Professores da rede estadual do Ceará têm 4º maior salário inicial do NE; veja valores

A remuneração inclui gratificações recebidas por toda a categoria.

Escrito por
Theyse Viana theyse.viana@svm.com.br
Professor escrevendo no quadro branco para alunos sentados em uma sala de aula.
Legenda: Salário-base de docentes no Ceará é acrescido de gratificações fixas, segundo a Seduc.
Foto: Davi Rocha/SVM.

Avanços na valorização de uma das categorias profissionais mais importantes em todo o mundo têm refletido no Ceará: professores da rede estadual de ensino cearense recebem o 4º maior salário inicial do Nordeste. O dado é de estudo do Movimento Profissão Docente, com base em 2025, divulgado nesta semana.

A pesquisa aborda os planos de carreira e remuneração do magistério nas redes estaduais brasileiras no ano passado, e analisa aspectos como a estruturação das jornadas de trabalho, as chances de crescimento e os desafios para a valorização prática da categoria.

O salário, então, é ponto central do estudo, que considera as remunerações iniciais e finais, com e sem gratificações. No Ceará, o salário-base inicial para jornada de 40 horas semanais é de R$ 4.961,73, pouco acima do piso nacional (R$ 4.867,77).

Porém, quando incluídas as gratificações recebidas pela categoria, o vencimento chega a R$ 6.839,11 – o 4º maior da região e 9º mais alto do País.

Na rede estadual cearense, esse valor é o mínimo que qualquer docente deve receber. Isso porque, no Estado, as gratificações são itens permanentes e obrigatórios do salário, recebidos por todos os profissionais, como explica a Secretaria Estadual da Educação (Seduc).

Assim, o valor apresentado na pesquisa como "remuneração inicial sem gratificações" do Ceará é, na verdade, apenas a base do que é pago aos docentes. Em nota, a Seduc informa que a remuneração inicial dos professores é formada por três componentes obrigatórios:

  • Vencimento-base (R$ 4.961,73);
  • Gratificação de Regência; e
  • Parcela Variável de Redistribuição (PVR).

São itens “permanentes, incorporáveis e contam para a aposentadoria. Não se tratam de gratificações temporárias ou condicionadas”, acrescenta a Pasta.

Em 2025, o perfil salarial da rede estadual cearense, composta por 13 mil professores efetivos e ativos, segundo a Seduc, era assim:

  • 12% dos professores são licenciados, com remuneração média de R$ 7.140,15;
  • 58% são especialistas, com remuneração média de R$ 11.416,29;
  • 30% são mestres ou doutores, com remuneração média de R$ 14.818,14.

O estudo cita ainda que o rendimento médio dos professores da rede estadual cearense equivale a 96% do valor que pessoas de outras profissões com ensino superior recebem. Essa equiparação de salários é a meta 17 do Plano Nacional de Educação (PNE).

Maria Cecília Gomes, diretora de Políticas Públicas do Movimento Profissão Docente e doutora em administração pública e governo, explica que o estudo diferencia a remuneração inicial da carreira e a soma com gratificações, mas aponta que “o Ceará tem gratificações extensíveis a todos os professores, então, na prática, todos recebem esse valor (com acréscimo)”.

Um dos desafios da rede local e de outros estados em relação à remuneração, por outro lado, é mudar o formato de pagamento de vencimento para subsídio. No primeiro, em resumo, as gratificações não entram no cálculo para aposentadoria; no segundo, são contabilizadas, conferindo mais segurança previdenciária aos docentes.

“Na educação, só seis redes adotam a remuneração por subsídio. Isso dá maior transparência, consolida o salário em parcela única”, explica a diretora. A Seduc, contudo, garante que as gratificações dos docentes cearenses integram, sim, o cálculo previdenciário.

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No sistema educacional brasileiro, entre os valores adicionais que os professores podem receber estão aqueles por atividades que extrapolam as atribuições do cargo ou por compensação a condições excepcionais de trabalho. “Dar aula em lugar de alta vulnerabilidade e difícil acesso ou virar diretor de escola, por exemplo”, cita Cecília.

