Cearense descobre síndrome rara durante gravidez, fica em estado grave e renasce após parto da filha

Alana Barros mora em Portugal e desenvolveu Síndrome de Guillain-Barré.

Escrito por
Diego Barbosa diego.barbosa@svm.com.br
Na imagem, no lado esquerdo, a mulher aparece sentada em uma cadeira de rodas dentro de um ambiente hospitalar. Ela veste um pijama listrado de rosa e branco e usa uma pulseira de identificação médica no pulso. Sua expressão é serena, mas transparece o cansaço do processo de recuperação. Ao fundo, vê-se um ventilador preto e equipamentos hospitalares. No lado direito, a mesma mulher aparece em um ambiente externo, ao ar livre, durante o pôr do sol. Ela está de pé, sorrindo suavemente para a câmera, carregando um bebê recém-nascido em um sling cinza (carregador de pano). O bebê usa um casaco de plush rosa. A iluminação é quente e dourada, transmitindo uma sensação de esperança e novo começo.
Legenda: Ana Barros antes e depois dos desafios vivenciados com a Síndrome de Guillain-Barré: esperança e fé.
Foto: Arquivo pessoal.

Não é exagero dizer que existem duas versões de Alana Barros Diogo da Silva Azevedo. A primeira quando descobriu a Síndrome de Guillain-Barré e enfrentou verdadeiro calvário devido à condição rara desenvolvida durante a gestação; e a de agora, feliz e forte, ao celebrar o milagre na vida após ser praticamente desenganada pela Medicina.

Esta história de tantas surpresas, desafios e, sobretudo, fé, começou no fim do ano passado, quando a advogada de 29 anos ingressou no segundo trimestre da gravidez. Cearense residente em Portugal, ela havia acabado de retornar de Fortaleza e estava nos preparativos para o chá de bebê da filha. “Estava trabalhando normalmente, inclusive. A única coisa que tive foi uma coriza, espécie de gripe, e um torcicolo. Nada muito grave”, conta.

Dois dias antes do chá, porém, começou a sentir formigamento nas mãos e nos pés – algo que se multiplicou com o avanço das horas. Até a língua chegou a ficar dormente, e a primeira suspeita foi de Covid-19. O estado piorou na mesma noite do evento da filha: Alana acordou com dor de cabeça muito forte na madrugada, principalmente no lado direito da cabeça. 

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“Me olhei no espelho e reparei que estava com o lado do rosto paralisado. Primeiro, pensei: ‘Tive um AVC’. Chamei meu esposo e, apavorados, corremos para o hospital”. Médicos avaliaram os sintomas, perceberam que eles não estavam progredindo, e a cearense ficou em observação. Descartaram a hipótese de AVC e cogitaram Paralisia de Bell – doença marcada pela perda ou dificuldade de movimentação dos músculos de um lado da face. 

A tranquilidade da rapidez do diagnóstico durou pouco. Uma médica afirmou ser importante não descartar a Síndrome de Guillain-Barré – premissa que, com o passar do tempo, apenas se comprovou.

Na imagem, uma mulher jovem de cabelos escuros está deitada em um leito de hospital, com uma expressão resiliente e um leve sorriso. Ela veste uma bata hospitalar azul clara com estampas de logotipos de um centro hospitalar e está conectada a diversos dispositivos médicos: uma cânula de oxigênio no nariz, sensores no peito, um oxímetro de pulso no dedo indicador e acessos venosos nos braços. Suas mãos, com unhas pintadas de vermelho, repousam sobre o abdômen. O ambiente é de uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), com fios, monitores e equipamentos médicos visíveis ao fundo
Legenda: Alana Barros quando deu entrada na Unidade de Terapia Intensiva.
Foto: Arquivo pessoal.

Da saída de Faro, cidade onde Alana e o esposo moravam, até Lisboa para realização de exames e outros encaminhamentos, as funções normais da advogada começaram a entrar em colapso, e a certeza veio: a síndrome já estava nela.

Evolução da doença em Alana

Em Portugal, todo o tratamento de Alana aconteceu pela rede pública. À medida que os efeitos da síndrome se manifestaram pelo corpo, a cearense ficava cada vez pior.

Em poucos dias, ela deu entrada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), perdeu os movimentos corporais – primeiro das pernas, depois dos braços, até de coisas simples, a exemplo de engolir água, falar e respirar sozinha – passou a tossir 24 horas por dia, contraiu pneumonia e desenvolveu secreção capaz de conferir sensação constante de afogamento. 

“Fui ficando tetraplégica. Para me mobilizar, precisava de muitas pessoas, de três, quatro enfermeiras, porque meu corpo estava completamente mole. Não conseguia sustentar nem o pescoço. Não dava”, recorda. 

Na imagem, uma mulher jovem, de óculos e cabelos presos, é amparada por duas profissionais de saúde enquanto se levanta pela primeira vez em um quarto de hospital. Ela veste um roupão hospitalar branco com estampas azuis e utiliza um andador de metal para se apoiar. As profissionais estão de costas para a câmera, usando aventais descartáveis azuis e máscaras protetoras. A paciente olha para a frente com um leve sorriso de esforço e determinação. Ao fundo, vê-se a janela do hospital com persianas e equipamentos médicos.
Legenda: Registro de Alana pela primeira vez de pé após um mês da descoberta da síndrome.
Foto: Arquivo pessoal.

