Transportes são 3º maior emissor de gases do efeito estufa no CE; frota individual impulsiona alta
Estudo público aponta crescimento nas emissões e possíveis políticas para o futuro do setor.
O setor de transportes é o terceiro maior emissor de gases do efeito estufa (GEE) do Ceará. Entre 2018 e 2023, as liberações de compostos que intensificam o aquecimento global cresceram 8,2%, oriundas da queima de combustíveis fósseis, em especial a gasolina e o óleo diesel.
Os dados são do novo Inventário de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Ceará, lançado em fevereiro pela Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima (Sema). Para a Pasta, o relatório é “uma ferramenta de gestão climática que funciona como um ‘raio-X’ das fontes emissoras, orientando estratégias de redução e descarbonização”.
Em 2023, o documento aponta que as emissões líquidas no Estado atingiram 34,96 MtCO₂e (milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente), número 24% superior ao registrado em 2018, quando foram lançadas 28,1 MtCO₂e. Do total, 17% correspondem aos transportes, que ficam atrás da indústria (27%) e da agropecuária e desmatamento (31%).
Segundo a análise, esse crescimento pode contribuir com o desequilíbrio do sistema climático e intensificar impactos do aquecimento global, como elevação do nível do mar, disseminação de doenças tropicais, perda de biodiversidade e aumento da frequência de inundações, secas e tempestades.
Para o setor de transportes, o relatório considera veículos aéreos, hidroviários e terrestres, sendo este último responsável por 90% das emissões. E para calcular a produção de gases no período, o inventário se baseou na venda de gasolina, etanol, óleo diesel, gasolina de aviação e querosene de aviação.
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Veículos terrestres e individuais são os principais emissores
A geração de gases de efeito estufa do modal terrestre cresceu 10,5% no período analisado, pulando de 4,6 MtCO₂e em 2018 para 5,1 MtCO₂e em 2023. O aumento foi impulsionado, principalmente, pela expansão da frota e pela demanda por deslocamentos de passageiros e cargas.
Dados do Departamento Estadual de Trânsito do Ceará (Detran-CE) indicam que o Estado registrou uma frota superior a 4,1 milhões de veículos em 2025, sendo a maioria de locomoção individual, como motocicletas (42,68%) e automóveis (34,67%). Em contrapartida, menos de 1% do total corresponde a transportes coletivos, como ônibus (0,54%) e microônibus (0,33%).
A professora de Física da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Mona Lisa Moura de Oliveira, explica que a predominância de meios individuais de locomoção intensifica as emissões do setor.
Os impactos ambientais típicos do transporte individual, sobretudo as motocicletas, incluem: maior consumo total de combustível por passageiro transportado; mais emissões locais e piora de qualidade do ar; e, por último, congestionamento — que aumenta emissões por quilômetro devido ao motor em regime ineficiente.
Um estudo recente da Confederação Nacional do Transporte (CNT) aponta que, enquanto um ônibus urbano com capacidade para 70 passageiros emite, em média, 0,24 kg de gás carbônico (CO₂) por quilômetro útil, um automóvel com ocupação média de duas pessoas emite 1,49 kg — seis vezes mais —, e uma moto 0,52 kg, mais que o dobro do ônibus.
Investir em transporte público poderia reduzir impacto
O inventário propõe estratégias para a redução das emissões do setor, recomendando a transição para modais mais eficientes, como o VLT (veículo elétrico sobre trilhos) e o BRT — sistema de ônibus rápidos em faixas exclusivas. Complementarmente, o documento sugere otimizar a logística urbana por meio do planejamento de rotas, redução de viagens vazias e integração intermodal.
Alinhada a essas diretrizes, Mona Lisa Moura de Oliveira reforça que políticas públicas voltadas à frequência, segurança e conforto são essenciais para atrair usuários ao transporte coletivo. Para viabilizar esse fluxo, ela sugere a ampliação das faixas exclusivas e dos corredores de BRT, estruturas já presentes em Fortaleza.
A professora frisa, ainda, que essa infraestrutura deve vir acompanhada da integração tarifária. Atualmente, o Governo do Estado estuda unificar os cartões de embarque em 2026, visando facilitar o deslocamento dos passageiros entre esses diferentes modais, embora a integração plena de tarifas ainda seja um desafio.
O Ceará também conta com o Bilhete Único Metropolitano, programa estadual de integração tarifária que permite a utilização de linhas urbanas e metropolitanas em viagens intermunicipais nas regiões da Capital e do Cariri, pagando uma única tarifa dentro de um período determinado.
Além disso, Mona Lisa cita que é possível reduzir emissões do transporte terrestre ao implementar medidas de desincentivo ao uso de veículos individuais em áreas mais críticas, ao investir em ações como gestão de estacionamento, zonas de baixa emissão e fiscalização de emissões e de ruído voltada para motocicletas.
Ao Diário do Nordeste, a Sema destaca que a gestão da mobilidade urbana é compartilhada entre diferentes esferas de governo, sendo os municípios, geralmente, responsáveis pelo transporte público urbano, enquanto o estado atua nos sistemas intermunicipais e metropolitanos.
