CE tem menor número de mortes por dengue em 18 anos, mas retorno de vírus gera alerta
Sorotipo 3 voltou a ser registrado após altos registros há 20 anos.
O cenário epidemiológico da dengue no Ceará apresenta uma dualidade: ao mesmo tempo que celebra uma marca histórica de redução de casos e mortes, em 2025, acende um alerta para o futuro próximo. As autoridades de saúde monitoram com cautela a reintrodução de um tipo viral que há muito não causava impacto no território cearense.
O ano de 2025 ganhou destaque por registrar o menor número de mortes por dengue em 18 anos, com 3 óbitos confirmados. Com cerca de 4.742 casos, o período foi de “baixíssima transmissão”, permitindo que o Estado alcançasse um cenário de controle importante.
Os dados foram analisados pelo Diário do Nordeste com base em boletins epidemiológicos da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) e na plataforma IntegraSUS, alimentada pela mesma Pasta, e confirmados em entrevista junto ao secretário-executivo de Vigilância em Saúde, Antonio Silva Lima Neto (Tanta).
Segundo ele, as mortes foram registradas em Limoeiro do Norte (Vale do Jaguaribe), Aracati (Litoral Leste) e Jardim (Cariri), nos meses de maio, julho e agosto.
“Nós vamos fechar 2025 com esses três óbitos, e é uma coisa realmente muito importante, esse baixo número de eventos fatais”, diz o gestor.
Tanta também lembra que Fortaleza não registrou óbitos pela doença. A última vez que isso ocorreu foi em 1997, ou seja, há 28 anos, segundo monitoramento da Secretaria Municipal de Saúde (SMS).
Historicamente, o Estado enfrentou períodos críticos de alta mortalidade desde 2007. O ano de 2013 foi o mais letal das últimas décadas, com 70 mortes confirmadas, seguido de perto por 2015, com 67 óbitos, e 2011, com 66.
Nos anos subsequentes, houve uma tendência de queda. Em 2023 e 2024, o número de óbitos estabilizou em 9 casos anuais, com uma redução gradativa no total de infectados.
Veja também
Testagem mais eficaz
Já em volume de infecções, o ano de 2022 registrou o maior pico recente, totalizando 40.509 casos confirmados no Estado. Esse declínio preparou o terreno para os resultados observados no último balanço de 2025, o menor em oito anos.
Para Tanta, esse resultado se deve à ampliação da testagem da doença em laboratório, que chegou a 80% dos diagnósticos em 2025. Anteriormente, a grande maioria era definida por critério clínico-epidemiológico, ou seja, com avaliação de sintomas do paciente combinada com o contexto de saúde coletiva.
“Isso é um avanço do ponto de vista de vigilância enorme, porque você está de fato trabalhando com o cenário que você tem, ainda mais num cenário de cocirculação com outros vírus”, indica.
Segundo o especialista, o diagnóstico das arboviroses deve ser feito ainda no período febril e com teste molecular (RT-PCR). Ele detecta o material genético (RNA) do vírus da dengue, sendo ideal para o diagnóstico precoce e para identificar o sorotipo viral.
Já o teste sorológico detecta anticorpos produzidos pelo corpo, sendo mais útil após alguns dias de infecção para confirmar a fase da doença. Ou seja, só captura a resposta do corpo à infecção, quando o paciente já pode ter desenvolvido casos graves.
“Nós aumentamos a capacidade de diagnóstico. Foi uma mudança muito drástica que a gente conseguiu operacionalizar nesses anos”, afirma.
A descoberta mais assertiva do vírus facilita a condução mais adequada do tratamento pelos médicos, melhorando a atenção, a chegada mais rápida aos serviços especializados e a hidratação dos pacientes - já que a dengue afeta significativamente o volume líquido da corrente sanguínea.
Por que o sorotipo 3 preocupa para 2026?
Entretanto, a aparente tranquilidade de 2025 também foi acompanhada pela detecção do sorotipo 3 (DENV-3) nas cidades de Limoeiro do Norte, Tabuleiro do Norte e Barbalha. Por coincidência, a reintrodução só ocorreu após o fim da quadra chuvosa, o que pode ter ajudado a conter uma propagação imediata.
A preocupação em 2026 reside justamente na vulnerabilidade coletiva da população porque o sorotipo 3 não circula com força no Ceará há cerca de duas décadas. Os últimos registros significativos desse vírus ocorreram entre 2003 e 2007, o que significa que uma geração de cearenses nunca teve contato com esse tipo específico.
Assim, a ausência prolongada do DENV-3 resulta na falta de anticorpos na maioria dos habitantes, criando um ambiente favorável a uma possível epidemia.
Além do quesito imunidade, o risco clínico é elevado. A ciência alerta que a infecção prévia com um sorotipo não protege contra os outros; pelo contrário, infecções sucessivas por tipos diferentes aumentam o potencial de formas graves da doença.
Por isso, como muitos cearenses já foram infectados pelos tipos 1, 2 ou 4, o retorno do tipo 3 é uma ameaça direta à saúde pública.
Para enfrentar o risco em 2026, o Estado planeja intensificar alertas, especialmente na região do Cariri. A vigilância laboratorial e a vacinação também são consideradas peças-chave na estratégia de contenção.
A atenção deve ser redobrada com a chegada das chuvas, especialmente entre fevereiro e maio. Se o vírus encontrar uma alta infestação do mosquito Aedes aegypti no início de 2026, o cenário de baixa transmissão vivido em 2025 poderá ser revertido.