Centro de tratamento e pesquisa para crianças com doenças raras é inaugurado na Unifor

Fluxo inicial de pacientes se dará por meio da regulação e parcerias estratégicas.

(Atualizado às 19:20)
Criança em sessão de fisioterapia em sala com tatame azul e espelho. Uma profissional auxilia na postura enquanto outra interage com um brinquedo educativo. Ambas usam jaleco claro.
Legenda: Ao chegar ao equipamento, pacientes e familiares são acolhidos pela equipe de psicologia e assistência social, e depois são encaminhados à neuropediatria.
Foto: Kid Junior.

Com a missão de oferecer atendimento especializado e interdisciplinar a crianças de 0 a 6 anos acometidas por condições congênitas que comprometem o desenvolvimento neurológico em Fortaleza, o Centro de Neurodesenvolvimento em Doenças Raras (CEND) foi inaugurado nesta quinta-feira (5) no campus da Universidade de Fortaleza (Unifor), no bairro Edson Queiroz.

O evento de inauguração teve a participação de Lenise Queiroz Rocha, presidente da Fundação Edson Queiroz (FEQ), Eduardo Jucá, médico neuropediatra e coordenador do Centro, e Miguel Nicolelis, médico, pesquisador e um dos principais nomes da neurociência mundial, entre outras autoridades. 

Veja também

“Desde o início, o Centro foi idealizado como um grande hub de estímulo ao neurodesenvolvimento. Ele conta com a articulação e integração desde a pesquisa básica em laboratório, passando pelo diagnóstico, assistência, terapias e reabilitação”, afirma Jucá. 

A unidade oferece atendimentos com neurologistas, geneticistas, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, psicólogos e outros profissionais. O Centro está instalado no Núcleo de Atenção Médica Integrada (Nami), equipamento de saúde da Unifor referência em atendimento humanizado. 

O Nami presta serviços à população por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), tarifa popular e também por planos de saúde. O fluxo de pacientes para serem atendidos no CEND será estruturado por encaminhamento e parcerias estratégicas com outras instituições.

35
35 crianças recebem assistência no equipamento atualmente, sendo 13 já com diagnóstico e 22 casos em investigação.

Diagnóstico precoce é essencial

Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma doença é considerada rara quando afeta até 65 pessoas a cada 100 mil indivíduos. Essas condições podem impactar profundamente a vida dos pacientes e familiares. 

Assim, o foco do CEND é garantir respostas rápidas para que as crianças aproveitem os primeiros anos de vida. Para isso, será disponibilizada uma equipe profissional multidisciplinar qualificada com foco no diagnóstico precoce. 

“O atendimento a essas crianças visa encurtar o trajeto delas até um diagnóstico, que muitas vezes é um percurso bastante trabalhoso e com pouca informação para as famílias. Esse é o nosso primeiro objetivo: informação para que as crianças cheguem logo ao seu local de diagnóstico e tratamento”, ressalta o coordenador da unidade. 

Autoridades inauguram o Centro de Neurodesenvolvimento em Doenças Raras (Cend) cortando uma fita azul em um corredor de hospital. Ao fundo, placas de sinalização identificam as alas da unidade.
Legenda: Estiveram presentes no evento o coordenador do Cend, Eduardo Jucá, a presidente da Fundação Edson Queiroz, Lenise Queiroz, o reitor da Unifor, Randal Pompeu, e o médico e neurocientista, Miguel Nicolelis.
Foto: Kid Junior.

Além disso, o equipamento busca integrar assistência médica e produção de conhecimento científico, e auxiliar na formação de profissionais da saúde e no desenvolvimento de pesquisas voltadas ao diagnóstico precoce em gestantes, manejo clínico e inovação terapêutica. 

Para a Fundação Edson Queiroz, a visão de futuro do Centro é se consolidar como referência nacional de oferta de tratamentos que vão da reabilitação a intervenções fetais. Inclusive, a instituição vai oferecer a realização do exame de exoma, quando solicitado, por meio de laboratórios parceiros credenciados. O teste genético de alta complexidade é recomendado para o diagnóstico de doenças genéticas de difícil identificação (casos de consanguinidade) ou quando exames anteriores forem negativos.

Veja também

Compromisso social e apoio às famílias

Desde janeiro, Gustavo Souza, de apenas um ano, é atendido no CEND. A mãe do bebê, Thaissa Aline Souza, de 31 anos, conta que os primeiros indícios de que havia algo diferente com o menino surgiram aos quatro meses de vida, quando iniciaram os episódios de epilepsia. 

Após passar por vários médicos, a família chegou até o diagnóstico de Defeito de Glicosilação Congênita Tipo 2 (CDG-II), uma condição causada por uma alteração genética. “São dois genes que ele recebeu defeituosos que causam a hipotonia (moleza muscular), a epilepsia e o atraso no desenvolvimento”, explica. 

Com as terapias e os atendimentos, Gustavo começou a apresentar mudanças significativas, dando esperança aos familiares. “Ele demorou a sustentar o pescoço, a sentar, mas hoje ele já faz isso [...] O Gustavo já está treinando para ficar em pé, você vê que ele tem as forcinhas na perna, que ele tenta, se esforça”, ressalta. 

Criança em terapia sentada sobre um rolo azul, de frente para um espelho. Duas profissionais de jaleco, máscara e touca realizam o atendimento com brinquedos pedagógicos.
Legenda: Gustavo é uma das 35 crianças que recebem assistência no equipamento inaugurado nesta quinta-feira (5).
Foto: Kid Junior.

Jucá reforça que o Centro nasce com base no tripé universitário de ensino, assistência e pesquisa, oferecendo à sociedade um espaço de formação de profissionais, tratamento e reabilitação para crianças, e cuidado. “Nosso objetivo é justamente aliviar o sofrimento dessas famílias e, ao mesmo tempo, construir conhecimento e capacitar os profissionais”, diz.

A presidente da Fundação Edson Queiroz, Lenise Queiroz, ressalta que o CEND vai preparar os familiares a cuidar das crianças nos primeiros anos de vida, e surgiu a partir de uma notícia de doença rara na própria família. "Uma coisa que eu vi é que poucas pessoas têm o conhecimento. E se a gente tinha todas as condições, imagine as pessoas que não têm. Então, eu comecei a pensar em como nós poderíamos ajudar, esclarecer, esses desafios que às vezes a vida traz", afirmou.

“Nesse período [a primeira infância], tem a neuroplasticidade, que a criança já pode ir desenvolvendo bastante a parte neurológica. Aqui vai ter todo o atendimento multidisciplinar necessário”, diz. 

“Nosso intuito aqui, como sempre foi da universidade, é a melhoria da vida dos nossos semelhantes que estão aqui tão próximos e tentar fazer um pouco mais para que todos consigam chegar a um patamar de um alcance, de entendimento”, ressalta.

“Quase todos os dias a gente sai com ele para fazer terapia, porque querendo ou não, isso é o que garante que o Gustavo vai ficar bem. Então, quanto mais estímulo ele tiver, melhor. Saí de um emprego para me dedicar totalmente a ele”, declara Thaissa. 

Newsletter

Escolha suas newsletters favoritas e mantenha-se informado
Este conteúdo é útil para você?
Assuntos Relacionados