Período chuvoso leva cearenses a caçar e comer tanajuras, formigas ricas em proteína

Inseto, consumido há décadas em cidades como Tianguá e Ubajara, é mais comum entre janeiro e março.

Escrito por
Paulo Roberto Maciel* e Mylena Gadelha producaodiario@svm.com.br
formiga tanajura de asas translúcidas sobre o asfalto, detalhada e focada na imagem de inseto na rua.
Legenda: Iguaria é rica em proteínas e vitaminas.
Foto: Arquivo Pessoal/Douglas Santos.

Comer insetos pode parecer incomum, mas não é um hábito distante. No Ceará, em cidades como Tianguá e Ubajara, por exemplo, caçar e comer formigas do gênero tanajura, também chamadas de saúvas, virou tradição entre gerações. 

“Lembro de começar a procurar tanajura com meu avô, desde pequeno, eu tinha uns 6, 7 anos de idade. Ia com ele na bicicleta e a gente ia passando nos sítios”, conta o jovem tianguaense Douglas Santos, um entre os muitos que saem para caçar o inseto nesta época de chuvas mais frequentes no Estado.

Comum na Serra da Ibiapaba, o hábito não é encontrado apenas em solo cearense. Ele se mantém nas regiões interioranas de São Paulo, Minas Gerais e Pernambuco. No estado vizinho, o pernambucano João Gomes compartilhou a experiência de provar a formiga pela primeira vez. Incentivados, ele e a esposa, Ary Mirelle, comeram uma farofa de tanajuras.

“Por aqui, a gente come com farinha, como tira-gosto”, explica Douglas, lembrando do preparo semelhante ao provado pelo artista. Sem temperos, com cuscuz, salgada ou em pratos elaborados, a formiga foi incorporada, com o passar do tempo, aos hábitos culturais das regiões e resiste até hoje.

Não à toa, é exatamente entre janeiro e março, período de chuvas no Ceará, que a caça por elas se torna mais ativa. Nessa época do ano, elas saem dos formigueiros após as precipitações em busca de espaços mais secos, criando, assim, a oportunidade ideal.

“Toda vez que chovia, todo mundo já se reunia e ia atrás dos formigueiros para caçar tanajura. A gente pegava para assar mesmo em casa. Geralmente, pegamos elas nos formigueiros, e fica muita gente procurando. E aí, quando elas vão saindo, vamos pegando”, descreve o cearense.

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O inseto, então, vira complemento de diversos pratos típicos, como no caso da farofa experimentada por João Gomes. Na serra, elas chegam a ser vendidas para turistas e moradores. 

“Em casa, a gente limpa ela, tira as asas, o ferrão e coloca para assar. O modo é com água e sal. E aí você coloca ela na frigideira e vai esperando aquela água secar com a tanajura e o sal. Meu vô geralmente também bota farinha e aí serve como tira-gosto, e é muito comum aqui na minha cidade”, comenta Douglas.

Atenção na hora do preparo

Antes de preparar qualquer prato com tanajura, como a farofa, é preciso ficar atento a algumas orientações. Segundo Marina Araujo, diretora do Mercado AlimentaCE, é necessário separar a cabeça e as asas do inseto antes do cozimento.

"A parte usada nas receitas é apenas a parte mais conhecida como 'bumbum', que na verdade é o abdômen da tanajura. Depois desse processo, a melhor forma de preparar é fritar em manteiga ou óleo para ressaltar o sabor terroso e gorduroso da iguaria", explica.

Para a receita da famosa farofa de tanajura, Marina afirma que são utilizados os seguintes ingredientes: alho, cebola, farinha de mandioca e sal. "Os temperos trazem um acompanhamento perfeito para a crocância e sabor do insumo".

"A tanajura é um excelente tira-gosto. Quando mordida, a tanajura revela um sabor completamente particular: é terroso e gorduroso, além de ser rica em proteína e lipídio", destaca a diretora da instituição.

Comer tanajura é saudável?

Mesmo com o consumo presente nas tradições alimentares de determinadas regiões cearenses, há quem tenha dúvidas se a tanajura faz bem ou não ao corpo.

Segundo Yves Patric Quinet, professor do curso de Ciências Biológicas da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e especialista em formigas, ingeri-la não só é saudável, como também é recomendável para a preservação do meio ambiente.

Uma panela pequena está sobre o fogão, contendo uma mistura escura composta por muitos insetos semelhantes a formigas grandes, imersos em um líquido oleoso. A mistura cobre quase toda a superfície interna da panela. O fogão apresenta leves respingos ao redor. Ao fundo, há uma panela metálica grande sobre outra boca do fogão. Na parte superior da imagem, aparece um emoji de rosto com expressão neutra e um emoji de formiga.
Legenda: Douglas Santos, de Tianguá, conta que o hábito de caçar as formigas Saúva é comum entre moradores da cidade.
Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal/Douglas Santos.

“A tanajura é uma fonte de proteína altamente recomendada, que até poderia substituir a proteína de mamíferos, como as vacas, que têm muitos danos como consequência”, afirma. 

Cem gramas do inseto têm cerca de 356 calorias, com 45% da composição corporal de água e 20% de proteínas.

Segundo o pesquisador, a prática de consumir insetos também é incentivada pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO): "Quando comemos insetos, estamos salvando o planeta do desmatamento, do gasto de água e da emissão de gases poluentes. Não há perigo algum em consumir esses animais, além de que esse é um hábito comum e muito antigo", diz.

O professor ainda destaca que a estrutura corporal da formiga é um dos grandes responsáveis pela popularidade da iguaria.

Durante a época da revoada, quando as tanajuras deixam suas colônias em busca de outros ambientes, o corpo delas se enche de reservas de energia essenciais para a sobrevivência no novo habitat.

Essas tanajuras são cheias de proteínas de alto valor, além de gorduras insaturadas e vitamina B12. Elas acumulam reservas durante a revoada. Primeiro, os músculos do tórax ficam muito mais potentes para ela poder voar. Depois vêm as gorduras, porque quando ela vai começar a fundar uma colônia, ela vai sozinha, então precisa sobreviver até surgirem as outras formigas
Yves Patric Quinet
Professor de Ciências Biológicas na Uece

Prática de comer tanajura vem dos indígenas

Engana-se quem pensa que o hábito de comer tanajuras se popularizou nas últimas décadas. Pesquisas indicam a prática recorrente no Brasil ainda no século 17, entre tribos indígenas.

No Ceará, o surgimento teria ocorrido na tribo Tabajara, que até hoje habita a Serra da Ibiapaba, e está descrito no livro "Lendas, contos e mitos da Ibiapaba", do escritor João Bosco Gaspar. 

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O autor resgata que portugueses contavam aos indígenas sobre a possibilidade de se fortalecer por meio da ingestão da iguaria. Além disso, eles eram os responsáveis pela alegação de que “quem comesse tanajura não passaria pela morte, voava para o infinito, como um guerreiro forte”.

“Esse consumo das tanajuras é muito antigo mesmo. Ele foi recuperado pelos povos de origem europeia que se instalaram no norte e nordeste do Brasil, mas essa tradição também é observada em outras partes do País, graças aos indígenas”, conta Yves Patric Quinet.

Se depender das novas gerações nos municípios cearenses, este é um hábito para permanecer por ainda mais tempo. “Hoje eu tenho 22 anos, e as pessoas costumam comer por aqui, juro. Tem umas que não gostam, né? Mas é normal. Tem quem goste e tem quem não”, opina Douglas.

*Estagiário sob supervisão da jornalista Mariana Lazari.

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