Você consegue proteger quem você ama da sua maldade?
Quando amamos, podemos ter a ilusão de que sentimentos ruins somem, mas relações envolvem rancor, raiva ou desejar algo ruim ao ser amado.
Quando amamos alguém, podemos ter a ilusão de que todos os sentimentos ruins desaparecem, que jamais seremos capazes de sentir algum rancor, raiva ou desejar algo ruim ao ser amado. Infelizmente, as relações envolvem todos os afetos, muitos deles inconscientes.
Em 1930, no texto "Mal-Estar na Civilização", Freud já advertia: “o próximo não é apenas um possível auxiliar e objeto sexual, mas também uma tentação para satisfazer nele a sua agressão.” Somos capazes de coisas horríveis; desejos terríveis nos habitam e podemos ter uma pequena noção disso, nos filmes de terror, suspense, nas páginas policiais, nos livros de histórias fantásticas.
Todavia, o que nos protege da realização desses desejos? A lei, a civilização, e o amor. Encontraremos barreiras sociais que serão internalizadas e colocarão limites aos desejos proibidos; ao mesmo tempo em que a cultura oferecerá outras possibilidades para satisfação: esporte, arte, trabalho, estudo, ciência e religião; assim como o aparelho psíquico poderá recalcar, reverter ao seu oposto ou destinar sobre si tais desejos.
Quando um desejo é recalcado, não significa que ele desapareceu, ele fica lá inconsciente, e pode encontrar nas relações amorosas, a isca perfeita para reaparecer.
Quando alguém justifica uma morte ou crueldade em nome do amor, é uma mentira. O amor é o que protege de colocarmos em prática nossa maldade e destrutividade sobre o outro, o que não impede que sintamos raiva, ciúme, desejo de destruir. Mas sentir é diferente da autorização para realizar.
Quando lembramos das coisas boas daquela pessoa, quando o desejo em vê-la bem, a gratidão que sentimos pelo que ela nos faz sentir de bom, pelos cuidados que recebemos, quando somos capazes de perceber as coisas boas e desejar a felicidade do outro, mesmo que não seja conosco, é o ápice da dimensão ética.
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O amor é ambivalente, encontra-se misturado com agressividade, repleto de fantasias e ilusões; amamos partes nossas projetadas nos outros, amamos o que perdemos, amamos o que gostaríamos de ter, amamos miragens das figuras que nos amaram na infância, amamos de muitas e diferentes formas. São complexos, dinâmicos e paradoxais os sentimentos amorosos.
Entretanto, embora possamos sentir os desejos terríveis quando rejeitados ou frustrados, se há amor, existe a capacidade de conter e transformar em nossa destrutividade; podemos sentir, mas somos capazes de proteger o objeto amado da expressão de nossa crueldade. Conseguimos proteger quem amamos da nossa beligerância, do nosso desejo de machucar quando sentimos ciúmes, dúvidas, inseguranças, desejo de posse, invasão, controle? Acreditamos que quem amamos nos pertence e que somos os donos da sua alma e do seu corpo ou conseguimos respeitar e amar sua liberdade, diferenças, história e escolhas?
Ser capaz de conter a maldade, a destrutividade, a violência diante do desejo da posse do objeto amado, de ter exclusividade sobre ele, de controlá-lo, de desejar que satisfaça todas e somente as suas vontades, é um processo amplo de amadurecimento e capacidade de estar e ver o outro. Respeitar o que o outro necessita, mesmo quando não for o nosso próprio desejo, compreender limites, apoiar a diferença, a autonomia e a liberdade são construções necessárias para lidar com a alteridade.
A ideia de posse decorrente do patriarcado estrutural ou a invasão dos desejos infantis acoplados ao objeto amoroso, pode legitimar ações de ataque, invasão e desrespeito ao que é importante e necessário ao outro. O amor não legitima invasão, agressão, violência, posse, anulação, nem silenciamento do outro.
Quando alvos da maldade, da agressão, da invasão, ficamos desconfiados, tristes, perdidos, como se a mão certeira que segurássemos virasse punhal, algema. Desejamos nos afastar, limitar a convivência. A maldade decepciona os que confiam e se entregam ao vínculo.
O amor deve impulsionar o crescimento, oferecer apoio, compreensão, auxiliar a se sentir seguro e confiante para ir ao mundo, respeitar. O amor não ameaça, não bate, não prende, não isola, não faz chantagem. O amor não aniquila o direito de escolha e liberdade. Não pode silenciar a história nem privar de existir e ser. Conter a maldade no cultivar a generosidade, a compreensão, o cuidado e a sabedoria nas palavras e gestos, oferece a quem ama e é amado uma chance para sonhar, produzir esperança, viver.
*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.