exclusivamente do tempo”, confirma a profissional.

Ressaca piora com a idade?

No processo da ressaca, também é comum ouvir de muitos adultos que o processo se torna mais intenso e prolongado em relação à juventude, com cansaço, dor de cabeça e mal-estar que não passam rápido.

Sobre o fator idade, Olivia Pozzolo pondera que, conforme envelhecemos, o corpo produz menos enzimas para metabolizar o álcool e temos uma menor proporção de água no organismo. 

“Isso faz com que a concentração de álcool no sangue suba mais rápido e o corpo demore muito mais tempo para se desintoxicar”, explica.

Quando o organismo demora cada vez mais para se recuperar, pode haver sobrecarga do fígado. Por isso, reduzir excessos e dar tempo de recuperação ao corpo é uma forma de proteger o órgão.

Homem negro com as mãos na cabeça, olhando para baixo, aparentando estresse ou preocupação, com sinais de calvície.
Legenda: Dor de cabeça e sensibilidade à luz são sintomas clássicos da ressaca.
Foto: Kindel Media/Pexels.

Como prevenir a ressaca?

Em vez de buscar apenas a remediação, os especialistas sugerem uma mudança de chave no consumo de álcool.

“A prevenção começa antes do primeiro gole. Nunca beba de estômago vazio, a presença de comida retarda a absorção do álcool pelo sangue”, afirma a psiquiatra. 

A estratégia mais eficaz é a intercalação: para cada copo de bebida alcoólica, beba um copo de água, porque isso mantém a hidratação e diminui a velocidade do consumo total. 

O consumo consciente significa entender que o corpo leva cerca de uma hora para processar uma dose de álcool. “Respeitar esse ritmo é a única forma real de evitar as consequências desagradáveis do dia seguinte”, finaliza a profissional.

Como lidar com a ressaca moral?

Além dos sintomas físicos, o álcool também pode ter repercussões psicológicas. Afinal, os efeitos dele podem levar a comportamentos que as pessoas não teriam quando estão sóbrias e, no dia seguinte, levar a vergonhas ou arrependimentos - a chamada “ressaca moral”.

Para o psicólogo Felipe Meira, as consequências dela tendem a ser mais duradouras e, sua solução, mais complexa que repouso e alguns comprimidos, porque “o estado alterado de consciência permite ações que modificam temporariamente nossa personalidade”. 

O álcool diminui certas barreiras que colocamos no dia a dia. Nos tornamos mais permissivos. Então nesses estados de consciência, é ‘permitido’ vivenciar certas máscaras que não são vividas no dia a dia, viver experiências distintas de si.
Felipe Meira
Psicólogo

Assim, voltar à rotina torna-se desafiador porque o indivíduo sai de um estado “ilusório”, de extravasamento e êxtase, para o ambiente “natural”. Contudo, tentar esquecer ou colocar determinadas falas ou ações debaixo do tapete “quase nunca é uma solução ideal”. 

“Se o fato for remediável, o ideal é tentar agir para solucioná-lo da melhor forma possível. Seja por pedidos de desculpas, ações práticas, o que puder ser feito. E, caso o fato seja mais complexo e exija tempo, talvez o ideal seja tentar entender os motivos, os porquês do seu ato, tentar se perdoar para evitar que se repita e aprender. Toda situação pode trazer consigo um aprendizado”, acredita o psicólogo.

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