Pajeú: a história de um rio que pariu a metrópole Fortaleza
Aquele que deu de beber à maior cidade do sertão foi reduzido a riacho, a canal, a esgoto, e hoje é apenas um vestígio de uma comunidade sem memória.
Com o início da quadra chuvosa 2025/2026, recebi, nas redes sociais, inúmeros vídeos com fortalezenses comemorando o fim dos alagamentos da avenida Heráclito Graça, importante via da capital do Ceará. Antes de passar por obras estruturais, o trecho era conhecido por, na época das chuvas, chegar a cobrir carros, atravancando os caminhos da Cidade — era uma vergonha para a quarta maior cidade do Brasil, que, prestes a comemorar seu tricentenário, esperava celebrar a superação do atraso das inundações.
Mas os que se revoltam com a aguaceira da região, área nobre da Capital, não entendem que ali não está um simples aluvião de esgotos, mas o emergir raivoso do rio que fundou a Cidade e que geme em dores de parto diante da comunidade que pariu e alimentou com suas margens e curvas.
As cheias da Aldeota não são apenas incômodos, são resistências, são o levante de um manancial que, irrequieto, aproveita toda oportunidade de se lançar sobre a Cidade que o soterrou e o esqueceu.
São águas que não se domaram em seus canais e resistem à topografia de dominação que tenta encerrá-lo sob os passos de filhos que não lhe reconhecem a maternidade. No aniversário de 300 anos de Fortaleza, é fundamental pensar o passado-futuro da Cidade à luz das águas que a permitiram nascer.
A história de um rio que pariu uma metrópole
Quando os portugueses chegaram ao Siará Grande, lançaram-se sobre o Rio Ceará, mais volumoso e imponente, disputado violentamente com os Potiguaras, que submeteram as primeiras investidas lusitanas. Os holandeses, receosos de repetir esse confronto, acomodaram-se no tímido, mas acolhedor, Rio das Palmeiras, o Marajaik. O nome aparece ligado ao rio e ao seu monte em antigas cópias dos primeiros mapas dos ocupadores flamencos, do próprio Mathias Beck e do engenheiro inglês Ricardo Carr, que registravam os contornos da terra que desejavam desvendar.
No século XVII não se falava em riacho, mas em um rio, logo renomeado rio do Pajé — rio curandeiro —, limite natural do qual dependia o Forte Schoonenborch, proteção holandesa que iniciou, de fato, a ocupação europeia por essas bandas. As margens do Pajeú eram pontos de referência, forneciam água e orientavam os primeiros caminhos. Foi às suas margens que a vida urbana da futura vila do Forte começou a brotar.
O forte e sua vila viriam a beber e se banhar em suas curvas até a Belle Époque, quando a modernização, a ordenação e o civilizacionismo higienista amarraram a Cidade em caminhos perpendiculares, arremedos europeus que sacrificaram curvas e voltas em nome de retas ordenadas e disciplinadoras.
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Nas plantas do tenente-coronel luso-francês Antônio José da Silva Paulet, regionalizador do urbanismo europeu, o rio não é mais referência, é apêndice. Paulet projetou a Cidade em formato de xadrez. Adolfo Herbster, engenheiro pernambucano, consolidou essa modernização civilizatória; em suas plantas de Fortaleza, elaboradas na segunda metade do século XIX (a partir de 1859), podemos ver que a Capital não ultrapassava os limites do Riacho Pajeú.
Conforme Fortaleza crescia, o Pajeú foi sendo domado e, ao mesmo tempo, desprezado. Agora era ele que precisava se conformar à Cidade. A construção do Açude Pajeú, pelo senador José Martiniano de Alencar, o secamento de seus dois afluentes e o assoreamento provocado pela expansão urbana — que se estendia para os subúrbios —, bem como a mudança de sua foz para o Poço da Draga, onde atenderia ao novo cais que receberia navios ingleses em sua ponte, redesenharam o rio, que diminuía diante da crescente capital.