Biocombustíveis como alternativa para neutralizar emissões
O relatório indica que a queima de combustíveis fósseis é a principal fonte de emissões do setor de transportes. A gasolina e o diesel respondem pela maioria da produção dos gases de efeito estufa, sendo o primeiro responsável por 45%, enquanto o outro por 43%.
As demais emissões englobam o consumo de querosene de aviação, o terceiro maior contribuinte, e a categoria outros — que agrupa gás natural veicular (GNV), etanol hidratado e gasolina de aviação.
O Ceará consumiu 1,53 bilhão de litros de gasolina C em 2023, combustível que liderou a demanda no Estado, segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). O setor de transportes, dependente de fontes fósseis, registrou ainda o consumo de 147 milhões de litros de etanol hidratado, reforçando a participação de biocombustíveis na matriz rodoviária cearense.
Inclusive, segundo o inventário, as emissões de CO₂ oriundas do consumo de etanol hidratado, etanol anidro (presente na gasolina comum) e biodiesel (contido no diesel) são neutras e não contribuem para a intensificação do efeito estufa. Diante disso, o documento aponta os biocombustíveis como uma importante medida de mitigação das emissões do setor.
Mona Lisa reforça esse entendimento e cita estratégias que já são adotadas por outros países, que vão desde a revisão de subsídios a combustíveis fósseis até a criação de incentivos fiscais para fontes renováveis. Segundo a especialista, o estímulo pode ser segmentado por categorias — como táxis, aplicativos e frotas logísticas —, contando ainda com maior transparência por meio da rotulagem de emissões por quilômetro e campanhas que detalhem o custo-benefício dessas mudanças para a sociedade.
A professora também acrescenta que a substituição de combustíveis fósseis ganha força com o aumento das misturas obrigatórias. Desde o ano passado, a gasolina passou a incorporar cerca de 30% de etanol anidro, enquanto o diesel teve sua participação de biodiesel elevada para 14% (B14) em 2024.
O Brasil possui uma vocação para esses combustíveis. Não tenho dúvidas de que, diferente de outros países no mundo, a plataforma híbrida é a saída para a redução dessas emissões em grandes centros urbanos, como a cidade de Fortaleza.”
Em Fortaleza, a Empresa de Transporte Urbano de Fortaleza (Etufor) detalha que atua na redução de emissões ao adotar recomendações internacionais para renovar a frota de ônibus do transporte público. Desde 2023, os veículos cadastrados atendem ao padrão Euro VI, que reduz em 97% a emissão de material particulado e em quase 90% a liberação de demais emissões. Atualmente, segundo a estatal, a cidade conta com 116 ônibus Euro IV (7,46%), 1057 Euro V (68,02%) e 381 Euro VI (24,52%).
Ceará possuiria matriz ideal para adoção de elétricos
Além de investir em infraestrutura para transporte público de massa e adoção de biocombustíveis, o relatório destaca a necessidade de incentivar o uso de veículos elétricos, tanto para frotas públicas quanto privadas.
O texto detalha que, entre 2018 e 2023, a eletrificação da frota estadual não ocorreu de forma significativa. Inclusive, é importante destacar que veículos elétricos contribuem indiretamente para a intensificação do efeito estufa, já que dependem da matriz energética, que emite gases de efeito estufa.
No entanto, como aponta o inventário, em 2023, o Ceará possuía 96% da matriz elétrica vinda de fontes renováveis. Logo, cada quilômetro rodado por um veículo elétrico em solo cearense poderia ter uma pegada de carbono inferior a outras regiões do País, que dependem de fontes não renováveis, como termelétricas.
O histórico do Estado com o modal, contudo, é antigo. Na década de 1990, Fortaleza chegou a ter ônibus elétricos (trólebus) em operação. Geridos pela Companhia de Transporte Coletivo (CTC), os veículos circularam entre os bairros Centro e Parangaba dos anos 1967 a 1969, quando foram vendidos à Prefeitura de São Paulo devido a problemas operacionais e de manutenção.
Sobre os desafios atuais, a professora Mona Lisa explica que veículos elétricos desgastam pneus de 20% a 30% mais rapidamente que os movidos a combustão. Isso ocorre devido às baterias, que tornam os veículos mais pesados, favorecendo o desgaste e a consequente emissão de material particulado na atmosfera.
Somado a esse fator, a docente aponta o desafio do uso do gás hexafluoreto de enxofre (SF6) para isolamento e extinção de arcos elétricos em equipamentos de alta voltagem. “O SF6 possui altíssima toxicidade e poder de aquecimento global, por volta de 20 mil a 30 mil vezes pior que o CO2”, detalha.
Apesar disso, para os especialistas que assinam o inventário, a migração para modais mais limpos e híbridos é fundamental para reverter o crescimento das emissões do setor e alinhar o Ceará às metas globais de descarbonização. No texto, eles ainda destacam que as mudanças devem ser acessíveis a todas as camadas da população.