Como posso ajudar meus filhos a amar as mulheres
No Dia Internacional da Mulher, falar sobre respeito e tolerância é um dos desafios e necessidades.
O dia internacional das mulheres surge enquanto manifestação atrelada à busca por direitos e garantias. Essa data encontra-se indissociável da reflexão sobre as desigualdades de gênero, a necessidade de políticas públicas, de reinvindicações históricas por empregos, dignidade, liberdade e justiça social.
Um dos maiores desafios atualmente consiste no enfrentamento do aumento dos índices de feminicídio – em 2025, no Brasil, foram 1.568 casos de mulheres mortas, em atos de violência relacionados à misoginia, patriarcado estrutural e às hierarquias de gênero.
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Mães, esposas, filhas, avós, amigas são mortas cotidianamente e por aqueles que deveriam cuidar e proteger. Por aqueles que não conseguem conter aquilo que ao longo dos anos legitima a um homem o poder e direito à vida, ao corpo e à alma de uma mulher: os efeitos perversos do patriarcado no imaginário masculino.
Como se constrói essa relação com o feminino, como lidar com um outro, diferente? Que fantasias elaboro sobre isso, como esse outro me desafia, assusta, me confronta com os limites do que posso fazer com meu desejo, com aquilo que me atiça e que pode me rejeitar e não ser seduzido por mim? Como lidar com um outro corpo, uma outra forma de pensar e de ser e que não se submete a mim? Será possível ensinar o amor?
Uma das maiores contribuições que recebemos dos pais relaciona-se ao aprendizado do amor. No cotidiano, nas delicadezas, nas percepções sutis das relações, observamos como somos tratados, como adultos tratam uns aos outros, como o amor é vivenciado, como o respeito é desenvolvido e experenciado. Observamos as palavras, os gestos, o apoio, o entusiasmo pelo crescimento do outro, o esforço para agradar, a conquista, a sedução, a valorização.
Observamos a indiferença, o silêncio, as violências, as piadas, as humilhações, os aniversários não comemorados, os rituais de casais que não existem, o menosprezo sutil da contribuição do outro na vida de cada um e de todos. Aprendemos como o cuidado chega ao corpo do outro, as sutilezas do bem querer ou o silêncio e indiferença emocional. Vemos as relações que são contratuais, onde o outro é coisa ou negócio.
Aprendemos as palavras que acolhem, as que humilham e menosprezam. Perceberemos o lugar do trabalho doméstico, que será ou não valorizado, e quais os espaços onde cabem homens e mulheres e qual a altura do olhar de um para o outro e a diferença de poder entre eles.
O respeito talvez seja uma das formas mais elevadas de amor. E exige educação emocional, princípios éticos e contextos culturais que acolham a diversidade. O amor pelas mulheres envolve o reconhecimento do outro enquanto sujeito de direitos, com desejos, limites, autonomia e poder de não.
Esse amor necessita que meninos sejam educados para reconhecer as experiências das mulheres como legítimas e portadoras de valor, com capacidade de escuta, compreensão das desigualdades históricas entre gêneros, e com relações interpessoais mais respeitosas, onde sejam estimulados à sensibilidade, o falar sobre as emoções e que uso da palavra “coisa de menina” seja visto como algo que comporta dignidade e valor, e não utilizado para inferiorizar qualquer experiência ou comportamento.
É fundamental que o ambiente doméstico questione os modelos tradicionais de masculinidade e possa enfatizar que homens podem demonstrar fragilidade, que mulheres não são objetos de conquista para realizar poder ou controle, e enfatizar a igualdade de direitos e desejos.
Homens devem ser educados a respeitar a autonomia feminina, reconhecer a igualdade de direitos, rejeitar o uso da violência como forma de autoafirmação e domínio nas relações, tolerar frustração e rejeição, praticar o diálogo e a expressão de emoções e sentimentos, lidar com diferenças e exercitar o cuidado. Homens que aprendem a cuidar, desenvolvem outras linguagens emocionais.
É preciso compreender que a arte da sedução envolve recursos complexos e que o corpo feminino não é uma máquina fabricada em série. É imprescindível que homens sejam educados a reconhecer suas partes femininas e a enaltecerem as realizações e o que compõe o feminino; a não temer a própria vulnerabilidade nem o que lhe falta.
A forma como olho, me comporto, as palavras que uso, os gestos sutis e concretos direcionados a uma mulher, serão acompanhados pelos filhos. Resta saber se meu olhar é de caça, de míssil, de julgamento ou de encantamento, admiração e respeito.
*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.