A complicação se dava porque, devido à gravidez, ela não poderia ser sedada, com possibilidade de pôr em risco a vida da bebê. Resultado: embora diante de toda a dor, a advogada sentia tudo, estava consciente de cada passo.

Inclusive do próximo que se anunciava. Em determinado momento de tanta angústia, o instante chegou. Era 6 de outubro de 2025 quando o bebê passou a clamar para sair, e haveria de acontecer – os médicos já haviam anunciado que o parto precisava ser feito. 

Na imagem, uma mulher jovem está deitada em uma cama de hospital, coberta por um lençol verde, vivendo o primeiro contato com sua filha recém-nascida. O bebê está envolto em uma manta branca sobre o peito da mãe. A mulher usa óculos, tem cabelos escuros presos em tranças e possui um tubo nasal. Um homem vestindo avental cirúrgico verde se inclina sobre elas, encostando suavemente sua testa na da mulher, em um gesto de carinho e apoio. O ambiente é uma unidade hospitalar, com diversos equipamentos médicos, monitores e frascos ao fundo.
Legenda: Primeiros encontros de Alana com a filha.
Foto: Arquivo pessoal.

Apenas nesse dia, foi sedada, entubada, passou pelo parto e, depois do procedimento, fizeram aspiração nela para tentar tirar o máximo de secreção possível. “No dia seguinte, já acordei entubada. Estava com a visão muito alterada, turva, quase não conseguia enxergar, e ainda tive um quadro de pré-eclâmpsia. No quinto dia, os médicos me extubaram. E foi muito difícil voltar a respirar porque você desaprende a fazer isso”, dimensiona.

Apenas nove dias após o parto, mediante retorno paulatino da respiração, Alana conheceu a filha. A descrição do instante do contato entre as duas emociona: “Até pra tocar nela era difícil. Quase não a sentia porque eu ainda estava completamente dormente, o corpo estava todo formigando… Mas foi o dia em que eu a conheci”.

Reabilitação e nova vida

A vinda da primogênita mudou tudo. Alana renasceu. O que diariamente era vivenciado como declínio, passou a representar força. Esposo da advogada, o também cearense Eliaquim Azevedo credita à chegada do bebê o fato de a companheira respirar, literalmente, novos ares.

Na imagem, fotografia noturna em um estacionamento. Uma mulher jovem está sentada em uma cadeira de rodas ao lado da porta aberta de um carro preto; ela veste uma camiseta rosa da Adidas, casaco e calças pretas. Dentro do carro, no banco traseiro, vê-se um bebê recém-nascido em uma cadeirinha. Ao lado da mulher, um homem jovem sorri para a câmera; ele veste uma jaqueta cinza sobre uma camiseta branca, calças pretas e carrega uma bolsa amarela a tiracolo. Ao fundo, há árvores, outros carros estacionados e a iluminação pública da rua.
Legenda: Saída da maternidade onde estava a filha do casal.
Foto: Arquivo pessoal.

“O fato de nossa filha ter tido alta antes de Alana foi uma motivação a mais para que minha esposa fizesse muita fisioterapia e corresse atrás de uma terapia ocupacional focada no cuidado com a bebê – com pesos exatamente iguais ao que a neném estava, exatamente pra conseguir cuidar dela”, compartilha.

A gente chama nossa filha de ‘nosso milagrinho’. É nosso presente de Deus, que Ele cuidou e trouxe no momento certo. A gente fez planos e Ele mudou tudo. O nome dela estava escolhido desde quando namorávamos, sempre quisemos ter uma menina, e Deus realizou”.

Na imagem, uma mulher jovem de cabelos escuros e leve sorriso posa em frente a uma porta de vidro dupla em um hospital. Ela veste um cardigã de tricô verde sobre uma camiseta branca e aponta com o dedo indicador para cima, em direção a uma placa metálica na parede. A placa contém as inscrições:
Legenda: No último mês de janeiro, após alta da UTI.
Foto: Arquivo pessoal.

Não à toa, essa nova versão de Alana – revitalizada após tantos desafios, embora ainda com o corpo em ajuste para lidar com tão grandes baques – se apega ainda mais à fé e às pessoas que a apoiaram na decisão de continuar sonhando. Gosta de trazer à tona o nome do esposo, dos pais, dos sogros e de todo o corpo de médicos e enfermeiros do hospital onde esteve internada. Ajudaram-na a crer em um amanhã possível e colorido.

Gosta também de se ver novamente produtiva, as funções em movimento ascendente. Retornou à rotina de trabalho – embora, no momento, apenas de forma virtual –, a dirigir e até a pegar a filha no colo no bebê-canguru. Segundo a Medicina, ela realmente deve voltar a fazer tudo, mas no tempo certo. Basta treinar. Não desistir.

