Cearense descobre síndrome rara durante gravidez, fica em estado grave e renasce após parto da filha
Alana Barros mora em Portugal e desenvolveu Síndrome de Guillain-Barré.
Não é exagero dizer que existem duas versões de Alana Barros Diogo da Silva Azevedo. A primeira quando descobriu a Síndrome de Guillain-Barré e enfrentou verdadeiro calvário devido à condição rara desenvolvida durante a gestação; e a de agora, feliz e forte, ao celebrar o milagre na vida após ser praticamente desenganada pela Medicina.
Esta história de tantas surpresas, desafios e, sobretudo, fé, começou no fim do ano passado, quando a advogada de 29 anos ingressou no segundo trimestre da gravidez. Cearense residente em Portugal, ela havia acabado de retornar de Fortaleza e estava nos preparativos para o chá de bebê da filha. “Estava trabalhando normalmente, inclusive. A única coisa que tive foi uma coriza, espécie de gripe, e um torcicolo. Nada muito grave”, conta.
Dois dias antes do chá, porém, começou a sentir formigamento nas mãos e nos pés – algo que se multiplicou com o avanço das horas. Até a língua chegou a ficar dormente, e a primeira suspeita foi de Covid-19. O estado piorou na mesma noite do evento da filha: Alana acordou com dor de cabeça muito forte na madrugada, principalmente no lado direito da cabeça.
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“Me olhei no espelho e reparei que estava com o lado do rosto paralisado. Primeiro, pensei: ‘Tive um AVC’. Chamei meu esposo e, apavorados, corremos para o hospital”. Médicos avaliaram os sintomas, perceberam que eles não estavam progredindo, e a cearense ficou em observação. Descartaram a hipótese de AVC e cogitaram Paralisia de Bell – doença marcada pela perda ou dificuldade de movimentação dos músculos de um lado da face.
A tranquilidade da rapidez do diagnóstico durou pouco. Uma médica afirmou ser importante não descartar a Síndrome de Guillain-Barré – premissa que, com o passar do tempo, apenas se comprovou.
Da saída de Faro, cidade onde Alana e o esposo moravam, até Lisboa para realização de exames e outros encaminhamentos, as funções normais da advogada começaram a entrar em colapso, e a certeza veio: a síndrome já estava nela.
Evolução da doença em Alana
Em Portugal, todo o tratamento de Alana aconteceu pela rede pública. À medida que os efeitos da síndrome se manifestaram pelo corpo, a cearense ficava cada vez pior.
Em poucos dias, ela deu entrada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), perdeu os movimentos corporais – primeiro das pernas, depois dos braços, até de coisas simples, a exemplo de engolir água, falar e respirar sozinha – passou a tossir 24 horas por dia, contraiu pneumonia e desenvolveu secreção capaz de conferir sensação constante de afogamento.
“Fui ficando tetraplégica. Para me mobilizar, precisava de muitas pessoas, de três, quatro enfermeiras, porque meu corpo estava completamente mole. Não conseguia sustentar nem o pescoço. Não dava”, recorda.
A complicação se dava porque, devido à gravidez, ela não poderia ser sedada, com possibilidade de pôr em risco a vida da bebê. Resultado: embora diante de toda a dor, a advogada sentia tudo, estava consciente de cada passo.
Inclusive do próximo que se anunciava. Em determinado momento de tanta angústia, o instante chegou. Era 6 de outubro de 2025 quando o bebê passou a clamar para sair, e haveria de acontecer – os médicos já haviam anunciado que o parto precisava ser feito.
Apenas nesse dia, foi sedada, entubada, passou pelo parto e, depois do procedimento, fizeram aspiração nela para tentar tirar o máximo de secreção possível. “No dia seguinte, já acordei entubada. Estava com a visão muito alterada, turva, quase não conseguia enxergar, e ainda tive um quadro de pré-eclâmpsia. No quinto dia, os médicos me extubaram. E foi muito difícil voltar a respirar porque você desaprende a fazer isso”, dimensiona.
Apenas nove dias após o parto, mediante retorno paulatino da respiração, Alana conheceu a filha. A descrição do instante do contato entre as duas emociona: “Até pra tocar nela era difícil. Quase não a sentia porque eu ainda estava completamente dormente, o corpo estava todo formigando… Mas foi o dia em que eu a conheci”.
Reabilitação e nova vida
A vinda da primogênita mudou tudo. Alana renasceu. O que diariamente era vivenciado como declínio, passou a representar força. Esposo da advogada, o também cearense Eliaquim Azevedo credita à chegada do bebê o fato de a companheira respirar, literalmente, novos ares.
