Aluno do CE se torna 1º médico da família e homenageia parentes com ensaio fotográfico na zona rural
Natallos Casseano é natural de Milagres, município do Cariri.
“Sou filho de pessoas muito simples, com raízes na agricultura” e “serei o primeiro médico da família e de minha comunidade” são frases ditas pela mesma pessoa. Natallos Casseano cravou o próprio nome na história de Milagres, município do Cariri cearense, ao conquistar vaga no curso de Medicina da Universidade Estadual do Ceará (Uece). Agora, ele está cada vez mais perto de realizar o sonho da graduação – e não cansa de emocionar.
Prova disso é o ensaio fotográfico idealizado pelo estudante como forma de homenagear as raízes que lhe permitiram voar. O ambiente rural escolhido para o momento retratou a realidade de agricultores, carroceiros e donas de casa – respectivamente as profissões do avô, do pai e da mãe. “Quis mostrar que essa conquista não é só minha”, diz.
Os registros foram feitos na roça do pai de Natallos, José Ronaldo Manoel. A sensação dos parentes, conta o jovem, emocionou “porque foi algo totalmente diferenciado”, bem distante dos ensaios convencionais em estúdio. “Disseram que estou no caminho certo”, conta.
“Sempre digo que, primeiramente, Deus e depois meus pais, são os grandes responsáveis por eu estar onde estou hoje. Se não fosse pelo apoio deles, sacrifícios e tudo o que fizeram por mim, eu não teria chegado até aqui”. O “aqui” é o sétimo semestre da faculdade e todos os louros que a caminhada educacional tem proporcionado ao jovem de 27 anos.
Veja também
Natallos sempre estudou em escola pública e, em 2017, começou a se preparar intensamente para o vestibular e para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). No total, foram seis anos de mergulho, marcados por persistência, renúncias e disciplina.
Durante o percurso, teve oportunidade de ser bolsista em cursinhos presenciais e on-line. E também conheceu gente capaz de oportunizar novas perspectivas a um panorama que, pouco a pouco, começava a se desenhar. “Pessoas acreditaram em mim e foram fundamentais nessa trajetória, ajudando a abrir portas e a manter vivo meu sonho”.
Ainda assim, conforme conta, a maior parte da preparação foi mesmo em casa, estudando sozinho com materiais doados. Natallos criou a própria rotina de aprendizado e enfrentou dificuldades com autonomia. Não à toa, costuma dizer que, de certa forma, precisou refazer o Ensino Médio duas vezes.
“Não literalmente, mas porque passei seis anos em preparação, enquanto o Ensino Médio regular dura três. Sabemos que muitas vezes a escola pública não consegue preparar o aluno adequadamente para vestibulares tão concorridos, especialmente para cursos como Medicina. Precisei reconstruir essa base por conta própria, com esforço, fé e perseverança”.
Da roça às cadeiras da universidade
Até hoje o futuro médico se pergunta como nasceu em si tanta vontade e força para estudar. Ele afirma que a educação mudou a própria vida no momento em que percebeu não saber o que o destino lhe reservaria caso não seguisse o rastro do conhecimento.
Para se ter ideia, na família de Natallos quase ninguém teve oportunidade de chegar ao Ensino Superior. A maioria concluiu os estudos por meio do programa Educação de Jovens e Adultos (EJA) ou sequer terminou a formação escolar – uma vez que a realidade exigiu que começassem a trabalhar cedo para ajudar em casa e não passar fome.
Um momento vivenciado na infância do cearense, porém, mudou tudo: "Tive alguns problemas de comportamento na escola. Então, meus pais, como forma de ensinar uma lição, me levaram para trabalhar com eles na roça. Eu e minha irmã fomos. Naquele dia, comecei a ajudar no campo, catando milho e feijão, e carregando sacos enormes".
No fim do dia, recorda, mãe e pai olharam para ele e perguntaram: “E aí, vai querer estudar, se dedicar e mudar? Ou prefere vir trabalhar na roça com a gente?”.
“Foi ali que percebi que precisava mudar. Comecei a me dedicar mais na escola, meu comportamento passou a melhorar e, aos poucos, fui criando disciplina para estudar”.
A vontade de desistir o perseguiu várias vezes, é preciso frisar. Sobretudo no início, Natallos diz que estudar pode ser “cansativo e até maçante”. Mas, com constância e foco, o jogo vira. “Não queria seguir o mesmo destino de muitos jovens que, sem oportunidades, acabam abandonando os estudos e indo trabalhar em outros estados, como São Paulo ou no sul do Brasil, em trabalhos pesados, como o corte de cana”, confessa.
“É um trabalho digno, claro. Mas eu sabia que queria algo diferente para a minha vida: estudar, ter oportunidades, dar um futuro melhor para a minha família”. A tão sonhada Medicina, assim, surgiu como propósito. Conecta-se de novo com os primeiros anos de vida.
Quando criança, junto a um colega, Natallos observava os profissionais de um posto de saúde. Ainda não sabia a função de cada um, mas detalhes assaltavam a atenção: do trato dos funcionários ao semblante dos pacientes, tudo virou instrumento para sonhar. “Também queria sentir que estava contribuindo para a sociedade e que poderia aliviar a dor de alguém”.
Ser o primeiro médico da família
A pouco tempo de assumir o posto de primeiro médico da família e de uma cidade tão modesta feito Milagres – o estudante é natural mesmo da comunidade Vila Padre Cícero, a aproximadamente três quilômetros da sede do município – Casseano diz que todos os recentes acontecimentos representam muito para ele.
Quebra de paradigmas, sobretudo. “É o encerramento de um ciclo de dificuldades para que novos ciclos possam ser construídos – de oportunidade, de esperança e de transformação. É também uma grande responsabilidade, essa que me faz continuar estudando todos os dias. Nos momentos mais difíceis, quando o cansaço chega ou quando penso em desistir, lembro da minha família”.
Não sem motivo, o que diz para qualquer pessoa é: independentemente da própria origem, do lugar onde mora ou das opiniões que o rodeiam, não se subestime. É visão convicta, baseada em tudo o que já experimentou na jornada – do desestímulo muitas vezes alimentado por vizinhos, por exemplo, até os próprios pensamentos intrusivos relacionados à desistência.
“Lembro que quando fui fazer o vestibular da Uece, cheguei e vi inúmeras pessoas vestindo camisas de cursinhos. Muitos eram de cursinhos de elite, gente que estava há anos se preparando. E eu estava ali, vindo de uma realidade totalmente diferente, estudando muitas vezes sozinho em casa. Naquele momento, pensei: ‘Meu Deus, eu não vou passar’”, situa.
“Mas aprendi uma coisa muito importante: a gente não pode desistir antes mesmo de tentar. É preciso correr atrás do sonho e acreditar no próprio potencial. Sonhos não têm data de validade. Cada pessoa tem o próprio tempo e a própria caminhada. O importante é persistir. Foi por meio da educação que minha vida começou a mudar. E é por meio dela que muitas outras histórias também podem ser transformadas”.