Na imagem, uma mulher jovem de cabelos escuros e expressão serena sorri levemente para a câmera em um ambiente externo ao entardecer. Ela carrega um bebê pequeno junto ao peito em um sling de tecido cinza mesclado. O bebê veste um casaco de moletom rosa com capuz e parece dormir tranquilamente. A mulher usa uma blusa de tricô bege de gola alta. Ao fundo, vê-se um estacionamento com carros, postes de iluminação e o céu com tons suaves de laranja e azul típicos do pôr do sol.
Legenda: Primeira vez de Alana pegando a filha no colo por meio do bebê-canguru.
Foto: Arquivo pessoal.

“Para alguém que tem Guillain-Barré, digo que, apesar de ser uma condição rara, uma doença autoimune, tem cura. Mas a pessoa vai precisar de muita força de vontade pra fazer muita fisioterapia e conseguir sair dessa condição. De maneira bem prática: confie no processo, de que você vai ficar bem. Logo a noite vai passar e os dias bons vão chegar”, torce.

“Acima de tudo: tenha fé em Deus. O diagnóstico não é a palavra final. Um milagre aconteceu comigo. Hoje mais do que nunca – porque eu já acreditava nisso – sei que, se for da vontade de Deus, as coisas acontecem e o milagre vem”.

O que é a Síndrome de Guillain-Barré

Conforme o Ministério da Saúde, a Síndrome de Guillain Barré é um distúrbio autoimune. Isso significa que o sistema imunológico do próprio corpo ataca parte do sistema nervoso – correspondente aos nervos que conectam o cérebro com outras partes do corpo. 

A condição, considerada rara, geralmente é provocada por processo infeccioso anterior e manifesta fraqueza muscular, com redução ou ausência de reflexos. Várias infecções têm sido associadas à síndrome, sendo a por Campylobacter, causadora de diarréia, a mais comum. 

Na imagem, fotografia de Alana Barros em uma unidade de terapia intensiva hospitalar após o parto. Ela está deitada em um leito, vestindo uma bata azul clara e coberta por lençóis brancos com o logotipo do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte. Alana está entubada e conectada a um ventilador mecânico por meio de tubos brancos e verdes presos ao rosto com fitas adesivas médicas. Seus braços apresentam diversos acessos venosos, curativos e bandagens. No canto inferior direito, vê-se a mão de outra pessoa tocando suavemente o braço de Alana, em um gesto de apoio. O fundo mostra monitores cardíacos e equipamentos médicos típicos de uma UTI.
Legenda: Alana Barros, hospitalizada com Síndrome de Guillain-Barré, após o parto da filha.
Foto: Arquivo pessoal.

Para se ter ideia, a incidência anual é de 1-4 casos por 100 mil habitantes, com pico entre 20 e 40 anos de idade. Outras infecções encontradas na literatura cientifica que podem desencadear a doença incluem Zika, dengue, chikungunya, citomegalovírus, vírus Epstein-Barr, sarampo, vírus de influenza A, hepatite A, B, C, HIV, entre outros. 

Muitos vírus e bactérias já foram associados temporariamente ao desenvolvimento da Síndrome de Guillain Barré, embora em geral seja difícil comprovar a verdadeira causa da doença. O diagnóstico é dado por meio da análise do líquido cefalorraquidiano (líquor) e exame eletrofisiológico. 

Na imagem, uma mulher jovem de pele clara e cabelos escuros presos sentada em uma cadeira de rodas no que parece ser um quarto de hospital. Ela veste um pijama listrado de rosa e branco, calça de moletom rosa clara e chinelos de pelúcia rosa. Ela olha diretamente para a câmera com uma expressão serena. Ao fundo, veem-se camas hospitalares, um ventilador de coluna preto e cortinas divisórias azuis claras.
Legenda: Fraqueza progressiva é o sinal mais perceptível da Síndrome de Guillain-Barré.
Foto: Arquivo pessoal.

A maioria dos pacientes percebe inicialmente a doença pela sensação de dormência ou queimação nos membros inferiores (pés e pernas) e, em seguida, superiores (mãos e braços). Dor neuropática lombar (nervos, medula da coluna ou no cérebro) ou nas pernas pode ser vista em pelo menos 50% dos casos. 

Fraqueza progressiva é o sinal mais perceptível, ocorrendo geralmente nesta ordem: membros inferiores, braços, tronco, cabeça e pescoço. Outros sinais e sintomas relacionados à Síndrome de Guillain Barré são:

  • Sonolência;
  • Confusão mental;
  • Coma;
  • Crise epiléptica;
  • Alteração do nível de consciência;
  • Perda da coordenação muscular;
  • Visão dupla;
  • Fraqueza facial;
  • Tremores;
  • Redução ou perda do tono muscular;
  • Dormência, queimação ou coceira nos membros.

Aproximadamente 5% a 15% dos casos podem evoluir para óbito, geralmente resultante de insuficiência respiratória, pneumonia aspirativa, embolia pulmonar, arritimias cardíacas e sepse hospitalar. O Brasil conta hoje com 136 centros especializados em reabilitação, que atendem pacientes com a Síndrome de Guillain Barré pela rede pública de saúde.

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