“O fato de nossa filha ter tido alta antes de Alana foi uma motivação a mais para que minha esposa fizesse muita fisioterapia e corresse atrás de uma terapia ocupacional focada no cuidado com a bebê – com pesos exatamente iguais ao que a neném estava, exatamente pra conseguir cuidar dela”, compartilha.
“A gente chama nossa filha de ‘nosso milagrinho’. É nosso presente de Deus, que Ele cuidou e trouxe no momento certo. A gente fez planos e Ele mudou tudo. O nome dela estava escolhido desde quando namorávamos, sempre quisemos ter uma menina, e Deus realizou”.
Não à toa, essa nova versão de Alana – revitalizada após tantos desafios, embora ainda com o corpo em ajuste para lidar com tão grandes baques – se apega ainda mais à fé e às pessoas que a apoiaram na decisão de continuar sonhando. Gosta de trazer à tona o nome do esposo, dos pais, dos sogros e de todo o corpo de médicos e enfermeiros do hospital onde esteve internada. Ajudaram-na a crer em um amanhã possível e colorido.
Gosta também de se ver novamente produtiva, as funções em movimento ascendente. Retornou à rotina de trabalho – embora, no momento, apenas de forma virtual –, a dirigir e até a pegar a filha no colo no bebê-canguru. Segundo a Medicina, ela realmente deve voltar a fazer tudo, mas no tempo certo. Basta treinar. Não desistir.
“Para alguém que tem Guillain-Barré, digo que, apesar de ser uma condição rara, uma doença autoimune, tem cura. Mas a pessoa vai precisar de muita força de vontade pra fazer muita fisioterapia e conseguir sair dessa condição. De maneira bem prática: confie no processo, de que você vai ficar bem. Logo a noite vai passar e os dias bons vão chegar”, torce.
“Acima de tudo: tenha fé em Deus. O diagnóstico não é a palavra final. Um milagre aconteceu comigo. Hoje mais do que nunca – porque eu já acreditava nisso – sei que, se for da vontade de Deus, as coisas acontecem e o milagre vem”.
O que é a Síndrome de Guillain-Barré
Conforme o Ministério da Saúde, a Síndrome de Guillain Barré é um distúrbio autoimune. Isso significa que o sistema imunológico do próprio corpo ataca parte do sistema nervoso – correspondente aos nervos que conectam o cérebro com outras partes do corpo.
A condição, considerada rara, geralmente é provocada por processo infeccioso anterior e manifesta fraqueza muscular, com redução ou ausência de reflexos. Várias infecções têm sido associadas à síndrome, sendo a por Campylobacter, causadora de diarréia, a mais comum.
Para se ter ideia, a incidência anual é de 1-4 casos por 100 mil habitantes, com pico entre 20 e 40 anos de idade. Outras infecções encontradas na literatura cientifica que podem desencadear a doença incluem Zika, dengue, chikungunya, citomegalovírus, vírus Epstein-Barr, sarampo, vírus de influenza A, hepatite A, B, C, HIV, entre outros.
Muitos vírus e bactérias já foram associados temporariamente ao desenvolvimento da Síndrome de Guillain Barré, embora em geral seja difícil comprovar a verdadeira causa da doença. O diagnóstico é dado por meio da análise do líquido cefalorraquidiano (líquor) e exame eletrofisiológico.
A maioria dos pacientes percebe inicialmente a doença pela sensação de dormência ou queimação nos membros inferiores (pés e pernas) e, em seguida, superiores (mãos e braços). Dor neuropática lombar (nervos, medula da coluna ou no cérebro) ou nas pernas pode ser vista em pelo menos 50% dos casos.
Fraqueza progressiva é o sinal mais perceptível, ocorrendo geralmente nesta ordem: membros inferiores, braços, tronco, cabeça e pescoço. Outros sinais e sintomas relacionados à Síndrome de Guillain Barré são:
- Sonolência;
- Confusão mental;
- Coma;
- Crise epiléptica;
- Alteração do nível de consciência;
- Perda da coordenação muscular;
- Visão dupla;
- Fraqueza facial;
- Tremores;
- Redução ou perda do tono muscular;
- Dormência, queimação ou coceira nos membros.
Aproximadamente 5% a 15% dos casos podem evoluir para óbito, geralmente resultante de insuficiência respiratória, pneumonia aspirativa, embolia pulmonar, arritimias cardíacas e sepse hospitalar. O Brasil conta hoje com 136 centros especializados em reabilitação, que atendem pacientes com a Síndrome de Guillain Barré pela rede pública de saúde.