Outro ponto abordado pela pesquisa como destaque para o Ceará é a amplitude salarial: a possibilidade de crescimento remuneratório do docente é uma das melhores do Brasil. O aumento médio do salário de um professor da rede estadual pode chegar a 89% nos primeiros 15 anos de carreira.

“A carreira do magistério estadual é organizada em 20 níveis, com possibilidade de avanço anual, mediante critérios como avaliação de desempenho, resultados educacionais e formação continuada”, complementa a Seduc, ainda em nota. “No topo da carreira, o valor pode chegar a R$ 21.171,98”, diz a Pasta.

Formação continuada

Vista de trás de um aluno em uma sala de aula, enquanto uma professora escreve no quadro branco e outro aluno assiste.
Legenda: Rede estadual de ensino do Ceará tem cerca de 13 mil professores ativos.
Foto: Davi Rocha/SVM.

De forma geral, o Ceará se sobressai positivamente na avaliação nacional, sobretudo no que se refere à carreira, como observa Cecília. “Não paga o maior salário, mas a carreira tem uma coerência com as outras políticas educacionais. Do Nordeste, o Ceará é o que está com carreira bem organizada”, situa.

Um dos indicadores que reforçam a análise é a organização da jornada do professor, conforme a pesquisadora. “A Lei do Piso estabelece que no mínimo um terço da jornada total do professor deve ser sem interação com os alunos. Essa hora-atividade é para formação continuada, planejamento individual e coletivo, e troca entre pares”, explica Cecília.

No Ceará, conforme o estudo, esse tempo é cumprido 100% na escola, para desenvolvimento profissional do professor. A pesquisadora contextualiza que “é uma das estratégias mais efetivas para melhorar a aprendizagem dos estudantes”, adotada em países como Japão, China, Canadá e Finlândia.

“As melhores práticas educacionais internacionais, onde estudantes aprendem muito, fazem isso. Os professores e gestores discutem entre pares os problemas da escola e dos alunos, trabalham juntos em soluções”, pondera.

Promover formação continuada e proporcionar progressão de carreira em si, porém, não é tudo. Cecília frisa que um dos desafios do Ceará é atrelar esse avanço do docente “à melhoria das práticas de ensino”. Ou seja: garantir que o progresso impacte em sala de aula e no resultado dos alunos.

“Hoje, a progressão é por titulação e tempo de serviço. Mas acumular vários títulos de especialização não necessariamente vai melhorar a prática do professor. Ele deve crescer na carreira em função da melhoria da prática profissional, com instrumentos de avaliação adequados”, sugere a pesquisadora.

Isso se faz, acrescenta ela, “com uma mensuração de desempenho que avalia a prática, mas ninguém no Brasil está fazendo isso”. Cecília cita que o Paraná, por exemplo, tem iniciado movimentos em torno disso, com filmagem e análise das aulas dos docentes, para que eles tenham suporte da rede se precisarem corrigir rotas.

Secretários contestam estudo

O Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) manifestou, por meio de nota nas redes sociais, "preocupação" com a divulgação dos dados de 2025 pela pesquisa, os considerando "desatualizados".

A entidade afirma que "parte das informações apresentadas não reflete atualizações normativas e reajustes implementados por diversas redes estaduais ao longo de 2025 e início de 2026", e reforça que "a valorização docente vai além da dimensão salarial".

O Consed publica ainda que "comparações descontextualizadas entre unidades federativas, sem considerar especificidades fiscais, jurídicas e administrativas não contribui par ao fortalecimento da educação pública".

Confira nota na íntegra:

O estudo do Movimento Profissão Docente informa, ao explicar a metodologia, que "enviou um formulário digital a todas as secretarias estaduais de educação para que os dados fossem validados por elas". 

Das 27 secretarias, 20, incluindo o Ceará, "responderam ao formulário, confirmando as informações pesquisadas ou indicando eventuais inconsistências, que foram devidamente retificadas".

Os estados que validaram os dados foram:  AC, AL, AM, AP, BA, CE, DF, ES, GO, MG, MS, MT, PA, PE, PI, PR, RN, RS, SE e TO.

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