Hoje o rio nasce, possivelmente, no quarteirão entre a Rua Silva Paulet (ironias urbanísticas do destino) e a Bárbara de Alencar, não há sequer consenso sobre o local de seu brotar soterrado. O agora riacho parte ocultado à cidade pela Heráclito Graça, respira na Praça da CDL, no Parque das Crianças e no Paço Municipal, antes de desaguar no Poço da Draga.
Esquecido, é desprezado como se esgoto fosse. Mas ali, de alguma forma, a Cidade ainda interage com seu nascedouro; há uma resistência do rio que teima em emergir de sua cela de asfalto e concreto. A Cidade protesta contra seus levantes úmidos, sem sequer entender que é apenas a natureza de nossa topografia nos acusando de nossos crimes ambientais coletivos.
Antes de ser coberto quase completamente pela malha asfáltica que sustenta nossos pés e pneus, o rio ainda se sacrificou para criar essa cidade que simulava a cidade-luz francesa. É pouco lembrado que foi na foz do Pajeú que se instalou uma grande usina termoelétrica, quando a “The Ceará Tramway Light & Power Company Ltd.”, a famosa Ceará Light, implantou, em 1912, o sistema que sustentaria o início da eletrificação e a movimentação de bondes que marcaram a Fortaleza do afrancesamento.
A construção da Praça da Estação, do Parque das Crianças, da ferrovia, da nova capital, enfim, acabou retificando e canalizando o rio, já cada vez mais reduzido a riacho. O progresso do século XX e as rotas do turismo fizeram a cidade virar de frente para o mar e de costas para o Pajeú. Seu leito virou depósito de lixo, e suas margens, áreas degradadas. A Cidade não sabe sequer onde ficam, com precisão, suas nascentes; seus vizinhos mais próximos o desconhecem.
O manancial que alimentou, eletrificou e moveu a Cidade tornou-se um ilustre desconhecido, símbolo de uma cidade que ignora sua história mais essencial.
No centro movimentado de Fortaleza, entre os edifícios da Praça da Estação e o vai e vem de turistas e compradores, o hoje pequeno curso d’água serpenteia discreto, quase escondido. Aflora para respirar aqui e acolá. Seu trecho mais bonito e agradável, nos jardins do Palácio da Luz, sede da Prefeitura da cidade, é vedado à população. Suas sombras frescas e agradáveis poderiam ser um lembrete à cidade que comemora 300 anos do bucólico regaço que um dia acolheu viajantes e se abriu a todos que a ele recorreram.
Hoje, da nascente à foz, o Pajeú é esquecimento. Por décadas, tornou-se símbolo de abandono, um fio de água poluída cortando o coração turístico da cidade, sua importância histórica soterrada pelo descaso. Mas o paradoxo da modernidade o tensiona: seremos capazes de construir, com toda nossa tecnologia atual, um novo caminho das águas de um rio que podia curar e agora precisa ser curado?
O riacho Pajeú é mais que um corpo d’água. É uma cicatriz geológica e urbana, uma memória na pele da Cidade que guarda a história de Fortaleza. Enquanto o Tietê, o Amazonas e o Capibaribe servem, em suas próprias contradições visíveis, como afronta às cidades que os margeiam, o Pajeú, desconhecido e subterrâneo, deve deixar de ser visto como canal, esgoto e alagamento.
Fortaleza precisa de uma nova história ambiental. Fortaleza precisa redescobrir o Pajeú. Se criticamos com veemência nosso descaso patrimonial, humano e social, não podemos esquecer nossa desmemoriada relação ecossistêmica. Houve escolhas: vários governos propuseram reformas, planos diretores projetaram reabrir o rio, mas tudo ficou no papel. Novos projetos pensam na Fortaleza de 2040; novamente o Pajeú é lembrado, mas a Cidade precisa se reapropriar de seu rio, precisa abraçar o Marajaik, precisa agradecer suas águas ancestrais.
O povo do forte, às vésperas de seu aniversário, pode rememorar os afetos de quando se banhava nos rios e córregos que serpenteavam seus caminhos, pegava peixes beta na mão e se largava ao sol depois de um bom banho. O Pajeú é a mais antiga testemunha da história de Fortaleza. Antes de festejar a Cidade, é preciso reverenciar o rio-avó que a viu nascer.
*Este texto reflete exclusivamente a opinião do autor.